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Negros devem lutar, por dentro do protesto nos EUA

Para começar o texto, já digo logo que não sou a pessoa mais indicada para comentar sobre os protestos pela morte de George Floyd, por isso não conseguirei expressar o que uma pessoa negra sente diariamente. Durante a matéria conversei com duas pessoas negras para que elas falassem a sua relação direta do racismo e participaram dos protestos nos EUA ativamente. 

Mais que apenas vários protestos nos EUA e entenda o estopim

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George Floyd

No dia 25 de maio de 2020, George Floyd foi sufocado até a morte por um policial branco em Minneapolis, Minnesota. O policial manteve seu joelho no pescoço de Floyd por oito minutos, enquanto Floyd falou repetidamente que ele não conseguia respirar. 8 minutos, o último suspiro. 

Depois de anos comentando, reclamando e protestando, as pessoas estão cansadas de não serem ouvidas e de um sistema racista. De uma sociedade em que você precisa explicar ao filhos como andar nas ruas e o que fazer caso a polícia o pare. 

Sobre a situação dos protestos nos EUA, na cidade de Washington a situação é um pouco mais complicada, não somente por ser uma das maiores cidades do país, mas também é a capital do país e residência oficial do presidente Donald Trump, que segundo muitos apenas instiga violência com os seus comentários e a manipulação sobre os fatos. 

Desde domingo a cidade está sob toque de recolher, com a polícia e o comércio fazendo barricadas. O objetivo era reter o protesto e obviamente não conseguiram. 

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8 dados sobre a desigualdade racial no Brasil

Recentemente virou notícia que o número de estudantes negros nas universidades públicas passou, pela primeira vez, o de brancos , segundo a pesquisa “Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil”, feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2018, o Brasil tinha mais de 1,14 milhão de estudantes autodeclarados pretos e pardos, enquanto os brancos ocupavam 1,05 milhão de vagas em instituições de ensino superior federais, estaduais e/ou municipais. Isso equivale, respectivamente, a 50,3% e 48,2% dos mais de 2,19 milhões de brasileiros matriculados na rede pública. Isso mostra que a questão racial nas instituições de ensino superior, apesar de todas as polêmicas que cercam o assunto, está tendo um resultado favorável.

Apesar do dado ser positivo no combate à desigualdade racial no país, os dados das diferenças raciais ainda são alarmantes.

Dia 20 de novembro é marcado pelo dia da Consciência Negra e vamos divulgar outros dados da pesquisa que mostram que ainda precisamos melhorar no combate ao racismo, que vem não só pelo simples fato de ofender uma pessoa pela cor, mas também na desigualdade de oportunidades de emprego, renda, moradia e saúde. O Brechando separou oito dados sobre a questão racial que poderão ser conferidos a seguir:

1) Apenas 29,9% dos cargos gerenciais são compostas por negros ou pardos enquanto 68,6% são ocupados por brancos.

2) A cada 100 mil habitantes de 15 a 29 anos de idade, 98 são negros. Enquanto isso, a cada 100 mil pessoas, 34 brancos são mortos.

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3) 24,4% dos deputados federais do país são negros.

Orlando Silva é um dos deputados federais negros na Câmara Federal

 

4) As pessoas pretas ou pardas formavam cerca de 3/4 dos desocupados (64,2%) e dos subutilizados (66,1%) na força de trabalho em 2018.

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5) Em 2018, enquanto 34,6% das pessoas ocupadas de cor ou raça branca estavam em ocupações informais, entre as de cor ou raça preta ou parda esse percentual xatingiu 47,3%.

6) O recorte tanto por nível de instrução, quanto por hora trabalhada, reforça a percepção da desigualdade por cor ou raça. Em 2018, enquanto o rendimento médio das pessoas ocupadas brancas atingiu R$ 17,00 por hora, entre as pretas ou pardas o valor foi R$ 10,10 por hora.

7) o Censo Demográfico 2010 verificou que, nos dois maiores municípios brasileiros, São Paulo e Rio de Janeiro, a chance de uma pessoa preta ou parda residir em um aglomerado subnormal (favelas) era mais do que o dobro da verificada entre as pessoas brancas. No Município de São Paulo, 18,7% das pessoas pretas ou pardas residiam em aglomerados subnormais, enquanto entre as pessoas brancas esse percentual era 7,3%.

