Dia da Mulher 2018 – Brechando

Mulher: Você foi encoxada no ônibus?

Quem é mulher e tem a experiência de utilizar o “maravilhoso transporte público” sempre passa por alguns perrengues. Quando estagiava no Portal No Ar, que era no bairro de Petrópolis, por exemplo, eu perdi as contas de quantas vezes eu via uma velho tarado me olhando o tempo todo, como se fosse querer me secar ou soltar um xaveco nojento. Além disso, tinha aquele “abençoado” que ficava com as pernas abertas no banco e fazendo gestos obscenos. Na época eu não tinha noção que aquilo podia ser um assédio sexual. Ainda tem a famosa encoxada, no qual a vontade é dar um soco na cara, mas as pessoas vão te denominar de louca.

Nesta última série de reportagens em homenagem ao Dia da Mulher, o Brechando prometeu e vai cumprir a promessa de falar sobre assédio dentro do transporte público. Até o momento não sabemos o quanto de mulheres potiguares já foram assediadas ou estupradas nesse ano. Uma pesquisa da Prefeitura do Natal, em campanha para o Dia Internacional da Mulher, aponta que 61,34% das moças entrevistadas receberam alguma encoxada proposital. O que ser isso?

De acordo com o dicionário informal:

Ação masculina onde o homem abraça a mulher pelas costas e roça o pênis nos glúteos femininos, a fim de ficar excitado.

Ou seja, você está em pé no ônibus, rezando para que a parada para casa seja tranquila, enquanto um rapaz fica se esfregando em você, no qual muitas vezes chega a colocar o pênis para fora e ejacula sobre a garota. Se você pesquisar a palavra “encoxada” no Google, a maioria dos links vão para sites pornográficos, cujos vídeos mostram homens que são “profissionais” neste tipo de assédio em transporte público de várias partes do Brasil e também em outros países.

O Município aponta que esta pesquisa foi realizada em parceria com o Instituo Perfil, no qual entrevistaram 800 garotas. Algo preocupante, quando quase 500 mulheres dizem que já foram vítimas de violência sexual. Nestas entrevistas, 67,24% das entrevistadas afirmaram já ter presenciado algum tipo de assédio sexual dentro dos transportes coletivos da cidade, enquanto 30,63% responderam que não presenciaram e 2,13% não souberam ou não quiseram responder a pesquisa.

Como é previsível, a maioria dos casos acontecem em lugares menos abastados da sociedade. O estudo revelou que mulheres usuárias do transporte coletivo da zona Norte (82,52%) da capital foram as que mais presenciaram o assédio sexual dentro do coletivo, seguidas pelas mulheres das zonas Leste (68,52%), Sul (65,52%) e Oeste (52,52%).

Os tipos mais comuns de assédio sexual relatados na pesquisa são: encoxadas propositais (61,34%), olhares inconvenientes (45,35%), cantadas inconvenientes (39,78%), toque em alguma parte do corpo (35,50%), sussurros indecorosos/indecentes (18,77%) e gestos obscenos (tocar na genitália/masturbação) com 11,15%.

Por causa disso, a Prefeitura do Natal lançou uma campanha virtual chamada #NatalContraAssedio, onde peças publicitárias foram instaladas no ônibus e haverá atividades de conscientização na cidade. A STTU vai disponibilizar mensagens chamando atenção para o enfrentamento ao assédio sexual nos transportes públicos em seus painéis eletrônicos. O assédio é considerado como uma contravenção penal, o que configura crime. Alguns casos de assédio/importunação ofensivas se configuram como estupros e são tratados pela lei desta forma. A campanha contra o assédio sexual no transporte público de Natal terá ações coordenadas em todas as regiões da cidade.

Elas preferem ver satanás do que machista escroto na rua

Na segunda reportagem especial do Dia Internacional da Mulher, o Brechando entrevistou a banda Demonia, formada por meninas e tem conteúdo criticando o capitalismo, o machismo e as situações políticas que estão rolando. Durante a entrevista falou sobre machismo, representatividade e também sobre o cenário musical de Natal para mulheres.

Os diálogos iniciais da gente era:

“Hey, eu te conheço, sempre te via no Saga e Yujô. Você andava com os otakus da Sociedade dos Cadáveres Mortos (grupo que participava quando adolescente alternativa de Natal e tinha um blog no wordpress)”
“Nossa, não sabia que você conhecia aquela menina! Natal é um ovo!’
“Natal conhece todo mundo!”
“Cuidado com o gato, ele tá com a orelha ferida” – disse uma delas, após ter tido ataque de fofura com os gatos do restaurante e colocado uma no meu colo.
“E agora, vamos fazer a entrevista no local com mais barulho ou voltamos para mesa da frente ?”

