Existe fotógrafos de moda, outros gostam de praticar o fotojornalismo, e alguns ainda preferem a parte artística. No entanto, há uma equipe que prefere fotografar os palcos. Não estou falando de teatro, mas shows. São fotógrafos que se espremem entre o público e o palco, sofrem com pouca luz, levam empurrão no pogo e ainda assim conseguem trazer pra casa a imagem que resume um show inteiro em um clique.
Conversamos com três nomes que documentam a cena de hardcore, punk, metal e rock em Natal, Felipe Alecrim, Rafael Pandeiro e Kiara Sakura, pra entender como cada um chegou até essa função e o que faz valer a pena continuar nela.
Agora, o Brechando vai adentrar neste universo veja a seguir todos os detalhes.
Do acaso à câmera própria: biografia dos profissionais em fotografar shows/banda de hardcore, punk e metal em Natal
Nenhum dos três começou pensando em ser fotógrafo de shows. Felipe Alecrim conta que até 2012 tinha pouco interesse pela fotografia, mesmo sendo formado em audiovisual (antigo Rádio e TV) e jornalismo. “Até 2012 eu tinha pouco interesse pela fotografia. Passei a me interessar mais pela área nessa época, quando comecei a trabalhar com assessoria de comunicação e surgiu a necessidade de fotografar os assessorados em eventos e reuniões”, conta. Foi só em 2014, quando comprou a própria câmera e fez dois cursos, que a coisa engrenou de verdade. “A partir daí, fui pegando cada vez mais gosto pela área, embora nunca tenha exercido a fotografia como profissão formalmente”, completa.
O caminho até os shows também passou pela escrita.
“Eu já escrevia para sites e blogs desde 2007, pois sempre tive vontade de contribuir, de alguma forma, para a manutenção e fortalecimento do underground, já que nunca toquei instrumentos”, lembra Felipe
Entre 2011 e 2012 ele já clicava com câmeras emprestadas, e a partir de 2014, com equipamento próprio, passou a fotografar shows com mais frequência.
“Quando comecei a ter contato com a fotografia, percebi que ela poderia ser mais uma maneira de contribuir com esse cenário.”
Rafael Pandeiro tem uma origem mais antiga e mais analógica. Ele conta os detalhes a seguir:
“Desde a adolescência eu costumava pegar uma câmera analógica antiga do meu pai pra fotografar coisas aleatórias pelo centro da cidade e Ribeira, mas não tinha conhecimento algum sobre a operação da câmera ou sobre exposição, composição etc. O resultado era bem imprevisível, mas eu gostava do processo.” , conta.
O primeiro show que fotografou foi também um marco pra cena local.
“O primeiro show que fotografei, coincidentemente foi o primeiro show da banda Dead Funny Days, no saudoso Mp3, em 2004 (ou 2003, não tenho certeza), apenas pra guardar como recordação da banda”, diz.
Só depois, estudando sozinho o funcionamento das câmeras e as regras básicas de composição, a música foi ganhando espaço dentro dos seus interesses fotográficos, “até pela presença constante em shows”, como ele mesmo resume.
Kiara Sakura carrega a fotografia como herança de família. “A fotografia está presente na minha vida desde muito nova, meu pai e meu avô sempre amaram fotografar e filmar, tudo no analógico ainda”, conta. Curiosamente, sua entrada nos shows underground não veio direto do rock.
“Comecei primeiro a fotografar raves, quem diria, pra depois levar a fotografia pros shows de rock underground”, brinca.
O que puxa a lente pra esse tipo de show
Perguntados sobre o que os atrai especificamente na fotografia de rock, hardcore e metal, os três falam de coisas parecidas por caminhos diferentes. “Para além do estilo ou do gênero musical, o que eu gosto de fotografar é o movimento e a expressividade artística no palco”, diz Felipe.
“A combinação de movimentos, expressões e luzes cria uma dinâmica muito interessante, e é justamente essa energia do momento que me atrai na fotografia de shows.”
Rafael enxerga a fotografia primeiro como registro documental. “Ter um registro documental, antes de tudo, é o que me motiva. As imagens vão para diversos fins, divulgação, acervo pessoal das bandas etc, mas o mais importante ao meu ver é sempre o registro como preservação da memória e até mesmo fonte de informação”, explica.
