Um dia consistente com Clotilde Tavares: cerveja com Raul Seixas, autógrafo de senador e uma cadeira que já foi de Teotônio Vilela

8 leitura mínima

Essa é a minha quarta tentativa de escrever sobre Clotilde Tavares. Para dar conta dessa tarde muito informativa e histórica, tive que recorrer ao método Lucas Silva e Silva, aquele do Lucas de Mundo da Lua que ligava o gravador e só ia falando. Foi assim que registrei a tarde que passei na casa dela. Ela mora num apartamento que para qualquer jornalista ou escritor deve parecer sonho de princesa. Pelo menos, eu tenho. Meu namorado, que foi ex-vizinho dela, já tinha me alertado que a casa dela era cheio de livros. 

De fato, era verdade. Estante para todo lado, livro empilhado e catalogado (importante frisar!). Uma sala que é ao mesmo tempo sala de estar e escritório, o lugar onde ela escreve crônicas, livros e as histórias que catalogou a vida inteira. Ela está inclusive reativando seu próprio selo editorial, o Engenho de Arte, que rodou nos anos 1980 e 90, porque descobriu que “era mais fácil editar os próprios livros do que confiar isso a terceiros”.

Conversamos de tudo, antes do gravador ligar, aqui só vou falar o que está dentro do gravador. Vou deixar os leitores curiosos a parte dos offs (risada maléfica). 

Mas o assunto principal daquela tarde surgiu de uma conversa antiga, de um grupo de jornalistas culturais e produtores de Natal e do interior do estado. De lá saiu a promessa de uma história sobre Raul Seixas, e não uma história qualquer.

Bebendo cerveja com Raulzito

Foi por volta de 1980, em Salvador. Clotilde estava na Bahia visitando a irmã e foi assistir a uma peça de teatro pela manhã, num dia de semana, no Teatro Castro Alves. Sentou na ponta da fileira, hábito antigo: “Eu sempre gosto de me sentar na ponta da fila, para quando eu quiser sair não precisar trabalhar muito.” Um homem sentou-se por perto com duas meninas pequenas, que passaram o espetáculo inteiro pisando nos pés dela. No fim, o pai se desculpou e a convidou para dividir uma cerveja ali mesmo, no bar do teatro, às onze da manhã, insistindo: “É só uma cerveja, é porque eu queria tomar uma cerveja.” Ela topou. Conversaram sobre amenidades, sobre as crianças, sobre nada de especial. Quando a amiga dela chegou e ela foi embora, a amiga perguntou espantada se ela sabia com quem tinha acabado de beber. Era Raul Seixas. “Ele é um sujeito alto, magro, muito magro, com os cabelos assanhados, com a barba, sem graça, eu achei, mas não tinha nada de doidão”, descreve. Clotilde nem sabia que ele tinha filhas, nem que morava na Bahia.

Jogando no Google, as filhas citadas são as mais velhas que moram hoje nos Estados Unidos enquanto montava uma reportagem. A Scarlet, uma das filhas, fez um post no Facebook, em português, que visitara muitas vezes o pai na Bahia. 

Teotônio Vilela Filho

A segunda história começa num convite para lançar um livro em Maceió. Chegaram para buscá-la no hotel e a levaram para um evento enorme, à beira-mar, com tendas para os convidados importantes e o público espalhado no meio. Reservaram para ela uma tenda pequena, isolada, emprestada da Secretaria de Saúde, com uma placa escrito “Dengue” em cima. Ela recusou educadamente: “Eu não vou me sentar naquele lugar com esse nome dengue, longe de todo mundo”, e pediu para ser realocada numa das tendas com gente. 

Assim que sentou, uma mulher a apresentou à mesa como a escritora vinda de Natal, e um homem simpático ao lado, mais ou menos da idade dela, se ofereceu para ajudar a vender os exemplares. Saiu chamando gente, negociando preço, cobrando e passando troco enquanto ela só autografava. No fim, sobrou um livro, e ela quis dar a ele como agradecimento. Pediu o nome para a dedicatória. Ele respondeu: Teotônio Vilela Filho, senador da República em pleno mandato. “Eu disse: não acredito que você é filho. Foi isso que eu disse”, lembra, ainda achando graça. No dia seguinte foram à casa que tinha sido do pai dele, o Teotônio Vilela histórico, e ela se sentou na cadeira do escritório onde ele trabalhava antes de morrer.

Mamãe de Carpinejar

Clotilde Tavares é mãe de Rômulo e Ana Morena, esta conhecida como a produtora cultural, baixista e simplesmente organizadora do Festival Dosol. Mas, por um dia, eles tiveram o escritor Fabrício Carpinejar como irmão. Num evento de literatura em Natal, ela dividia a mesa com outros dois escritores, entre eles Carpinejar, já conhecido da televisão. Quem apresentou a mesa apresentou os dois rapazes e simplesmente esqueceu dela. 

“Ficou eu, já com a idade mais avançada, de frente para um público que não sabia quem eu era”, resume. Uma jovem se aproximou perguntando se ela era a mãe de Carpinejar, e pediu um autógrafo dele porque precisava sair correndo. Clotilde, sem paciência para explicar quem era, apenas confirmou que era a mãe: “Tu ia dizer assim, não sou não, eu sou uma escritora que se esqueceram de apresentar? Nem morta, minha filha, eu sou paraibana (risos).”

Clotilde é natural de Campina Grande, mas vive em Natal desde o ano de 1970. Além disso, todas as duas crônicas (menos do Raul) estão no livro “A Cara da Riqueza”.

Mais momentos da visita

Clotilde Tavares mostrando os livros para mim

Voltamos à sala cheia de estantes. Ali ela mostrou o acervo inteiro, catalogado por ela mesma: cadernos organizados por assunto, presos em espirais que ela vai trocando por maiores conforme as histórias aumentam. Ela brinca sobre o próprio arquivo: “Quando eu morrer, alguém já vai ter um acesso completo para fazer a minha biografia.”. 

No fim, eu recebi o livro “Instruções para sair à luz do dia”, um livro de contos sobre cotidianos no geral. A obra tem como ilustração as fotografias de Mylena Sousa e uma bela dedicação, escrita assim: “Para Lara, com carinho e consistência, Clotilde”. 

Comentário para Clotilde sobre as crônicas: Amei a crônica de Joaninha, ela é diva e loba.

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Oi, eu sou o Goku. Mentira, meu nome é Lara. Sou jornalista e publicitária formada pela UFRN, natural de Natal. Sempre fui de humanas. Tem um blog para expor as suas curiosidades e anseios desta vida e mostrar os diferentes lados da vida urbana.
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