O Brechando ainda visitou alguns lugares da capital pernambucana onde o filme foi gravado.
Se quiser ir direto à resenha atual só clicar aqui e vamos separar este texto por tópicos. (PS: Tem spoiler)
Prefácio: Mudei de opinião sobre o filme
Ao assistir a primeira vez “O Agente Secreto” estava com uma expectativa altíssima. Afinal, queria que fosse algo tão surpreendente quanto “Bacurau”, mas fiquei decepcionada. Queria algo eletrizante. Mas, não foi e achava brasileiro demais para europeu e os americanos pudessem compreender.
Falei isso abertamente na crítica “Ceci n’est pas um filme de Hollywood“. A diferença dos últimos dois filmes de Kleber Mendonça Filho está na forma do discurso. Bacurau, mais direto e distópico. O recente, real, sútil e cruel. Nem sempre podemos ser Tarantino, que recria finais para se vingar dos vilões da “história”, como fez em “Bastardos Inglórios”.
Agora enxergo com mais clareza as pontas soltas que tanto criticava na primeira vez, porque ainda estamos tentando descobrir os crimes que a Ditadura Militar acobertou, mesmo após 40 anos de seu fim.
Agora, hora de falar de Recife e ver o filme no São Luiz
Andar por uma cidade que é sinônimo de frevo, carnaval, cultura e Oscar
O meu objetivo oficial da minha ida ao Recife foi prestar o Concurso Público Unificado de Pernambuco. Mas, durante a semana que antecedeu minha viagem, noticiaram quatro indicações ao Oscar e, melhor, a obra ganhou Globo de Ouro na categoria de “Melhor Ator de Drama” e “Melhor filme internacional”.
Logo, Recife estava em êxtase na visão dos principais jornais do Brasil. A medida que chegava a data da minha viagem, pensei: “Preciso passar nos lugares que o filme foi gravado”. Então, a sorte esteve ao meu lado na viagem.
Os cenários de “O Agente Secreto” que transamos
Como já diria o grande pernambucano Reginaldo Rossi: “O que a gente transava eram três ou quatro cubas”. Na música, ele dizia que nos bailes pernambucanos os rolês eram apenas consumir Cuba Livre (Coca-Cola com Rum) e andar pelas ruas.
Coincidiu que o Air BnB que ficamos estava no quarteirão próximos de vários cenários e fomos “transar” pelas ruas recifenses. Primeiro cenário que vimos foi os Correios, na cena que Marcelo manda um telegrama.
Passamos a noite comendo churrasquinho no Beco dos Poetas (rua da Roda), próximo da Praça do Sebo, onde o matador contratado (feito brilhantemente pelo ator potiguar Kaiony Venâncio) cruzou para fugir de seus opositores.
No filme, o antagonista, mesmo baleado teve tempo de tomar um lanche no Chá-Mate Brasília (estava fechado quando passamos).
Quando fiz o concurso, sai da região central e fui para zona Norte do Recife, lá achei mais um cenário: Banco de Sangue Hemato. Lá funcionou o antigo Cine Boa Vista, conforme o filme mencionou em uma fala de Fernando, médico e filho do Marcelo, sob a atuação de Wagner Moura.
Mas, não posso deixar de falar de um cenário: o São Luiz. Meu primeiro encontro aconteceu neste sábado (24).
Ao atravessar a ponta da Rua do Sol (aquela que Alceu Valença menciona na música “Pelas Ruas que Andei”) saímos do bairro de Santo Antônio e chegamos ao de Boa Vista (também mencionada na mesma canção de Alceu) onde está o quase centenário São Luiz de Recife, protagonista desta matéria e cenário do filme.
Assistindo ao filme brasileiro e internacional no São Luiz de Recife

Após assistir filme no Moviecom e na Mostra de Gostoso, hora de ver o filme no principal cenário: São Luiz de Recife. O espaço fica nas margens do Rio Capibaribe e foi inaugurado no ano de 1952. Os ingressos eram disponíveis de duas formas. A primeira, na internet. Entretanto, ingressos esgotados. Mas, a organização forneceu uma segunda chance: ir presencialmente.
Entretanto, tinha um pequeno problema: a bilheteria só iria liberar os 50 primeiros ingressos faltando meia hora para a sessão começar. Se o filme rodaria às 14 horas, logo a venda começaria às 13h30. O relógio bateu 12h30 quando resolvi aventurar na fila, que já estava contornando a calçada. Durante o período, alguns estavam ansiosos e esperançosos em conseguir o ingresso (podia ser dois por CPF), outros já solicitavam o Uber para assistir no cinema do shopping mesmo.
“É o jeito ir ao shopping. Mas, queria ver aqui, pois o filme foi gravado no São Luiz”, disse uma moça da minha frente ao deixar a fila.
