O mundo azulado de Lúcia Helena

Pesquisando sobre o nome “Lúcia”, descobrimos que vem do latim “lucius”, que significa “luz”. Porém, a luz que vem da personagem que contaremos nesta reportagem não é tão iluminada. Enquanto a cidade-luz, Paris, estava em festa por conta do bicampeonato francês na Copa do Mundo, a Lúcia Helena estava deitada em sua barraca de camping instalada embaixo de um cajueiro, próximo do campus da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Assim como o uniforme da França, a barraca dela é azul, onde tem um tatame para proteger das gramas, um colchão, travesseiro e alguns mantimentos.

Antes de se instalar naquele lugar, Lúcia Helena carrega contigo mais de 20 anos de situação de rua, enfrentou agressões, idas aos albergues e documentos perdidos.  Hoje, com 57 anos, diz que pensa apenas como será o dia seguinte, não sente medo dos perigos da rua e sonha em viver um dia de cada vez.

“Meu sonho é que alguém faça uma política para que tenha uma casinha com um quarto para mim, um emprego que consiga fazer e tentar viver com minha dignidade. Este é o meu sonho, estou ficando velha e preciso pensar nisso”, relatou Lúcia em entrevista ao Brechando.

A sua história nos interessou quando víamos o seu acampamento sendo construído aos poucos. Sempre que passava pela região e via aquele barracão azul intacto, mas nunca via quem estava ali, questionava: 1) Era uma família? 2) Estudantes da universidade sem residência universitária? 3) Um casal?

A famosa barraca azul (Fotos: Lara Paiva)

As perguntas só seriam respondidas quando o site e em parceria com a página Natal Invisível, resolvemos responder este mistério.

Ao abordá-la, vimos uma senhora com cabelos cobertos, poucas linhas de expressão, pele queimada do sol, vestindo roupas leves por conta do calor e uma senhora sempre cobrindo o rosto envergonhada, como se continuasse a querer ficar invisível.

Ficamos felizes com o sim após a pergunta “Podemos te entrevistar?”, pois o seu semblante era de querer ficar à margem, sua zona de conforto.

Mesmo assim, ela estirou uma lona no chão e sentou com a gente para conversar. Natural de Recife, ela veio para Parnamirim, na Grande Natal, à 20 quilômetros da capital potiguar, onde foi morar com a mãe e os irmãos (a mais velha de seis filhos) por conta da separação dos pais. Após uma briga familiar resolveu sair de casa.

“Ficaram dizendo que eu era filha do meu pai com outra mulher. Até hoje não sei se é verdade a história. Então, meus irmãos começaram a brigar comigo. Cansada de confusão, eu peguei as minhas coisas e fui embora”, disse, sem aprofundar muito no assunto.

“Estou acostumada a viver só, prefiro viver assim. Não gosto de viver em turma, prefiro viver a minha vida. Não nego a falar com as outras pessoas, sempre recebo quem me procura, mas não gosto de fazer amizade ou ter uma turma”, disse Lúcia, que já chegou a viver próximo de outros moradores de ruas, onde alegou que muitos vivem rodeados por drogas e bebidas.

“Eu não suporto o cheiro de bebida. Convivi por muito tempo por pessoas que consomem drogas, nunca me ofereceram e eu também nunca quis, odeio o cheiro de cachaça e essas pessoas não combinam comigo”, relatou a senhora, que não tem filhos e nunca quis envolver amorosamente com ninguém, mostrando que quer a sua luz sempre esteja apagada ou invisível.

Durante a nossa conversa, Lúcia nos contou que já viveu no Albergue de Natal, dormiu nas calçadas de lojas e também nas principais ruas da cidade.

“A noite é o período que tenho mais medo, pois alguém pode fazer alguma maldade para cima de mim. Já jogaram uma pedra em mim enquanto estava dormindo, cortando a minha cabeça. Há cinco anos me chutaram, que eu fiquei sentindo dor na coluna por muito tempo”, afirmou a moradora, que prontificou que estas foram as únicas agressões que viveu neste período.

“Ficaram dizendo que eu era filha do meu pai com outra mulher. Até hoje não sei se é verdade a história. Então, meus irmãos começaram a brigar comigo. Cansada de confusão, eu peguei as minhas coisas e fui embora”

Recentemente, a moradora de rua perdeu todos os seus documentos enquanto dormia na Av. Senador Salgado Filho e por isso resolveu se mudar perto do campus universitário.