Foto: Luana Tayze

O rock e a mulher sempre existiu, mas o machismo ainda as perseguem. Principalmente, na cena punk. Quantas bandas só de meninas deste estilo você conhece? E as brasileiras? Você já ouviu falar de Mercenárias? Dominatrix ? Aqui em Natal, por exemplo, existem várias bandas punks de garotas, porém uma delas está começando a dominar a cena alternativa.

Em meio às 666 digressões que tivemos em meia-hora de entrevista, eu e as meninas do grupo Demonia (sem acendo circunflexo mesmo) concordamos em uma coisa: a sociedade patriarcal tem que parar e ficamos denunciando um monte de coisa escrota que acontece todos os dias. A famosa sororidade. Elas cresceram vendo a Pitty, Rita Lee e dentre outras mostrando que uma mulher pode dominar o velho e bom rock and roll. Agora, elas acompanham a repercussão nacional que as potiguares Emmily Barreto e Cris Botarelli, do Far From Alaska, estão tendo. As Demonias querem, no entanto, muito mais que mulheres no rock, mas que sejam capazes de lutar contra o patriarcado.

Apesar de viverem em meios alternativos, onde deveria ter uma mente mais aberta, a mulher ainda é colocada à prova para mostrar que é capaz e competente. “Teve um show lá em Recife, que fiquei falando o tempo todo para retornar o som da minha guitarra e o técnico de som ficou o tempo todo fingindo de doido ou perguntando se eu tinha certeza do que estava falando”, comentou Nanda Fagundes, uma das guitarristas do grupo.

“Mesmo com todos esses problemas e o som ter ficado uma bosta. O show foi incrível e ficamos mais felizes ainda quando vimos o nome da banda ter sido falado no site da revista Rolling Stone. Legal que a gente se juntou apenas em agosto e já estamos rodando para outras cidades do Nordeste”, afirmou Karina Moritzen, que assume os vocais do Demônia, em entrevista para o Brechando, no qual encontrei três das cinco integrantes no Mahalila, no conjunto Potilândia.

Além de terem sido faladas na Rolling Stone, elas também vão tocar no Garage Sounds, festival itinerante que acontece no dia 11 de março em Natal, no estádio Arena das Dunas. “Se você falasse para mim que eu iria tocar em Recife no Guaiamum Treloso, no mesmo dia que a diva Elza Soares e que iria aparecer no site da revista Rolling Stone, eu iria rir bastante e não acreditaria”, contou Isabela Graça, a outra guitarrista da trupe.

Como falado anteriormente, o grupo surgiu não tem um ano, mais precisamente em agosto de 2017, quando a Moritzen, que já tem experiência com outras bandas e discotecagens nas festas, queria unir a mulherada para tocar um bom rock por aí. “Todas nós temos experiência com bandas, mas sempre tocando com homens. O engraçado é que ninguém se conhecia direito. Apenas Raquel (Soares, bateria) e Karla (Faria, baixo). A Karla por sinal foi uma das organizadoras do festival Girls on X, que aconteceu no início dos anos 2000 e reuniu bandas de garotas. Mas, a gente sentiu rapidamente a conexão e ficamos logo amigas. Na metade do primeiro ensaio foi lá no estúdio, que fica aqui mesmo em Potilândia, a gente já tinha a nossa primeira música”, relatou a vocalista.

Ambas comentaram que o rock sempre foi o primeiro estilo que começaram a escutar, apesar de ter preferência de outros estilos musicais. “Eu cresci com minha família escutando rock em casa”, disse Nanda.

No meio do bate-papo, tivemos uma revelação, um crush de amizade. Você achava que isso era apenas para casos românticos? “Hey, Karina, vou te contar que tinha te visto no Ateliê Bar com um top com estampa de abacaxi e você estava lá dançando no palco. Quando te vi lá, fiquei dizendo: ‘Caramba, eu preciso ficar amiga desta menina, que boy massa!’ Não sabia que isso iria acontecer tão rapidamente!”, admitiu Isabela.

Surpresa, Karina disse: “Eu? Dançando? Mulher, eu acho que estava discotecando, nunca pagaria um mico desse no palco. Lara, pode colocar na entrevista que não estava dançando (risos).”.

Elas denominam o estilo de punk “Foda-se”, no qual a intenção é tocar cada vez mais o dedo na ferida das coisas que estão mais erradas, inclusive políticos que aprovam coisas retrógradas e capitalismo exacerbado. Mesmo sendo conhecidas, elas ainda temem andar pelas ruas sozinhas, com medo de assédio sexual e dentre outros tipos de violência. “Tem uma música nossa que um dos versos é: ‘Eu prefiro ver o satanás do que um macho’. Isto mostra como a gente ter medo de ser violentadas”, explicaram.