 

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8) A população preta ou parda obteve aumento na utilização da Internet e de posse de telefone móvel celular entre 2016 e 2017, sem superar, porém, a desvantagem observada em comparação à população branca. Em 2016, 59,5% da população preta ou parda acessou a Internet, passando para 65,4% em 2017, ao passo que, na população branca, essa proporção passou de 71,2%, para 75,5%. Quanto à posse de telefone móvel celular para uso pessoal, a variação foi menos expressiva entre esses anos, e, em 2017, 82,9% da população branca possuía telefone móvel celular, diante de 74,6% da população preta ou parda.

Agora a pergunta é: Quem mandou matar Marielle Franco?

363 dias depois…Acharam o assassino da vereadora Marielle. Era algo que todos suspeitavam: a milícia estava no meio de todo este crime. A Polícia Civil do Rio de Janeiro prendeu na manhã desta terça-feira (12) dois suspeitos de participarem do assassinato da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco (PSOL), morta em 14 de março do ano passado. Integrantes da Delegacia de Homicídios e do Ministério Público, responsável por denunciar a dupla à Justiça, deflagraram operação. Um deles é policial militar reformado e o outro é ex-PM. A ação foi feita com grupos reduzidos para evitar chamar atenção. Às 5h, equipes já cumpriam mandados de prisão em endereços dos suspeitos.

Segundo nota divulgada pelo Ministério Público do Rio, um dos presos é o policial militar reformado Ronnie Lessa, 48 anos. Ele é suspeito disparar a arma que matou a vereadora e seu motorista, Anderson Gomes. Gomes levava Marielle e uma assessora de um evento da Lapa, na região central da cidade, para a Tijuca, na Zona Norte. No meio do caminho, em uma área do Centro conhecida como Cidade Nova, um carro emparelhou com o da vereadora e uma pessoa disparou, segundo a polícia, arma automática.

De acordo com o jornal O Globo, Lessa entrou na lista de suspeitos após ser vítima de uma emboscada, em 28 de abril, 30 dias depois do assassinato da vereadora. A suspeita seria que pessoas envolvidas no crime teriam tentado promover uma queima de arquivo. Uma coincidência é que o militar reformado era vizinho de Jair Bolsonaro, atual presidente da República, em um condomínio na zona Sul.

O segundo suspeito preso foi o ex-policial militar Élcio Vieira de Queiroz, 36 anos. Ele estaria dirigindo o carro quando os tiros foram disparados.

Segundo a denúncia, Marielle teria sido morta em razão de sua militância em favor dos direitos humanos. A operação desta manhã foi a primeira com a participação do Ministério Público do Rio, por meio do Gaeco, que é o grupo de combate ao crime organizado. Essa unidade investiga crimes principalmente relacionados às milícias no Rio.

A ação foi batizada de Lume, em referência ao Buraco do Lume, praça no centro do Rio em que parlamentares do PSOL (onde a maior força do partido se encontra dentro da cidade carioca) costumam se reunir para falar de seus mandatos, toda sexta-feira. Os investigadores também identificaram que o policial reformado teria feito pesquisas sobre a rotina de Marielle e sobre eventos que participaria semanas antes do crime.

Além de ter pesquisado a vida não só de Marielle, mas também de Marcelo Freixo (hoje é deputado federal), deputado estadual na época e um dos ativistas em favor dos Direitos Humanos.

Em janeiro, pelo menos cinco pessoas suspeitas de envolvimento nos assassinatos da vereadora foram presas. Entre os detidos estavam um major da Polícia Militar e dois ex-PMs, identificados como sendo o major Ronald Paulo Alves Pereira, o ex-capitão Adriano Magalhães da Nóbrega e o subtenente reformado Maurício Silva da Costa. Mas só agora descobriu quem colocou o dedo no gatilho.