Sobre o hardcore e o metal especificamente, completa:
“Envolve a tentativa de transmitir pela imagem a intensidade e a atmosfera desses eventos. Transmitir a sensação de estar lá assistindo as performances, a reação do público.”
Kiara resume de forma parecida: “É tentar registrar o sentimento que a banda e o público criam, não necessariamente as cenas, mas a atmosfera que é criada.”
Pouca luz, muita poga ao fotografar os shows de punk, hardcore e metal em Natal
Se tem um ponto em que os três se encontram sem hesitar, é o desafio técnico. “O maior desafio é justamente conseguir captar o momento certo. Em algumas situações, a própria iluminação também se torna um obstáculo”, diz Felipe. “Como não tenho um equipamento mais robusto para trabalhar em condições de pouca luz, shows com iluminação mais limitada podem ser bastante complicados. Nessas situações, é mais difícil conseguir fotografar com a qualidade que gostaria e, principalmente, captar os movimentos da maneira que quero e gosto.”
Rafael lista praticamente um roteiro de guerra: “Falta de iluminação, espaço limitado na maioria das vezes, calor e a velocidade em que tudo acontece. Muitas vezes é preciso conciliar técnica, manipular a luz disponível, conseguir um bom posicionamento, tentar prever os momentos que vão valer os cliques, tentar evitar acidentes e contar bastante com a sorte também.”
Kiara traduz o mesmo problema de um jeito mais direto: “Pra mim um dos maiores desafios é o equipamento aguentar ambientes muito escuros e passar pela poga (roda punk, apelido carinhoso, ou mosh pit, como diz na gringa) sem ser derrubada”, diverte-se.
Os momentos que ficam
Quando o assunto é o ponto alto da carreira, cada um puxa pela memória shows que carregam peso histórico ou afetivo pra cena.
Felipe hesita em escolher um único auge. “Não diria que existe um único ponto alto, principalmente quando penso nas fotos em si. Fotografar de perto bandas como Pennywise e Against Me!, que são bandas de que gosto muito e que dificilmente voltarão a tocar no Nordeste, foi uma experiência muito especial”, conta. “Mas também tenho várias fotografias de bandas locais e regionais das quais gosto bastante.”
Rafael teve o privilégio de fotografar nomes lendários como Ratos de Porão e Cólera. “Foi indescritível poder registrar esses capítulos históricos da cena underground de Natal”, diz. Fotografar o Pennywise em Fortaleza, banda da qual é fã declarado, também entra na lista. Mas o momento que ele descreve como mais gratificante foi outro: “Ser convidado pra fotografar Cláudio Slayer pro projeto Open the Coffin foi um momento muito gratificante pra mim, pois permitiu que meu trabalho fosse visto em lugares que eu jamais imaginaria, revistas como Roadie Crew e sites em vários países como Rússia e Alemanha.”
Para Kiara, o ponto alto foi o show do Ratos de Porão em Natal. “Acredito que o show do RDP, por ter se tratado de algo histórico e eu estava lá fotografando com meus amigos”, resume.
Uma cena, vários olhares
As trajetórias de Felipe, Rafael e Kiara não se cruzam por acaso. Cada um chegou à fotografia de shows por uma porta diferente, o trabalho, a curiosidade adolescente, a herança de família, mas todos encontraram no hardcore, no punk e no metal de Natal um motivo pra continuar apertando o botão mesmo sem luz suficiente, sem espaço e, muitas vezes, sem reconhecimento. O resultado desse trabalho em fotografar os shows de punk, hardcore e metal em Natal é o acervo visual que hoje conta a história da cena underground potiguar, uma imagem de cada vez.
Fotografias que eles acharam mais fuderosas que eles tiraram
O Brechando pediu aos três fotógrafos quais fotos que eles mais gostaram de tirar e resolvemos montar um álbum de fgotografia com o objetivo de mostrar o trabalho do trio que entrevistamos.
Rafael Pandeiro




Felipe Alecrim




Kiara Sakura






