Chico Doido de Caicó é um personagem de Moacy Cirne

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Eu conheci Chico Doido de Caicó, primeiramente, durante o evento “Você é o que lê“, que aconteceu em dezembro do ano passado, no Teatro Riachuelo, mencionado por Xico Sá, um dos participantes. Atualmente, ele é uma figura tão mítica quanto o Seu Lunga. Assim que eu cheguei em casa, eu rapidamente fui pesquisar os poemas do dito cujo (alguns fariam as músicas de “Cabrito” ser hino gospel).

A “suposta” biografia de Chico Doido de Caicó

Pouco se sabe do Chico Doido de Caicó, as poucas informações que temos dele é que nasceu em Caicó em 1922 e faleceu na cidade de Duque de Caxias em 1991.  Além disso, o seu nome era Francisco Manoel de Souza Forte e serviu a Marinha nos anos 40.

Na década de 50 morou em Natal. Entretanto, nos seus últimos anos, divulgava os seus poemas na Feira de São Cristovão, no Rio de Janeiro. Na década de 90, os seus poemas foram publicados no “Balaio Poema”, de editoria do Moacy Cine, que conheceu Chico Doido por Nei Leandro de Castro. Depois do livro de 2002, o Chico virou tema de peça e teve um artigo publicado por ele no Le Monde.

Afinal, ele existia?

Por muito tempo, o Chico Doido de Caicó era uma figura bastante underground na literatura potiguar. Parecia que era proibido falar dele, por fazer analogias ao sexo e conter muito palavrão. Porém, a internet e os diversos blogs de literatura ajudaram ressuscitar os seus poemas, no qual a maioria estavam reunidos em um simples caderno e foram espalhados para o mundo. Na internet é muito fácil encontrar poemas que dizem ser feitos por ele.

Porém, os escritores Nei Leandro de Castro e Moacy Cirne conseguiu reunir 69 poemas e publicaram em um livro, no ano de 2002, cuja capa é essa daqui e infelizmente é difícil de encontrar para vender.

Ou seja, ele nunca existiu

Eu achei, no entanto, uma reportagem no blog Super Pauta, no qual Moacy Cirne concedeu uma entrevista ao jornalista Roberto Homem e admitiu que Chico Doidó era uma produção dele e de Nei Leandro.

SUPERPAUTA – Conte um pouco da história de Chico Doido. Como ele surgiu?

MOACY – Nei Leandro de Castro teria que ser ouvido também… Mas, Chico Doido surgiu no Balaio Porreta, que era um fanzine que eu editava e distribuía no Instituto de Arte e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense. Publiquei os primeiros poemas de Chico Doido no Balaio. Certa ocasião, eu estava com Nei em um bar, na Cinelândia. Nei, então, perguntou ao garçom: “Escuta, aquele senhor que um dia eu encontrei aqui com duas mulheres, dando gargalhadas imensas, que chamavam de Chico Doido…”. O garçom confirmou: “eu lembro dele”. Nei insistiu: “Ele gostava de recitar?”. “Ih, doutor… Recitava cada poema pornográfico, que só vendo”. “É mesmo? Mas tem tempo que ele esteve aqui pela última vez?”. “Já tem um bom tempo, nem sei por onde ele anda”… Nei emendou: “será que morreu?”.

SUPERPAUTA – Chico Doido virou até peça de teatro!

MOACY – Sim, mas antes, quando anunciei a morte de Chico Doido no jornal, uma de minhas alunas chorou no meu ombro. “Ah, professor, você já soube que Chico Doido morreu?”. Ela chorou mesmo! Eu tinha marcado o encontro dele com os alunos e alunas da universidade. Já tinha até agendado o dia. “E agora, como é que eu faço?”. O final da nota fúnebre, no Globo, dizia: “Não precisa rezar pela minha alma”. (risos). Mas a peça ficou em cartaz dois meses em um teatro nobre de Copacabana. Depois ficou mais dois meses na Lapa. Teve uma noite reservada só para as prostitutas da Lapa… Lotou! Elas adoraram.

SUPERPAUTA – A peça reunia os poemas de Chico?

MOACY – Sim, os poemas do livro. Quem escolheu foi o próprio diretor e ator que interpretou Chico Doido: Leon Góes, filho de Moacyr de Góes. O livro faz parte da Coleção João Nicodemos de Lima, da Editora Sebo Vermelho. O nome dele é “69 poemas de Chico Doido de Caicó”. Assisti à peça 28 vezes, incluindo os ensaios. Cinco ou seis vezes eu estava lá atrás do palco, desejando “merda” a todo mundo. É hábito. Certa noite tocou o celular de uma moça na plateia. Leon pegou o celular e atendeu. “Oi. Sou eu, Chico Doido. Ela está aqui comigo. Estamos numa boa. Está ótimo!”. A moça ficou branca, verde, amarela… “Meu Deus do céu, era meu namorado ligando do Canadá. E agora, o que eu faço?”.

SUPERPAUTA – Você pode revelar quem era Chico Doido? Ele era duas pessoas? (pausa) Diante desse seu silêncio, compreendemos que é uma pergunta difícil, não precisa responder.

MOACY – É difícil porque o Nei Leandro não está aqui. Uma vez encontrei um ator pernambucano muito conhecido no meio cinematográfico do Rio, chamado Emmanuel Cavalcanti. Ele inclusive era conhecido do pessoal do Cinema Novo. Era um ator figurante, mas trabalhava muito. Emmanuel chegou pra mim e garantiu que já tinha visto Chico Doido na Feira de São Cristóvão. Garantiu!

A entrevista completa está aqui.

Sabia que vai virar filme?

Existe uma produção rodando sobre o personagem, dirigido por Leon Góes, filho de Moacyr de Góes (não confundir com Cyrne) e também dirigiu “O Homem que desafiou o diabo”. O filme é uma homenagem às figuras icônicas da cultura popular do Rio Grande do Norte e nasce do desejo de Leon Góes de resgatar a memória das histórias orais.

Vale lembrar que o diretor, filho do escritor e educador Moacyr de Góes, saiu daqui ainda pequeno para morar no Rio de Janeiro, passando toda a adolescência ouvindo histórias do RN contadas pelos escritores que frequentavam a casa do pai.

Sinopse do filme

Na história ficcional roteirizada por Leon Góes, o marinheiro Francisco Manoel de Souza Forte, nome de “batismo” de Chico Doido, volta da morte para cobrar uma dívida de Margareth, o grande amor de sua vida.

Na companhia do seu Anjo da Guarda e também da dona Morte, ele sai nessa procura pela amada. Além disso, vai nos caminhos imaginários pela sua terra natal, vai encontrando personagens ainda vivos, reais e fictícios das mais variadas procedências.

Nomes que foram citados no livro “69 Poemas de Chico Doido de Caicó” entram na história. Assim veremos os poetas Moisés Sesyon, Zé Limeira e Zé Areia, a Mãe de Pantanha, até poetas de outras terras distantes e eixos históricos, como Gregório de Matos e Augusto dos Anjos.

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