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Cine Nordeste: Assistindo filme no meio da rua em Natal

Retratos Fantasmas foi exibido na rua João Pessoa, próximo do Cine Nordeste, antigo cinema de rua da cidade.

Cine Rio Grande. Panorama. Rex. Cine Nordeste. Mencionei alguns nomes de cinemas de rua da capital potiguar que fecharam em meados dos anos 2000. Alguns viraram igrejas evangélicas, como Panorama. Outros são lojas ou espaços para receber ponto comercial, como o Rex. Tentando estimular a recuperação, e o estímulo a volta das salas de exibição de filme fora dos shoppings, a loja Discol e o projeto “Aqui Já Existiu um Cinema” realizou uma ação neste sábado (31), na rua João Pessoa, no bairro de Cidade Alta.

O nome do evento é “Cine-Cidade Discola” que desde o início da manhã reuniu interessados pelo cinema e a manutenção do patrimônio da cidade. Além de bate-papo sobre a preservação dos patrimônios históricos e conservação dos cinemas de rua, o evento também realizou uma discotecagem e a exibição de filmes.

A exibição foi na rua, onde cadeiras de praias foram instaladas e enfileiradas para o público, que viria em um telão de projeção e aparelhos de som do lado. Como se fosse no cinema outdoor. Assim que começou o filme, a equipe distribui pipoca gratuitamente. Claro que a gente consumiu tudo, afinal este texto só surgiu porque fomos.

Os filmes

Pessoal vendo filme nas cadeiras de praia (Fotos: Lara Paiva)

Primeiramente foram exibidos três curtas com 20 minutos cada. O que eles têm em comum? Questionar a preservação de Natal e da identidade do povo natalense, seja na produção cinematográfica até na construção do cidadão.

Depois veio a estrela da noite: a exibição de “Retratos Fantasmas”, de Kleber Mendonça Filho. Já assisti ao filme quando estava em Porto Alegre e foi no Cinema de Rua do Espaço Cultural Mario Quintana. Mas, lhe assistir novamente após ter visto “O Agente Secreto” no Cine São Luiz trouxe um novo frescor.

Kleber não apenas mostrou o apagamento dos cinemas dos grandes centros urbanos ou a história dos cinemas de rua de Recife, mas trouxe a importância de documentar e preservar a história da cidade, mesmo que seja em vídeo. Talvez, no futuro, estas imagens do cotidiano nunca mais vão existir e o que resta será apenas um fragmento de segundo ou um frame de filme de 35mm.

Sem contar que Kleber aponta que o cinema não é só o ato de ver filme, mas um evento social no qual as pessoas conversam, comunicam e traz a verdadeira essência do ser humano: comunicar. O Villém Flusser já dizia que “a informação e a comunicação como aquilo que confere poder e constitui a infraestrutura da sociedade”.

O ato de assistir o meio de comunicação que é um filme dentro de outro meio de comunicação é uma metalinguagem. E o compara com a ação do diretor de cinema, que fica invisível, mas sempre preservando a melhor imagem para contar a sua história.

O ponto interessante do evento

A equipe do Discol foi espera ao realizar o eventol. Sua escolha foi interessante, porque o seu espaço fica em frente ao tradicional Cine Nordeste. Prédio abandonado há mais de 10 anos, quando a loja de departamento Leader fechou as portas por falência.

A intenção é criar uma consciência da importância de reformar o espaço tombado pela Fundação José Augusto desde 2008, quando a fachada e o painel que existia eram para ser preservados (veja a história do cinema no final da matéria).

Sem contar que é uma forma de mostrar a existência de loja de discos na cidade, além de que o espaço está sendo passado de geração em geração. Ou seja, é possível preservar a história sem destruir. Por isso que durante a discotecagem e antes da exibição, os visitantes puderam ver os discos para comprar ou consumir algo no café da loja o Lado B, trazendo uma referência aos lados dos long plays.

Foi pensando nesta lógica que toda a programação aconteceu, mostrar que a preservação histórica tem que vir da população até os governantes. Não contrário. Se Kleber Mendonça Filho não tivesse filmado a parte interna dos cinemas de Recife o público recifense saberia dessas lojas por dentro? Talvez não. Ou apenas viraria um pedaço de arquivo de jornal que só um pesquisador pudesse ver.

História do Cine Nordeste

Unaugurado em 1958. Os mais novos lembram pelas exibições de filmes pornôs e os mais antigos reconhecem que assistiram grandes clássicos nas duas salas existentes. Era um dos poucos que tinha ar-condicionado e cadeiras confortáveis. O prédio também foi espaço para a sede da Rádio Nordeste em Natal.

Após o período de decadência e exibindo filmes pornôs, o cinema fechou. Em 2008, a loja Leader está em seu lugar. A fachada e paredes externas foram tombadas como patrimônio cultural pelo Governo do estado em 26 de junho de 2008.

A empresa, além de preservar o prédio, se comprometeu a revitalizar a Praça Kennedy e o Beco da Lama, nas proximidades.

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Cine Nordeste: Assistindo filme no meio da rua em Natal

Retratos Fantasmas foi exibido na rua João Pessoa, próximo do Cine Nordeste, antigo cinema de rua da cidade.