Uma coisa que me deixou irritada na fila foi quando uma moça chegou e encontrou um grupo de amigos ao acaso que estavam mais na frente. Como resultado, se aprochegaram e aumentar as chances. Outros faziam um censo contando quantas pessoas davam 50 ingressos.
“Não vai dar para todo mundo. Mas, quem quiser arriscar e pegar os lugares sobrando, por favor, podem esperar”, alertou um dos funcionários.
Realmente, o pior aconteceu. Faltavam cinco pessoas na minha frente quando a bilheteria fechou. Então, comecei a alertar a outras pessoas o ocorrido. Gritei: “Ei, esgotou, viu?”. Rapidamente veio o mesmo trabalhador do cinema e recomendou quem ainda queria insistir ficasse numa outra fila para aproveitar as sobras.
Destrinchando para explicar que conseguimos as sobras
O que são essas sobras? Consiste simplesmente em lugares vazios deixados por pessoas que compraram na internet e não puderam comparecer na sessão ou chegou com 20 minutos de atraso. “Primeiro, passamos dois trailers institucionais do Governo de Pernambuco (atual administradora do filme) e começa o filme. Se a gente detectar que teve pagante que não entrou a gente chama e vocês não precisam pagar“, alertou.
Após uns 20 minutinhos, conseguimos e ao entrar não conseguia tirar o olho da beleza daquele espaço, que era muito luxuoso, parecia um hotel de cinco estrelas em versão salas de cinema.
Sobre o cinema

Em Retratos Fantasmas, documentário do diretor que fala dos cinemas de rua do Recife, o mesmo fica no térreo do Edifício Duarte Coelho e ocupa os quatro primeiros pavimentos do prédio, com catorze andares ao todo.
Tem seu estilo arquitetônico com referências à Art déco. E não foi por acaso, uma vez que o proprietário do cinema, Luiz Severiano Ribeiro, natural do Ceará e dono de cinemas espalhados pelo país, amava este tipo de arte, inclusive a decoração que tinha o propósito de fazer com que o público se sentisse em um palácio.
Tanto que o nome é uma homenagem ao Luís XIV da França. E o Ghirotti, um dos principais vilões da história, achava que a gente só prestava para agropecuária, não é mesmo? Olha que foi difícil conciliar a atenção de assistir ao filme e a admirar a decoração do São Luiz. Fato: mais bonito que muito ponto turístico existente no Sudeste.
As primeiras coisas que vi foi lado da tela dois vitrais de autoria da artista plástica Aurora de Lima aluna de Heinrich Moser. No hall de entrada encontra-se um painel de Lula Cardoso Ayres. Quando passava as cenas no São Luiz, os vitrais foram acesos, no qual rapidamente parei para tirar foto. Era como se fosse uma criança ao se olhar no espelho e dizer: “Olha eu aqui”.
Hora de ver o filme
Na entrada, após o sufoco de conseguir entrar foi ver o piso de mármore branco e perceber que as paredes têm revestimento em jatobá e as luminárias são em bronze. Dando um toque de sofisticação. O telão próximo dos vitrais forrados com uma cortina de veludo vermelha e toques dourados com um palco em volta (nota: depois eu soube que a organização inclui na programação peças de teatro e festivais nas suas programações culturais)teto forrado com gesso decorativo com peças em arabesco, forro de tapeçaria nobre e madeiras de jatobá em sua volta.
Era um misto de sensação de “Caramba, estou vendo um filme indicado ao Oscar no cenário em que foi gravado” com “Que cinema lindo”. Ao mesmo tempo, eu fico feliz em ver uma cidade que está acolhendo tão bem as suas produções locais e torcendo para atingir mais as pessoas. Afinal, é representação social não só do Brasil Militar, mas do hoje que nossas histórias sempre querem nos apagar.
Concluindo
Assistir ao filme pela terceira vez trouxe nuances que não reparei nas vezes anteriores. Primeiro, o resgate de procurar saber quem nós somos. Marcelo queria saber quem é a mãe e não teve mais memória dela. Cinquenta anos depois, o seu filho passou pelo mesmo caminho. A Ditadura Militar ainda é uma roupa velha no armário e temos preguiça de tomar iniciativa de desapegar. Muitos opositores foram mortos, sendo difamados até os dias atuais, pelo fato de ter defendido estudantes, brigado com gente do governo por qualquer motivo ou pelo simples fato de se manifestar.
Por fim, é lamentável o argumento de que o passado machuca deveria ser descartado. Sendo a solução é escancarar para não repetir os mesmos erros. Portanto, temos que conservar nossa história, independente do meio e contexto histórico.