Apesar dos avanços, ninguém respondeu: quem mandou matar a Marielle Franco? Independente de quem apertou o gatilho, existem muitos homens por aí que querem apagar a sua história, no qual deixou um legado, inclusive sendo tema de uma das maiores Escolas de Samba da cidade (Estação Primeira de Mangueira) e estimulou a participação de outras mulheres faveladas na política.

Marielle Francisco da Silva nasceu no Rio de Janeiro, na Favela da Maré, definia como a “Cria da Maré”. Foi mãe aos 19 anos e teve de abandonar os estudos para criar a filha. Não tinha dinheiro para pagar um cursinho com o objetivo de estudar mais e entrar na Universidade Federal. Mesmo assim, mãe solteira, conseguiu uma bolsa na Pontíficia Universidade Católica (PUC). Foi ali que estimulou que outras pessoas como ela a ter acesso à faculdade e a militância começou a dar os primeiros passos. Dentro da PUC fez campanha para o então professor de história, Marcelo Freixo, de quem foi assessora parlamentar antes de se lançar em candidatura própria. Formou-se em Ciências Sociais e, posteriormente, tornou-se mestre em Administração Pública.

Dentro da Câmara dos Vereadores defendia que a revolução ou seria “feminista, classista e com o debate da negritude”, ou simplesmente não existiria. Ainda defendia as causas LGBT, uma vez que estava inserida no grupo.  Sempre encarou de frente homens poderosos, no qual muitos se tornaram parlamentares por apoiarem políticos de caráter duvidoso. Ela não tinha medo, mulheres faveladas cresceram com cabeça erguida mesmo com a falta de oportunidade.

Foi executada com três tiros na cabeça. De acordo com a Human Rights Watch, o assassinato de Franco relacionou-se à “impunidade existente no Rio de Janeiro” e ao “sistema de segurança falido” no estado. Marielle criticava ferozmente a intervenção federal no Rio de Janeiro e da Polícia Militar, denunciava constantemente policiais por abusos de autoridade contra os moradores e a presença das milícias, grupo paramilitar que domina algumas comunidades da capital fluminense. Recentemente, ela havia denunciado atrocidades feitas na Favela do Acari, uma das mais antigas do país.

365 dias para cá nada mudou, as armas foram liberadas, negros são mortos todos os dias e há o aumento dos indíces de violência. Sem contar que cresce cada vez mais o número de feminicídios, o crime é que a mulher é morta pelo seu cônjuge ou parente mais próximo, ou seja, pelas consequências da sociedade patriarcal. Para piorar, tentaram a difamar das piores formas possíveis, desde criação de fake news até deputados a ridicularizando em campanhas eleitorais.

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Agora, precisamos ter uma voz mais forte, vinda dos pulmões para saber quem mandou a matar e o porquê ela teve que pagar com vida em nome de direitos que deveriam ser básicos para todas as pessoas.

Recentemente, a cantora pernambucana Doralyce fez uma música questionando sobre o assunto, cujo clipe foi lançado, por coincidência, no dia que os assassinatos foram descobertos. Vídeo faz parte da sua participação no Sofar Sounds Rio de Janeiro, gravado em novembro de 2018. A letra tem uma forte crítica social, denunciando a violência institucional contra o povo preto, pedindo a desmilitarização da polícia e justiça para Marielle Franco.

Doralyce é ativista, cantora, compositora e atriz. Formada em direito pela UniNassau (PE), ainda é produtora cultural e professora de música. A compositora traz as influências rítmicas advindas do sítio histórico de Olinda, representando a força feminina no Maracatu, Coco, Manguebeat, Samba, ijexá, frevo e Maculelê. Se mudou para o Rio de Janeiro, em 2014, seu trabalho se potencializou ao dialogar com a cena teatral carioca, através dos movimentos de ocupação e resistência cultural em que tem expressiva atuação, foi onde teve o contato com a Marielle.