Outro objetivo delas é também estimular mais mulheres a participarem da cena musical.

Elas falam que ficam muito felizes em ver meninas participando de roda de pogas nos seus shows e cantando as suas canções. “Isso é muito bom, eu cresci nos shows na Ribeira vendo a maioria dos homens tocando e quando tinha mulher, a plateia era masculina. Vendo que mais garotas estão podendo curtir o nosso som sem ser julgada é muito bom”, comentou a Graça.

A Karina disse que o grupo recebe várias mensagens de garotas mostrando que se sentem representadas com Demonia. “Teve uma vez que fomos para Mossoró e depois que umas meninas assistiram o nosso show, elas montaram a própria banda, isto é muito gratificante. No nosso último show, que aconteceu no Bunker (na rua Dr. Barata, na Ribeira), havia uma poga de mulheres. Ainda cantando as nossas músicas, no qual ainda gravamos. Isto foi muito massa!”, vibra a vocal do quinteto.

A representatividade feminina não para, uma vez que elas irão tocar no Bar do Zé Reeira em um evento homenageando o Dia Internacional da Mulher.

“Quanto mais mulheres serem estimulada por familiares e amigos a tocarem instrumentos, vai aparecer mais meninas fazendo um bom som. Quando era pequena queria aprender guitarra, mas minha família achava que era coisa de menino. Então, eu fui aprender a tocar violão erudito na Escola de Música, algo que não curtia muito. Então, pais, estimulem os filhos a fazerem o que gostam”, finalizou a Karina.

Para saber mais das gurias acesse a fanpage.

Seu nome é Janaína: jornalista, editora e trans

Nesta quinta-feira, 8 de março de 2018, vamos dedicar matérias em homenagem ao Dia Internacional da Mulher. A data está ligada, principalmente, ao fato de centenas de mulheres terem morrido carbonizadas em um incêndio numa fábrica têxtil dos EUA em 1857, quando protestavam por melhores condições trabalhistas. Como o blog não nasceu para ser fofo, não vamos entregar flores ou chocolates. Vamos mostrar luta! Mulheres que matam um leão por dia contra a sociedade patriarcal. A primeira matéria é sobre Janaína Lima, que além de lutar contra o machismo, também batalha para acabar com a LGBTfobia, sabendo que o país ainda é um dos que mais mata a população trans e poucas passam dos 30 anos. Mesmo assim, Janaína é feliz e está mostrando que tem muita luta.

A primeira vez que conheci a Janaína foi na militância política, apesar de nunca ter participado de grupos estudantis, eu achava interessante ouvir os debates dentro dos corredores do Setor II. Ela ainda não era a Janaína e mesmo assim era bem atrevida na Faculdade de Jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), mal tinha chegado no primeiro período e já via logo os defeitos do Departamento de Comunicação Social, participara do Centro Acadêmico e depois se tornou integrante do Levante Popular da Juventude.

“Quando entrei no curso, eu senti muito falta de um verdadeiro debate político, comentar sobre o Povo Brasileiro e questionar o capitalismo, que tem em outros (cursos) de humanas, como Ciências Sociais. Todo semestre pensava em trancar”, contou.

Na verdade, a persona Janaína Lima sempre existiu e a mesma afirma isso, só que precisou de uma metamorfose para poder ser apresentada à sociedade. Assim como um lagarto ao se transformar em uma borboleta. Um girino em sapo. Foi na própria militância que ela viu a importância de lutar às causas a favor das mulheres e LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais).

“Mesmo ainda não assumindo para a sociedade como uma pessoa trans, eu sempre defendi a importância de combater a LGBTfobia e o machismo, principalmente na imprensa”, relatou à jovem em entrevista para o Brechando.

“Estou aprendendo a amar o jornalismo”, disse Janaína (Foto: Lara Paiva)

Ela não se via como uma repórter, muito menos uma editora. Mas é editora da sucursal do RN do jornal Brasil de Fato, com uma temática mais socialista e que tenta fornecer uma voz para os trabalhadores, representados através do sindicatos e políticos.

“Achava que iria estudar e trabalhar como militante a favor dos direitos humanos, a vida , porém, me fez ser editora de jornal. Estou aprendendo a amar essa função”, disse Janaína Lima, considerada a primeira editora de jornal transexual no Brasil e é natural de Natal-RN.

