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Nietzsche já dizia que nós temos a arte para não morrer de verdade. Acredito que a arte pode ser uma forma de sobrevivência e de sustento, o problema é que a mesma não é valorizada devidamente. Já escutei diversas vezes que quem faz arte é vagabundo, sustentado pelos pais e que vai passar fome. Mas, por que não utilizar a arte para tirar as pessoas de situação de roupa? No início deste mês, inicialmente indo para Ribeira, resolvi pegar o caminho da Via Costeira, no qual uma garota estava no sinal de acesso à estrada e resolveu fazer marabales. Depois, ela fez malabares enquanto fazia slackline, no qual a corda estava amarrada entre as duas palmeiras do canteiro.

Depois disso, os vidros foram abaixados e rapidamente a menina foi aplaudida, recebendo as moedas pela sua apresentação.

Durante a noite, eu conheci o Júnior que veio do interior do Rio Grande do Norte para conseguir uma vida melhor na capital potiguar. Como não tinham grana, eles tiveram que viver nas regiões periféricas de Natal.

Rapidamente, o Júnior começou a envolver com pessoas erradas e rapidamente poderia ter entrado no mundo do crime. Mas, Júnior começou a aprender fazer artesanato com palha dos coqueiros, no qual a pessoa entrelaça as pequenas folhas e podem fazer desde um gafanhoto, uma rosa e até simplesmente o chapéu. O garoto aproveitou a brecha na lanchonete que a gente estava, antes que o segurança pudesse lhe expulsar.  Devido às tatuagens feitas de forma improvisada e roupa batida, muita gente ficou com ar de desconfiado, achando que fosse um ladrão. Até ele tirar um galho, dizendo que queria mostrar a sua arte.

Alguns, mesmo desconfiados, toparam que ele mostrasse.  Então, comecei a conversar com ele enquanto fazia o gafanhoto com folhas de coqueiros. “Estou nisso há quatro anos, eu comecei com 16 anos por causa do meu vizinho. Hoje, tenho 19, você acredita que eu tenho 19 anos? Me dá essa idade?”, dizia o artesão.

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À medida que o entrelaçado da palha de coqueiro estava dando forma, mais pessoas vinham para lhe chamar atenção, ficavam perguntando se podia fazer uma para ele. Uns 10 minutos depois, ele entregou o gafanhoto para um amigo meu, pago por 10 reais. Vi que ele não era bom somente nos gafanhotos de coqueiro, mas também nas tatuagens e perguntei sobre o raio que ele tinha no rosto. Prontamente, ele respondeu:

“Gosto daquele filme do Harry Potter, mas o raio fui eu que desenhei e pedi para o cara fazer igualzinho”, afirmou.

Ele diz que faz mais esta arte para os turistas. “Faço muito isto em Ponta Negra, na orla. De vez em quando faço nos restaurantes que ficam perto da Rua do Salsa”, contou.

Após alguns minutos, ele foi embora. O preço que ele cobra para cada trabalho? Apenas 10 reais, enquanto grifes que dizem trabalhar com o mesmo material vendem bolsas custando, no mínimo, 10x o preço.

Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome (MDS), essa população é composta predominantemente por homens (82%), negros (67%) e que exercem alguma atividade remunerada (70%). Entre os principais motivos que os levaram à situação de rua estão o alcoolismo/drogas (35,5%), o desemprego (29,8%) e os conflitos familiares (29,1%).

Em dezembro do ano passado, o site Razões Para Acreditar postou projeto chamado  Equinócios: Atividades em Comunidade, em Brasília, realiza uma série de atividades com moradores em situação de rua, entre elas, oficinas de agroecologia, fotografia, arte urbana circo e música. Segundo os idealizadoras do projeto, a oficina que mais repercutiu entre os alunos foi a de agroecologia. Ela conta que, através da produção orgânica, “temos hoje ervas medicinais, aromáticas e comestíveis para essa população”. Ou seja, formaram emprego, educação e comida para estes moradores, diminuindo, assim, a criminalidade, na capital federal.

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O projeto foi aprovado pelo FAC (Fundo de Apoio à Cultura), através de um edital da Secretaria de Fomento e Incentivo à Cultura publicado em 2014.

No Rio, existe um projeto chamado SER [Núcleo de Circo Social], que tem multiplicado sua ação implementando diretamente núcleos comunitários de Circo Social em parceria com outras Organizações Não Governamentais, associações e lideranças comunitárias e escolas da rede pública.

O projeto atua Niterói, Queimados, São João de Meriti e bairros da grande Rio de Janeiro como Santa Cruz, Vila do João e no complexo Cerro Corá no Bairro do Cosme Velho.

Citei alguns exemplos de fora e depois quero saber se existe em Natal. Portanto, Mais arte, por favor!

 


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Sobre a autora

Jornalista formada pela UFRN, criou o blog em 2015 e não esperava que fosse fazer altas brechadas sobre Natal-RN e outras cidades que visitou. Gosta de trabalhar com a internet, mídias sociais, fotografar e escrever. Clique aqui para saber mais sobre mim.

Desenho: @umsamurai

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