Cine Rio Grande. Panorama. Rex. Cine Nordeste. Mencionei alguns nomes de cinemas de rua da capital potiguar que fecharam em meados dos anos 2000. Alguns viraram igrejas evangélicas, como Panorama. Outros são lojas ou espaços para receber ponto comercial, como o Rex. Tentando estimular a recuperação, e o estímulo a volta das salas de exibição de filme fora dos shoppings, a loja Discol e o projeto “Aqui Já Existiu um Cinema” realizou uma ação neste sábado (31), na rua João Pessoa, no bairro de Cidade Alta.

O nome do evento é “Cine-Cidade Discola” que desde o início da manhã reuniu interessados pelo cinema e a manutenção do patrimônio da cidade. Além de bate-papo sobre a preservação dos patrimônios históricos e conservação dos cinemas de rua, o evento também realizou uma discotecagem e a exibição de filmes.

A exibição foi na rua, onde cadeiras de praias foram instaladas e enfileiradas para o público, que viria em um telão de projeção e aparelhos de som do lado. Como se fosse no cinema outdoor. Assim que começou o filme, a equipe distribui pipoca gratuitamente. Claro que a gente consumiu tudo, afinal este texto só surgiu porque fomos.

Os filmes

Pessoal vendo filme nas cadeiras de praia (Fotos: Lara Paiva)

Primeiramente foram exibidos três curtas com 20 minutos cada. O que eles têm em comum? Questionar a preservação de Natal e da identidade do povo natalense, seja na produção cinematográfica até na construção do cidadão.

Depois veio a estrela da noite: a exibição de “Retratos Fantasmas”, de Kleber Mendonça Filho. Já assisti ao filme quando estava em Porto Alegre e foi no Cinema de Rua do Espaço Cultural Mario Quintana. Mas, lhe assistir novamente após ter visto “O Agente Secreto” no Cine São Luiz trouxe um novo frescor.

Kleber não apenas mostrou o apagamento dos cinemas dos grandes centros urbanos ou a história dos cinemas de rua de Recife, mas trouxe a importância de documentar e preservar a história da cidade, mesmo que seja em vídeo. Talvez, no futuro, estas imagens do cotidiano nunca mais vão existir e o que resta será apenas um fragmento de segundo ou um frame de filme de 35mm.

Sem contar que Kleber aponta que o cinema não é só o ato de ver filme, mas um evento social no qual as pessoas conversam, comunicam e traz a verdadeira essência do ser humano: comunicar. O Villém Flusser já dizia que “a informação e a comunicação como aquilo que confere poder e constitui a infraestrutura da sociedade”.

O ato de assistir o meio de comunicação que é um filme dentro de outro meio de comunicação é uma metalinguagem. E o compara com a ação do diretor de cinema, que fica invisível, mas sempre preservando a melhor imagem para contar a sua história.

O ponto interessante do evento

A equipe do Discol foi espera ao realizar o eventol. Sua escolha foi interessante, porque o seu espaço fica em frente ao tradicional Cine Nordeste. Prédio abandonado há mais de 10 anos, quando a loja de departamento Leader fechou as portas por falência.

A intenção é criar uma consciência da importância de reformar o espaço tombado pela Fundação José Augusto desde 2008, quando a fachada e o painel que existia eram para ser preservados (veja a história do cinema no final da matéria).

Sem contar que é uma forma de mostrar a existência de loja de discos na cidade, além de que o espaço está sendo passado de geração em geração. Ou seja, é possível preservar a história sem destruir. Por isso que durante a discotecagem e antes da exibição, os visitantes puderam ver os discos para comprar ou consumir algo no café da loja o Lado B, trazendo uma referência aos lados dos long plays.

Foi pensando nesta lógica que toda a programação aconteceu, mostrar que a preservação histórica tem que vir da população até os governantes. Não contrário. Se Kleber Mendonça Filho não tivesse filmado a parte interna dos cinemas de Recife o público recifense saberia dessas lojas por dentro? Talvez não. Ou apenas viraria um pedaço de arquivo de jornal que só um pesquisador pudesse ver.

História do Cine Nordeste

Unaugurado em 1958. Os mais novos lembram pelas exibições de filmes pornôs e os mais antigos reconhecem que assistiram grandes clássicos nas duas salas existentes. Era um dos poucos que tinha ar-condicionado e cadeiras confortáveis. O prédio também foi espaço para a sede da Rádio Nordeste em Natal.

Após o período de decadência e exibindo filmes pornôs, o cinema fechou. Em 2008, a loja Leader está em seu lugar. A fachada e paredes externas foram tombadas como patrimônio cultural pelo Governo do estado em 26 de junho de 2008.

A empresa, além de preservar o prédio, se comprometeu a revitalizar a Praça Kennedy e o Beco da Lama, nas proximidades.

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Desenho do ilustrador Um Samurai

Lara Paiva é jornalista e publicitária formada pela UFRN, com especialização em documentário (UFRN) e gestão de mídias sociais e marketing digital (Estácio/Fatern). Criou o Brechando com o objetivo de matar as suas curiosidade e de outras pessoas acerca do cotidiano em que vive. Atualmente, faz mestrado em Estudos da Mídia, pela UFRN e teve experiência em jornalismo online, assessoria de imprensa e agência de publicidade, no setor de gerenciamento de mídias sociais.

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