Khrystal questionara, há algum tempo, o preconceito entre a zona Norte e Sul, no qual estão separadas por uma ponte. Mas, existem mais barreiras entre as comunidades mais pobres e as regiões mais abastadas de Natal. Uma linha do trem divide os bairros de Pitimbu e Planalto. Uma linha não imaginária separando a classe média e as comunidades carentes. Separados por dois minutos de um condomínio novo no Planalto, fica a comunidade do 8 de março, em cima de um terreno entre os conjuntos Santa Clara e Leningrado.
A ideia do assentamento, criado em 2012 em uma terra da Prefeitura do Natal cedida pelo Estado com o objetivo de criar um novo conjunto habitacional, era que se tornasse um novo Leningrado, que o mesmo começou com uma ocupação, depois uma favela e finalmente os governantes transformaram aqueles barracões de madeira compensado e lona em casas de alvenaria, tendo direito há uma linha de ônibus, escola e posto de saúde.
Assim como o Leningrado Russo, que conseguiu vencer o poderoso Adolf Hitler, o xará natalense também ganhou a batalha. Teoricamente.
Não foi assim que aconteceu com o 8 de março. No dia 05 de outubro, um incêndio destruiu os barracões do terreno, deixando 108 famílias desabrigadas. O caso entrou nas manchetes; todo mundo focando nas ações de caridade. Apesar dos moradores estarem satisfeitos com o bom coração dos habitantes, eles querem a resposta da seguinte pergunta: E depois?
Fotos/Diagramação: Lara Paiva
O que é a comunidade 8 de março?
A comunidade 8 de Março surgiu a partir de um grupo de pessoas que também ajudaram a construir Leningrado, com esperança de fornecer novas moradias às pessoas. A maioria vinham de outros assentamentos, do interior do Rio Grande do Norte com a esperança de um futuro melhor na capital potiguar e de gente que fugiu de um ambiente familiar abusivo. De acordo com os moradores, todos viviam em harmonia, era tranquilo e todas as atividades feitas dentro do local era consultada pelos moradores. Histórias parecidas com as de outras comunidades brasileiras.
Desde 2013, a Prefeitura prometia a construção de casas de alvenaria aos habitantes.
O incêndio
O incêndio aconteceu no início da tarde do dia 05 de março em um dos barracões e o rapidamente o fogo se espalhou para outras casas, deixando 108 famílias desabrigadas. Apesar da tentativa dos moradores, o incidente só foi controlado com a chegada do Corpo de Bombeiros. Somente os barracões da frente resistiram ao fogaréu, porém ainda conseguimos ver as marcas pretas das casas que ficaram, as cinzas, os móveis que foram destruídos jogados no terreno da frente e algumas pessoas que ainda estão nas casas, preocupadas com o futuro.
Qual a esperança dos sobreviventes do incêndio Oito de Março ?
E agora, qual é o próximo passo? Neste momento as vítimas estão abrigadas na Escola Municipal Otto Brito de Guerra, também conhecido como CAIC de Cidade Satélite, no qual a previsão é ficar no local por 60 dias e estão recebendo a imprensa, assistência social da Prefeitura do Natal, da Cruz Vermelha, Exército e as doações de pessoas físicas e jurídicas. Apesar da solidariedade, os corações deles ainda não estão tranquilos, visto eles querem saber qual é o próximo passo.
PS: Se está lendo através dos dispositivos móveis, vire o tablet ou celular na horizontal para ler melhor os depoimentos.
Observação da autora
Fazer esta matéria foi bastante difícil entre muitos aspectos, porque não queria contar apenas o factual, como o restante da imprensa está elaborando. Mostrar um olhar mais antropológico. Afinal, eles são seres humanos, que independente das nossas realidades, eles possuem família e sonhos.
Agora escrevo este depoimento sentada em um sofá, no conforto do meu lar com direito a comida, roupa, acesso aos estudos e documentos na zona Sul de Natal e do outro lado da cidade há 108 famílias tentando conviver juntos em uma escola sem lenço e sem documento no sol de quase dezembro, como já dizia Caetano Veloso, enquanto os governantes municipais e estaduais prometem mil maravilhas, sabendo que ano que vem são eleições gerais no Brasil (se os deputados e senadores da Câmara Federal quiserem).
A gente ainda consegue enxergar os sorrisos no meio do caos das ajudas que recebem de minuto a minuto, mas ao mesmo tempo olhava a angústia de dona Rogéria, com olhos toda hora lacrimejando, se sentindo culpada com o incêndio que começou em sua residência, pensando o que fazer para o dia de amanhã com três filhas pequenas e desempregada. De como levar os filhos que estão sem estudar por está distante da escola.
Da tristeza de Maciel que, entre um cigarro e outro, tenta ajudar os outros moradores que estão dentro da escola, mesmo estressado com a situação.
Me senti invasiva, às vezes, sentindo que estava atrapalhando algo que já é caótico por natureza. Muitas vezes as entrevistas eram interrompidas pelos assistentes sociais da Prefeitura perguntando se estavam tudo bem com eles e perguntando o que precisavam mais naquela hora. Praticamente, uma situação de guerra.
Espero que a situação do 8 de março seja olhada muito mais que uma reportagem factual e saber que um planejamento urbano em Natal é uma necessidade mais que urgente.
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