Coringa: Com quantas camadas de dor se constrói um personagem?

Após 3 semanas fugindo de toda sorte de spoiler, eis que consegui assistir o já aclamado Coringa do Todd Phillips e, minha gente, que coisa linda é não ter as expectativas frustradas! (Te amo, Todd! – a partir de agora). Quando li as primeiras notícias a respeito desse longa, confesso que tive preguiça: “outro Coringa, mesma história tentando ser reinventada”, “mais um diretor querendo entrar pra história do cinema e falhando miseravelmente”, “Todd, amigo, queira inventar a roda, não!”. A escolha do Joaquin aqueceu meu peito, mas não dissipou a preguiça.

Fiz questão de não acompanhar nada da pré-produção, eu tava com um medo danado dele terminar de lascar um personagem tão foda, tão cheio das nuances e com milhões de camadas a serem exploradas. Misericórdia, o Todd fez exatamente tudo certo. T-U-D-O! Tudinho mesmo.

A começar por retomar a prática de inserir o compositor da trilha no início do processo de feitura do filme, e não no fim. É lugar comum total falar sobre a importância de uma trilha sonora em um longa, mas o Coringa do Todd e do Joaquin, da forma que foi entregue ao público, definitivamente não existiria sem o trabalho soberbo da violoncelista islandesa Hildur Gudnadottir, que eu descobri, ao pesquisá-la pra escrever esse texto, ser responsável também pela trilha sonora de Chernobyl, série sensação da HBO esse ano, ganhadora de vários Emmy.

Pois bem, a trilha conduz o ritmo do roteiro, dá o tom, escancara o processo de adoecimento, ou, melhor dizendo, do agravamento da condição mental do Arthur Fleck, que passa de um paciente medicado, frequentador de terapia, se pá até toma uns florais e tal, para um sujeito violento, transgressor e muito doido. Eu amei!

How can you help it, when the music starts to play
And your ability to reason, is swept away
Oh, heaven on earth is all you see, you’re out of touch with reality
And now you cry, but when you do, next time around someone cries for you

Hey, everybody plays the fool, sometime
Use your heart just like a tool, listen baby
They never tell you so in school, I wanna say it again
Everybody plays the fool

As cenas do personagem em transportes públicos me chamou também muita atenção, especialmente aquelas em que ele não estava matando ninguém que merecia. “Pensei que iria me arrepender, mas eu não me arrependi.” Pois é, merecia sim. E merecia de novo. A fotografia dialoga com a melancolia sem fim do Arthur Fleck de uma forma belíssima, determinadas cenas parecem mais uma pintura. Tipo essa aqui abaixo:

“Todo mundo é péssimo hoje em dia. É o que basta pra gente enlouquecer.”

Sempre gostei do trabalho do Joaquin, gosto da forma como ele trabalha apaixonadamente seus personagens, mas em Coringa ele entregou um personagem complexo sem errar a mão em um frame sequer. Carregou o roteiro nas costas e não descambou pra caricatura. Eu espero que ele tenha feito terapia durante o processo pra não ter o mesmo fim do Heath Ledger.

Por falar em terapia, o tema merece atenção exclusiva no Coringa do Todd, e por isso eu encerro esse texto por aqui. Retomarei pra falar sobre processos terapêuticos, relações familiares e o poder que a sociedade em que vivemos, o modelo de sucesso que escolheram pra gente seguir, quando de boa, apenas nos adoece, em outras vezes nos torna assassinos. Acontece. E eu amo essa controversa deliciosa que o cinema, sempre que bem feito, nos oferece.

Ah! E também vou falar sobre a pérola negra que é a participação do De Niro nesse Coringa. E catar uns textos interessantes pra compartilhar também. Acho que é isso. Eu devia tá dormindo, mas “A tensão está grande. O povo sente o desconforto, está lutando, procurando emprego. São tempos difíceis.”

Projeto ensina urbanismo para as crianças

Você conhece a sua cidade? Sabe o seu caminho. Hora de começar a ensinar as crianças a entender um pouco mais de urbanismo, essa é a proposta do projeto Cidade dos Sonhos, que surgiu de uma inquietação antiga: a de ensinar as crianças sobre as questões urbanas. De caráter lúdico e participativo, o projeto visa contribuir para um melhor entendimento dos cidadãos acerca da vida urbana e cotidiana, identificando os lugares de afeto, os problemas e as potencialidades do bairro e da cidade em que vivem.

Uma das idealizadoras do projeto é a arquiteta Bárbara Rodrigues, servidora da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb). Ela contou em entrevista ao Brechando disse que idealizou o projeto a partir de uma necessidade de criar um setor educacional sobre a urbanização da Natal, principalmente entre as crianças. “A primeira ação foi em Bom Pastor, numa escola. As crianças estavam interessadas em participar e levamos três ou quatro atividades. Uma delas foi o mapa com o bairro e as crianças podiam identificar os lugares de referência da região. A segunda atividade foi desenhar as cidades com que eles sonham”, contou a arquiteta.

Além disso, busca estimulá-las a pensarem espaços públicos mais humanos, lúdicos e atrativos. Outra ideia do projeto é incorporar ao setor público ações de participação popular em processos simplificados, os quais levem em consideração à percepção, os sonhos e as demandas advindas dos pequenos – que muito têm a dizer e a nos ensinar sobre nossa forma de planejar e pensar nossas cidades.

De acordo com Bárbara, o objetivo é sensibilizar as crianças, por meio da educação urbanística e do entendimento da sua vida urbana e cotidiana no bairro em que reside, a pensar em espaços públicos mais humanos, lúdicos e atrativos.  “Fizemos um questionário com oito perguntas para as crianças responderem sobre a sua vivência do bairro, o que gostavam, o que sentia seguro e qual lugar que acha bonito. Além disso, perguntamos qual era a cidade dos sonhos. A gente queria mais criar uma reflexão, além de registrar os problemas recorrentes de casa bairro”.

Dentre outras atividades propostas estão uma conversa com as crianças sobre acessibilidade e pessoas com deficiência, de forma lúdica e didática, para que se aproximem do tema. Foram mostradas fotos de vários pontos do bairro, para que identifiquem junto a equipe as irregularidades nos trajetos. As crianças puderam falar sobre casos de acidentes vivenciados por eles ou por pessoas próximas, ocorridos no meio urbano, por possível falta de acessibilidade.

Ainda foram mostrados objetos de apoio às pessoas com deficiência, explicando suas respectivas funções para os participantes. Ex.: cadeira de rodas, bengalas, muletas, etc. Além disso, contou com atividade de mapeamento, onde foram mostradas imagens do bairro para as crianças e elas tentaram identificar o local/imóvel. Quem acertasse mais locais, era o vencedor da atividade.

O projeto é itinerante e recentemente fez atividades no bairro de Felipe Camarão, zona Oeste da capital potiguar. “A gente sempre renova as atividades para aprimorá-las e estimular as pessoas a conhecerem um pouco melhor a cidade e depois queremos levar os problemas que as crianças e adolescentes relatam para as outras secretarias resolverem”, finalizou.