Ela comanda uma equipe formada por pessoas experientes na luta política, estudantes, acadêmicos e dentre outros. A primeira edição da sucursal potiguar saiu em fevereiro desse ano e já tem o discurso como editora. “Eu quase morri, quando vi que a primeira edição apareceu com erro, quase matei o diagramador (risos), porque a gente queria que ficasse duas linhas. A gente escreve por aqui e imprime na matriz em Recife. Eu estou aprendendo a gostar de ser uma jornalista, é um reaprendizado e gosto de ser desafiada”, explicou.

Agora, o seu sonho é que mais mulheres e homens trans trabalhem na área, não só no jornalismo, mas também em todas as áreas.

“Infelizmente, eu conheço apenas o trabalho de Carol Marra, que é modelo e jornalista trans. Eu sei que tem um rapaz trans que é formado em Rádio e TV na UFRN, no qual gostaria bastante ter um bate-papo. Mas jornalista vinda de universidade pública, acho que tem apenas eu, quero que outras surgem, lutem nos Centros Acadêmicos e que estejam trabalhando”, comentou a jovem.

Mas, como tudo começou? Como ela descobriu ser transgênero? Trans vem do termo transgênero. Refere-se aquelas pessoas cuja expressão social ou identidade de gênero difere daquela tipicamente associada ao gênero que lhes foi atribuído no nascimento (transexualidade). Também designa pessoas que não se identificam com as noções convencionais de homem ou mulher, combinando ou alternando as duas identidades de gênero (não-binário). Janaína disse que sempre sentiu apreço pelo universo feminino, em vestir roupas femininas, brincar de boneca e dentre outras atividades.

Após ter acesso ao computador, na adolescência, ela foi pesquisar o que sentia e começou a conhecer o universo trans. “Hoje o acesso para as pessoas já é difícil, há 10 anos isso era pior. Então, eu achei uma comunidade no Orkut, no qual as pessoas se comunicavam aonde pegar os hormônios, procedimentos para mudar o nome e dentre outras coisas. Me davam dicas, explicavam todo o procedimento. Mas, eu achei melhor esperar entrar na universidade e ter uma independência financeira para começar. Sempre quis fazer comunicação, pois queria fazer um curso que pudesse me expressar e eu sempre fui bem falante. Inicialmente, eu queria trabalhar com moda e cultura.”.

Assim que entrou na faculdade, ela viu que a independência iria demorar mais um pouco e isso a incomodava, foi então que conseguiu desabafar com os colegas sobre os seus sentimentos. “A primeira pessoa que falei da minha condição foi um amigo na minha sala de aula e ele foi o que mais encorajou a fazer transição. Depois juntos fomos ao Levante Popular e somos amigos até hoje”, relembra.

Janaína se transformou em borboleta no final da faculdade, onde teve o direito de utilizar o seu nome social e terminou seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) baseado sobre a educomunicação, temática que trata a relação da utilização dos meios de comunicação em ambiente escolar, no qual a sua última bolsa era sobre a montagem de uma rádio escola nos colégios públicos do estado, onde pode viajar por todo Nordeste e conhecer várias ONGs que trabalham com o assunto.

“Durante esses cinco anos de faculdade, eu sempre fugi do jornalismo em si, fiquei trabalhando com bolsas de pesquisa relacionados aos trabalhos sociais, indo para assentamentos, escolas e dentre outros lugares onde não existe o acesso ao poder público. Hoje vejo que é possível fazer Comunicação Social sem precisar entrar no mercado formal de trabalho e fazer a sua própria estrada”, contou.

Agora o próximo passo é tentar estudar o mestrado e pensa em pesquisar sobre opções de mídias alternativas para combater a hegemônica. “Quero me inscrever como aluna especial”. Nesta semana, ela conseguiu o direito de assistir as aulas para a turma de pós-graduação.

Para o dia 8 de março, Janaína Lima quer que as mulheres ainda lutem por mais representatividade no mercado, inclusive as mulheres trans. Segundo a jovem, o Dia Internacional da Mulher é um momento para ser debatido nas universidade, escolas e, inclusive, ambiente de trabalho. “Nós jornalistas precisamos dialogar com a comunidade sobre o Dia Internacional da Mulher. Aqui no Brasil De Fato terá uma edição especial sobre o que é ser mulher neste Brasil que estamos passando, além de compreender o que é ser mulher.”.

Além disso, a Janaína disse que precisa mostrar a importância da identidade de gênero e como isso é uma luta importante. “Estamos sujeitos à violência o tempo todo, principalmente por apresentar uma imagem contrária o que a sociedade patriarcal quer mostrar diariamente”, finalizou.