13 pixos espalhados pela capital potiguar

Para alguns é vandalismo, crime e são tratados o mesmo com o bandido. Em outros termos, pode ser avaliada como vandalismo, visto que os estados brasileiros crimninalizam o ato. Alguns, no entanto, consideram uma arte contemporâneo. Entre a linha tênue entre arte contemporânea e criminalidade o pixo está aí nos muros, viadutos e outras estruturas lisas espalhadas na cidade. Em alguns pixos estão escritos diversas frases, desde assinatura de grupo, poesia, política e até desabafos. Como se fosse um grito desesperador de alguém que bateu na parede e ficou por aí.

Como já dizia a Marisa Monte:

Nós que passamos apressados
Pelas ruas da cidade
Merecemos ler as letras

Confira as fotos a seguir:

 

 

Ser resistente, ser nordestino

Embora tenha nascido e crescido em um ambiente confortável e estudando em um colégio elitista na zona Sul da capital potiguar, meus pais sempre me ensinaram a olhar os meus pés, onde estão as minhas raízes. Essas origens que vieram de uma família originária do Trairi que chegou a fundar uma cidade, mas seus dessedentes não puderam aproveitar esta riqueza, apenas o quente e as plantas da Caatinga.

Meus avós paternos, tiveram que trabalhar em um sítio como agricultores, para conseguir sustentar quatro filhos. Na época, o brasileiro só tinha um Mobral para aprender a ler e olhe lá. Bolsa Família era um sonho distante para ter aquela ajudinha na hora de comer. 

O bolo que seria fatiado para população que Delfim Neto tanto falara na rádio que meus avós cansaram de escutar nunca foi repartido para o povo brasileiro.  

Meu pai e meus tios foram criados que o comunismo era algo terrível, pois viram parentes serem torturados e fugindo para o sítio dos meus avós. O Governo estava sempre certo, como dizia o Mussum. Por isso, eles sempre votavam nos partidos da Arena. 

A distribuição de renda ainda é algo distante. 

A seca era tão grande, que meu pai ainda adolescente resolveu se mudar para Natal, com a esperança de estudar na Escola Agrícola de Jundiaí e passou por muito perrengue (morar em pensionatos, Casa do Estudante…) até alcançar uma morada em um bairro nobre da cidade. 

Painho era tão workaholic que conseguiu ter um bom cargo antes de casar e ter duas filhas. Não tinha cotas e essas coisas para fazer com que a pessoa ingressasse numa universidade. Numa época que ser pardo era 50x mais complicado que hoje. 

Sobre casar, ele cresceu em um ambiente super machista, dizendo que o homem tinha que comandar a casa, porém ele conheceu a dona Alice Paiva, uma feminista da porra (com palavrão mesmo) vinda de uma família de classe média baixa, sendo a única dos quatro filhos a entrar numa universidade federal e ter um emprego como funcionária pública antes dos 30 anos.

Apesar dos meus avós não tiverem dinheiro para pagar meus tios e mainha numa escola privada no Ensino Médio, eles sempre tiveram comida e mantimentos. Com muito esforço, nada de Minha Casa, Minha Vida; eles até conseguiram uma casa no conjunto habitacional de Potilândia. 

A tia rica dizia que ela nunca casaria bem ou ter um bom futuro, pois ela era filha de sacoleira com motorista da UFRN. Mesmo assim, mamãe foi resistente e sempre mostrou que quebrar paradigmas é o sobrenome dela. Vovô Gilberto, pai de dona Alice, por sua vez, era motorista, mas o homem muito sabido, visto que tinha contato com os professores da universidade e sempre gostava de saber de todas as informações.

Voinho saiu de uma cidade do agreste chamada Pedro Velho na adolescência para arriscar todos os tipos de trabalhos em Natal, mas se encontrou como motorista. Foi difícil, visto que era mulato (pai branco e mãe negra) e sofreu muito preconceito quando casou com voinha, que é branca, pois ela era filha de um fazendeiro de Tangará que se mudou para capital potiguar após a morte da mãe e estava tentando arriscar a sua vida como costureira.