“Estou aqui há quatro meses, inicialmente eu montei um barraco improvisado embaixo de uma placa. Depois a vizinhança resolveu me ajudar, no qual eu ganhei esta barraca e de vez em quando recebo alguma comida das pessoas. Fiz um fogão para cozinhar minha comida. Para tomar banho, eu uso a água da torneira que está no canteiro e no carrinho de supermercado (aponta para o carrinho) coloco as minhas coisas, é o meu armário.”.

Após os documentos roubados, dona Lúcia Helena chegou a procurar o Centro Pop, onde eles aconselharam a fazer um Boletim de Ocorrência e forneceram uma carteira do SUS (Sistema Único de Saúde) temporário. “A vizinhança me ajudou bastante para procurar esses documentos, cheguei no Via Direta e fiz o BO, mas o Centro Pop disse que demoraria mais uns meses para conseguir recuperar os documentos”, lamentou.

Além do Albergue de Natal e centro de acolhimentos, também existe o citado Centro Pop , nome para Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro Pop), no bairro Barro Vermelho. O Centro é direcionado aos jovens, adultos, idosos (crianças e adolescentes desde que estejam acompanhados de seus pais ou responsáveis), que utilizam as ruas como espaços de moradias e/ou sobrevivência.

O acesso ao Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua se dá por demanda espontânea e encaminhamentos do Serviço Especializado em Abordagem Social, de outros serviços sócio-assistenciais, das demais políticas públicas setoriais e dos órgãos de defesa de Direitos.

Com a falta de documentos, Lúcia Helena tem dificuldades de fazer serviços simples ou até mesmo dormir no albergue. Conta que se vira como pode, “raramente pede comida ou dinheiro”, visto que muita gente já a ajuda naturalmente, mas também tenta utilizar seu carrinho para coletar os restos que foram jogados nas mansões e casas do conjunto Cidade Jardim, próximo de seu mundo azulado.

Fogão improvisado e o carrinho de supermercado ao fundo

“A noite é o período que tenho mais medo, pois alguém pode fazer alguma maldade para cima de mim. Já jogaram uma pedra em mim enquanto estava dormindo, cortando a minha cabeça.”.


O que leva as pessoas a morar na rua?

Os dados não são recentes e muito menso renovados. Mas, em 2011, a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH) e pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável (Idesp) divulgou dados que tentam explicar o porquê existem pessoas que moram nas ruas das pequenas e grandes cidades brasileiras.  Conforme os dados, a maioria vão para as ruas por conta das brigas verbais com pais e irmãos (32,2%), a violência doméstica (30,6%) e o uso de álcool e drogas (30,4%).

Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome (MDS), essa população é composta predominantemente por homens (82%), negros (67%) e que exercem alguma atividade remunerada (70%). Entre os principais motivos que os levaram à situação de rua estão o alcoolismo/drogas (35,5%), o desemprego (29,8%) e os conflitos familiares (29,1%). Um grupo relativamente menor (22,1%) costuma dormir em albergues ou outras instituições. Apenas 8,3% costumam alternar, ora dormindo na rua, ora dormindo em albergues.


Quantidade de moradores de rua no Brasil e no Rio Grande do Norte

Os moradores de rua são tão invisíveis, que não existem dados concretos sobre eles nem em Natal e no restante do Brasil. Apenas possibilidades, pressupostos, estimativas… De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), no ano de 2017, estima-se que 101.854 pessoas em situação de rua, 40,1% estavam em municípios com mais de 900 mil habitantes (onde Natal, que tem em torno de 800 mil habitantes, encaixaria neste padrão) e 77,02% habitavam municípios com mais de 100 mil pessoas.

O Ministério do Desenvolvimento Social, em 2011, apontou que há 50 mil pessoas vivendo na rua no Brasil.

Já nos municípios menores, com até 10 mil habitantes, a porcentagem era bem menor: apenas 6,63%.

O autor desta pesquisa do Ipea foi feita pelo especialista em políticas públicas e gestão governamental, Marco Antonio Carvalho Natalino, ressaltou a importância de dados atualizados sobre o tema, pois eles são essenciais à formulação e implementação de políticas públicas para essa parcela de brasileiros.

No documento, Natalinos coletou dados baseados no 1924 municípios via Censo do Sistema Único de Assistência Social (Censo Suas).