“O caso de Marielle é um fato social, uma partícula que precisa ser analisada com um microscópio para você entender todo o problema social do Brasil: de onde ele se enraíza, por que ele vem, por que essa sociedade se mantém assim. A gente fala de desmilitarização porque quem sustenta essa sociedade ser assim, quem silencia e mata manifestante é a polícia. Eles que fazem o controle do Estado, da sociedade, para a gente aceitar essa realidade social. Então é muito importante a gente falar sobre isso: Marielle morreu porque ela questionou a polícia. Eu não sei quantas mais de nós serão necessárias mortas para que as pessoas entendam que a polícia está nos matando. Que a polícia mata o povo preto desse país e não importa se é o preto favelado, se é o preto que mora no Complexo do Alemão ou se é a preta quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro. Foi preto, essa sociedade e esse sistema matam. São assassinos. As balas que mataram Marielle são da Polícia Federal. As pessoas que mataram Marielle eram policiais militares. A gente precisa entender essa instituição que a gente sustenta, que a gente fomenta”.

A canção “O Bicho” pode ser escutado a seguir:

Por que a carne mais barata do mercado é a carne negra ?

Na última sexta-feira (22), militantes da causa negra e alguns sindicatos ficaram em frente ao hipermercado Extra, no Midway Mall, para criticar o racismo e também contra o caso de Pedro Gonzaga, jovem negro, com 19 anos, que foi morto após uma agressão ao segurança da rede em uma unidade na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Os militantes pediram melhor investigação e que a empresa que pertence ao grupo Pão de Açúcar também seja punida pelo fato. O Brechando acompanhou o protesto de perto e perguntamos: “Por que a carne mais barata do mercado é a carne negra?”, em alusão à uma música composta por Seu Jorge, que questiona o aumento dos assassinatos aos negros em comparação aos brancos.

A canção foi composta nos anos 90, quando ainda era integrante do Farofa Carioca.

Confira as respostas a seguir:

“Assim como toda a juventude que tem o direito à vida na Constituição Federal, os jovens negros também deveriam ter esse direito, mas não é o que está acontecendo. Infelizmente temos uma dívida histórica, visto que foram os negros que ajudaram a construir este país através de monumentos, estradas, plantações e dentre outras estruturas que ajudaram a desenvolver o país durante a escravidão. “.

Heberth Goulart


“Se a gente analisar a história do Brasil, a mesma está entrelaçada com a chegada dos negros quando foram feitos de escravos e foram eles que usaram a força braçal para a construção de estruturas que hoje formam o nosso país. Ainda temos que considerar que o povo negro tem uma vida igual como qualquer outra pessoa com traços europeus tem que ser respeitado.”.

 

Gileno Saldanha


“Não somos inferiores, mas infelizmente os empresários e o estados nos roubam a vida, nos assassinando e privando de acessos aos cuidados mais básicos, de políticas públicas e inclusive na Reforma da Previdência que está perto de ser votada na Câmara dos Deputados. Infelizmente a gente precisa gritar para dizer que a nossa vida importa e enxerguem que ninguém precisa morrer como Pedro morreu. As pessoas não entendem isso e por isso o nosso grito.”.

Adonyara Azevedo


“Somos pessoas como qualquer outra e merecemos viver, não é isso que está acontecendo e a sociedade está nos matando aos poucos. Sinto o racismo todos os dias, não precisam me xingar ou maltratar de forma escancarada, geralmente de forma discreta. Inclusive quando estava caminhando para o protesto e cortei o caminho no shopping, onde via pessoas me olhando torto e me analisando de cima para baixo. Muitas vezes me sinto acuada e sem saber o que fazer neses momentos. “.

Kaly Lopes


“As vidas negras importam porque somos maltratados desde que fomos tratados como escravos na época da colonização, nos tratando feito bichos e nos colocando em lugares bastante marginalizados. Por isso, carregamos os piores postos de trabalhos, os maiores índices de mortes e a gente quer mostrar que somos resistência, estamos cada vez mais fortes e vamos lutar contra o racismo.”.

Giovanna do Quilombo Roça e Classe


“Estou cansada de ser a chacota da sociedade, o povo negro está sendo usado e estereotipado, nós temos os piores salários e isso pesa ainda mais para a mulher negra, que o salário é mais baixo ainda e a saúde é precária. A gente quer gritar para ver a importância que temos na sociedade, pois somos a alavanca do desenvolvimento do país.”.

Adriane Fernandes

E, agora, racismo ainda é vitimismo para você ?