Casados, os primeiros anos foram horríveis, começaram a morar em uma vila no Alecrim e meu avô ficou anos desempregado. Nesse período, um cunhado da vovó se arriscou em trabalhar na construção de Brasília para ver se conseguia alguma condição. 

Voltando a falar ao vovó, ele era fã incondicional de Leonel Brizola e sempre votava no MDB, quando o mesmo era oposição da Ditadura Militar. Mainha dizia que ele ficava irritado quando alguém chamava o governo de Revolução e mesmo não tendo o Ensino Fundamental, prontamente dizia: “Quem faz revolução é o povo, a maioria.”. 

Meus tios sempre apertam a tecla para falar esses ensinamentos, principalmente o tio Gilson, que ligava prontamente para minha mãe não votar no você-sabe-quem. 

A única coisa que lamento que acho que deveria ter tido mais tempo com meu avô materno, que deixou a vida terrena quando tinha 10 anos e descobri somente na adolescência que tinha muito dele, principalmente os pensamentos voltados para esquerda. 

Há 25 anos nasci e estou numa situação que meus pais conheceram, porém isso não quer dizer que não quero que outras pessoas cresçam. Não é só porque vivo numa situação confortável que vou querer que os outros estejam na pior. 

Tenho a consciência que para chegar aonde cheguei, foi muito investimento dos meus pais. 

Quero que as pessoas tenham acesso ao que consegui ter, independente se foi feito com a ajuda do Governo. E na Constituição de 88, o Estado tem que garantir que todos tenham acesso à educação, moradia, comida, saúde e lazer. 

Vejo que as pessoas que estão votando no candidato Ele Não usando o argumento de acabar com a “mamada”, mostra que as pessoas estão cada vez mais egoístas e estão pensando no próprio umbigo. 

Independente se você votar a favor no liberalismo econômico, saiba que para todos tenham acesso básico, precisam utilizar medidas que facilitem o acesso a todos e isso realmente vai diminuir a violência urbana. Além disso, a educação é a principal arma para ensinar os estudantes saberem como combater a homofobia, a violência urbana e ter acesso aos lugares sem ser visto como uma pessoa com cara de ladrão. 

O Nordestino teve a consciência que nos últimos 20 anos que os recursos que eram focados apenas em outras regiões foi distribuído de forma igual e ver que estados como Bahia, Ceará e Pernambuco estão em pé de igualdade (não totalmente) com São Paulo e Rio de Janeiro. 

O Nordestino sempre mostrou que é resistência, teve que se virar nos 30 para conseguir chegar o objetivo. Além disso, eles reconhecem o porquê conseguiram melhorar, mas sem voltar para trás. 

Antes, quando visitava meus avós no interior, via casas sem acesso ao básico como água e hoje tem água encanada e até mesmo equipamentos eletrônicos.

Eu tive a sorte e o privilégio de ter estudar numa Universidade Federal com recursos, material e não sucateada. 

Ver que minha tia não conseguia passar numa universidade e se formar como enfermeira pelo Prouni, me enche de alegria. Minha prima melhorar seu português após acessar uma universidade.

Olhar meu tio conseguir comprar sua casa própria com Minha Casa, Minha Vida, e não viver de aluguel. 

O erro da galera que vota no Ele Não é querer que as suas coisas sejam benéficas só para elas. Esse discurso elitista é retrógrado e vazio. Além disso, a corrupção não é só do Partido dos Trabalhadores, mas de toda uma classe política tradicional feita por grandes empresários, que apoiou o Arena, a Ditadura Militar, sonega impostos até hoje, dá uma nota de 10 reais para aquele vizinho votar no seu candidato, acredita piamente que dando uma cesta básica no interior resolve, acha que a grama do vizinho é a mais verde e acha que ladrão são os outros. 

Os Nordestinos, independente de ser elite ou não, sabe de suas melhorias e reconhece que o povo é resistente. Feliz de ser Nordestina e feliz dia do Nordestino.