Felipe Nunes

Felipe Nunes mistura antropologia com poesia

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Uma das vantagens é conhecer artistas sem saber que eles são artistas. Além disso, o Felipe apareceu no último carnaval, em 2020, por intermédio de Luma Virgínia, amiga da minha família, e passamos praticamente todos os dias juntos nas festas, cantando “Ombrim” de Rosa Neon em looping e Alcione. Foi no meio do papo informal que ele associou o Brechando a mim e ficou surpreso que aquela doida toda melada de lama era jornalista. Assim, ficamos amigos e a zoeira continuou. 

Felipe Nunes é sergipano que veio à Natal para fazer o curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Mas, a vida do jovem não foi apenas de pesquisa. Enquanto explorava as belezas de Ponta Negra, ele transformou o hobby de fazer poesia em profissão e também arriscou em transformá-las em músicas. E deu certo!

Primeiro livro

Já lançou disco e agora vai lançar o seu primeiro livro de poemas “O silêncio de onde acabo de voltar”, através da editora Urutau. A obra reúne pequenos textos com vários temas, como natureza, escravidão, negritude, religião, infância em sergipe, crise política e outras questões para falar de antropologia sem deixar um texto com cara de artigo científico.

Mas, antes de falar do hoje, precisamos voltar alguns anos. Quando tinha 12 anos, idade que ele começou a fazer poesia e desabafar os seus anseios. “Comecei na poesia, antes mesmo de saber o que era a poesia propriamente dita”, contou em entrevista exclusiva ao Brechando.

Aos 15 anos ganhou seu primeiro violão e começou a dedilhar as primeiras músicas. “As ciências humanas (vieram)  só com o ingresso na universidade”, disse. Quando passou no vestibular, ele saiu de Aracaju e mudou-se para Natal, no qual mesmo vivendo em uma outra cidade do Nordeste percebeu algumas diferenças.

“Sinto que Natal possui uma maior tendência cosmopolita, algo que a história da cidade pode explicar, a precoce relação com a ocupação americana na Segunda Guerra Mundial. Em Aracaju, existe uma maior tradição em destacar as manifestações culturais populares que constituem a cidade, com promoção e realização de eventos neste sentido. Talvez seja essa a minha principal impressão”, relatou. 

A vida não foi só de pesquisa

Como todo estudante de humanas, ele percebeu que o ambiente universitário não precisa ser quadradão e podia mostrar seu olhar a partir de várias vivências, do jeito que Boaventura Santos ensinou. “Na universidade comecei a tomar contato com a produção artística, intervenções poéticas e isto tomou outra proporção.”

E claro que fiz a pergunta que ele mais ouviu na vida: “Qual a área que mais gosta?”. Educadamente, ele respondeu:

“Cada área tem suas dores e delícias. Tento estender uma ponte de relações entre todas elas, seja a literatura, música, história, antropologia. Trabalho a partir da interdisciplinaridade, relacionando de alguma forma todos esses campos de atuação”.

Antropologia com poesia

Sua carreira de poeta oficial veio em Natal, quando começou a participar do Sarau Insurgências Poéticas. Enquanto isso, Felipe Nunes estudava antropologia na sua pós-graduação. 

“A antropologia foi um ponto de virada na minha vida, sem dúvida, modificou minha maneira de ver e estar no mundo e isso refletiu necessariamente na minha relação com a produção artística. O dever do antropólogo é multiplicar mundos, apresentar distintas maneiras de conceber a vida social. A arte, aprofunda a relação do ser com o mundo em sua volta, estimula o sentir, transforma. Então, diria que a antropologia tem me ajudado a produzir artisticamente por distintos e diversos campos de visão, como por exemplo, encontrar poesia a partir da explicação do porquê os urubus voam tão alto, ou do porquê das formigas carregam seus mortos de volta ao formigueiro.”.

Para Felipe foi uma oportunidade de exercitar e conhecer outros colegas de várias idades e das mais diferentes gerações. Mas, somente em 2020 que criou coragem de lançar o livro e considera que foi o momento de amadurecimento na sua escrita. 

“Comecei a reunir alguns poemas escritos ao longo dos últimos três anos e de repente me dei conta que existia um livro ali. Depois, comecei a construir um eu-lírico que vai caminhando ao longo do livro e forjando uma linguagem poética  a partir da experiência com natureza, história e sentimentos. Por fim, tive a felicidade de ser selecionado pela Editora Urutau a partir de uma chamada com mais de 200 originais, e assim o livro nasceu”, celebrou.

E o lançamento?

Embora o livro esteja à venda no site da editora e algumas edições com o próprio Felipe, o lançamento oficial teve que ser adiado por conta do aumento de casos da Covid-19. “Certamente teremos intervenções poéticas, música, pretendo realizar uma grande celebração, dar bons motivos para encontrar os amigos, amantes da poesia, fazer a palavra circular, beber algumas cervejas. Lançar um livro é uma boa desculpa para tudo isso”, brincou.

Mas, será que terá esperança para consumir poesia, diante desse caos?  

“Sou terrivelmente otimista o que me faz acreditar que é possível fazer com que a poesia seja cada vez mais consumista. Todavia, com os pés no chão, sei das dificuldades de encontrar leitores em um país onde há estímulos para literatura, em especial para poesia. Ademais, existe uma tradição conservadora na literatura brasileira de maior apreciação a produções marcadas pelo realismo literário, e por consequência, a poesia, esse espaço de imaginação mais libertária e fantástica, encontra  dificuldades maiores para conseguir leitores. Mas sigo acreditando, inclusive, acho que o deve de todo poeta é sensibilizar o mundo e colocar a poesia na rua, os saraus são essenciais neste sentido”, afirmou. 

 

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