“Esta ausência, entretanto, justificada pela complexidade operacional de uma pesquisa de campo com pessoas sem endereço fixo, prejudica a implementação de políticas públicas voltadas para este contingente e reproduz a invisibilidade social da população de rua no âmbito das políticas sociais. Tal invisibilidade [com os moradores de rua] se revela, por exemplo, na falta de documentação necessária para acessar serviços e benefícios sociais que o Estado garante”, disse o Marco Antonio Natalino.

Entre 2007 e 2008, o Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário (MDS) realizou a Pesquisa Nacional Sobre a População em Situação de Rua (Brasil, 2008). O público-alvo da pesquisa foi composto por pessoas com 18 anos completos ou mais vivendo em situação de rua em 48 municípios com mais de 300 mil habitantes e em 23 capitais.

A investigação alcançou um total de 31.922 pessoas em situação de rua. Note-se, entretanto, que foram excluídos os municípios de São Paulo, Recife, Belo Horizonte e Brasília por estes contarem com pesquisas semelhantes recentemente concluídas ou em andamento.

Vasculhando o site da Secretaria Municipal de Assistência Social (Semtas) não existe alguma estatística publicada para domínio público. Muito menos no âmbito estadual.

Além das eleições, uma cidade do RN vai ter plebiscito para mudar de nome

Existe uma cidade na região Oeste do Rio Grande do Norte que se chama Campo Grande, porém no Instrituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a mesma se chama Augusto Severo. E agora, qual o nome oficial? Por isso, durante as eleições gerais no Brasil em 2018 vai haver um plebiscito para que os moradores possam escolher como ela pode ser chamada de verdade. A votação acontecerá no primeiro turno das eleições, no dia 7 de outubro.

O pedido foi feito pelo presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte, Desembargador Dilermando Mota Pereira, ao presidente do TSE, após aprovação unânime do Projeto de lei do deputado estadual Hermano Morais, que altera de forma definitiva a toponímia do município de Augusto Severo para Campo Grande.

Para o TRE, será a primeira vez que um plebiscito será realizado junto com uma eleição no município de Campo Grande. Para tanto, é necessário que o pedido do Desembargador Dilermando Mota, seja acatado pelo TSE. O deputado estadual Hermano Morais participou no final do ano passado de audiência na sede do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), onde esteve acompanhado do vereador de Campo Grande, Vagner Souza, e do empresário Emídio Melo.

Foto: Diego Moicano/Campo Grande na Mídia

A formalização toponímica é importante para Campo Grande receber recursos federais, uma vez que os perde porque ministérios e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) consideram Augusto Severo como nome oficial.

Já tem um tempo que os moradores da cidade de Campo Grande sofrem com a dupla denominação do município, que para os órgãos da esfera federal, ainda registram como Augusto Severo.

Em razão disso, os vereadores Vagner Souza e Nilson Júnior enviaram uma Representação da Câmara Municipal de Campo Grande, à Assembleia Legislativa (AL), ressaltando a necessidade de tentar sanar um problema que tem gerado confusão e prejuízos ao município devido a duplicidade de nomes.

Em atenção ao pedido, a AL aprovou por unanimidade no dia 06 de setembro de 2017, o Projeto de Lei (PL) de autoria do deputado Hermano Morais, que altera a toponímia de Augusto Severo para Campo Grande.

Em dezembro do mesmo ano, foi dado continuidade aos trâmites legais com o envio do PL ao TRE/RN, onde foi iniciado as buscas por registros de um plebiscito ocorrido no ano de 1991. Ante a falta de registros oficiais do referido plebiscito, o TRE não o reconhece, sendo necessário a realização de nova consulta pública, que poderá ocorrer no segundo turno das eleições 2018.

É importante ressaltar que o nome Campo Grande é a identificação da população local, sendo o nome essencial para a identificação cultural e política do povo da região. Outro fato relevante, é que os órgãos estaduais já reconhecem Campo Grande como município. Não obstante a isso, a expressão Campo Grande já é utilizada na bandeira do município e como referência turística, mas vetada em documentos oficiais e mapas.

Esta não é a primeira vez que ocorre um plebiscito no interior do Rio Grande do Norte para que uma cidade possa mudar de nome. Em 2012, a cidade de Serra Caiada votou em um plebiscito junto com as eleições para saber se a população queria esse nome como oficial ou permanecesse Presidente Juscelino, estabelecido pelo Governo do Estado na década de 60, por imposição dos militares.