“Era uma tragédia anunciada”, disse Carlos Peixoto sobre a Tragédia do Baldo, visão do jornalista que viveu na época

Lara Paiva
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Há mais de quatro décadas, uma curva abaixo do Viaduto do Baldo, na Avenida Rio Branco, guarda uma das memórias mais sombrias do Carnaval potiguar. Na madrugada de 25 de fevereiro de 1984, durante uma prévia, um ônibus desgovernado avançou sobre um bloco carnavalesco e deixou um rastro de mortes. Até hoje os natalenses relatam que aquele foi o momento de que a folia de rua em Natal teve o seu fim.

Antes, os jornais já denunciavam a desorganização do carnaval da cidade, visto que havia a demora para divulgar as datas da programação. Sem contar que houveram muitas críticas dos colunistas pelo fato de que todo o carnaval aconteceria em um só lugar: Alecrim. 

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Esta reportagem vai explicar um pouco de como foi o evento e busca trazer um resgate histórico.

Sensação de filme de terror

A ideia era realmente unir os desfiles de Escolas de Samba, Tribos de Índios, shows e blocos de carnaval sairiam no mesmo bairro. Antes, também haveria uma prévia. Por volta da madrugada daquele sábado para domingo de 26 de fevereiro de 1984, o motorista Aluízio Farias Batista conduzia um ônibus pela descida da Avenida Rio Branco, na região conhecida como Baldo. Ao fazer a curva, a traseira do veículo bateu na lateral dianteira de um Fusca estacionado no canteiro. Como resultado, o impacto desviou a trajetória do ônibus, que arremessou para cima do bloco “Puxa-Saco”, um bloco de embalo que passava naquele exato momento do outro lado da via.

Naquela época, o bloco estava comemorando os mais 10 anos de atividade. Após o acidente, muitos jornalistas consideram aquele período como a morte do carnaval da cidade, momento que as pessoas estavam migrando para as praias da região vizinha em curtir a folia do momo. 

O veículo seguiu, por conseguinte, em alta velocidade por um trecho de cerca de 86 metros, atropelando integrantes da banda e foliões que acompanhavam o desfile. O saldo foi trágico: 19 mortos e ao menos 12 feridos graves, além de dezenas de pessoas com ferimentos leves. Entre as vítimas fatais estavam um neto do então senador Dinarte Mariz, militares e membros da elite potiguar.  

Mariz era padrinho político do então prefeito de Natal, José Agripino Maia. Logo depois da batida, o motorista chegou a prestar depoimento à polícia, mas desapareceu em seguida e o seu sumiço foi um mistério por mais de 40 anos. A sua prisão aconteceu em junho de 2026, após 42 anos em Cuiabá, capital de Mato Grosso. 

A tragédia na visão do jornalista Carlos Peixoto

Jornalista Carlos Peixoto

Repórter no início de carreira em 1984, o jornalista Carlos Peixoto foi um dos primeiros profissionais a chegar ao local da Tragédia do Baldo, na madrugada de sábado para domingo daquele ano. 

A recente prisão do motorista condenado pelo caso, Aluízio Farias Batista, o Brechando relembrou a cobertura daquela noite e também do depoimento que Carlos Peixoto gravou para o programa Linha Direta  (Rede Globo). Então, o entrevistamos para falar comentar de sua visão ao apurar o fato, além de sua avaliação sobre o que pode acontecer agora com o condenado. 

O jornalista contou que estava começando como repórter de rádio e estava na cobertura dos desfiles das escolas de samba no Alecrim.

“Eu ouvi um colega dar o aviso de um grande acidente na Ladeira do Baldo. Literalmente, corri da (avenida) Presidente Bandeira, do relógio que havia em frente à Praça Gentil Ferreira, até o local. Eu era setorista na Câmara Municipal, cobria as notícias da política municipal e a cena do atropelamento foi bem chocante”, comentou. 

O cenário que encontrou era corpos das vítimas.a tragédia espalhados e falhas estruturais do trajeto, como a falta de iluminação e de policiamento na via. “Ainda mais chocante porque o local era mal iluminado. Os corpos no chão, as pessoas gritando e chorando, a gravidade do acontecido era evidente, mas ninguém dizia direito como tinha acontecido”, complementou.

Um divisor de águas

Mais do que uma tragédia pontual, o episódio até hoje é um marco na história do Carnaval de Natal. Lideranças carnavalescas da época afirmam que a cidade vivia um momento de expansão da folia de rua, e que o acidente interrompeu abruptamente esse crescimento, contribuindo para o declínio que o Carnaval natalense enfrentaria nos anos seguintes.

O jornalista comentou que um dos casos foi o fato de que no caminho para o pronto-socorro do Hospital Walfredo Gurgel, já no carro da reportagem, encontrou um acidente no cruzamento da Alexandrino de Alencar com a Hermes da Fonseca. “Uma ambulância que levava feridos do Baldo bateu e fez capotar uma Kombi que levava um corpo, vítima do mesmo acidente, para o hospital. Os corpos empilhados na antessala do necrotério do Hospital Walfredo Gurgel. Era um horror difícil de descrever”, afirmou.

Para o Carlos Peixoto, durante a apuração, percebeu que poderia ser uma”quase tragédia anunciada”. 

“O motorista foi demonizado pela população, mas uma observação dos fatos e das circunstâncias mostra outras coisas. O bloco deixou o Alecrim sem contar com a ajuda de batedores da polícia de trânsito. Hoje isso é obrigatório em cortejos de rua, antes não era. O trecho da Ladeira do Baldo e o início da Avenida Rio Branco era, e ainda é, mal iluminado. O motorista estava fazendo o que chamávamos de “terceiro expediente”, e a escola de samba que ia no ônibus estava bem barulhenta, quase todos haviam bebido. Em resumo: um contexto de desorganização, estruturas urbanas deficientes, excesso de carga de trabalho e estresse provocado por barulho e confusão”, explicando o porquê que isto poderia ser evitado, reconhecendo que isto, de jeito nenhum, minimiza a dor dos parentes dos mortos.

A prisão, 42 anos depois

O caso voltou ao noticiário nacional no fim de junho de 2026. Aluízio Farias Batista, já condenado a 21 anos de reclusão pela Justiça, foi finalmente preso em Mato Grosso, através de uma ação conjunta entre as Polícias Civis do Rio Grande do Norte e de Mato Grosso.

Carlos Peixoto comentou que estava em casa quando soube da prisão. A novidade foi contada por meio de um amigo, que rapidamente lembrou do depoimento do profissional ao programa Linha Direta há 20 anos. Na entrevista, Carlos Peixoto falou da visão como um profissional da mídia sobre o acontecimento. Na época, Peixoto era da editor-chefe da Tribuna do Norte e a afiliada da Rede Globo (TV Cabugi) e o jornal impresso pertenciam à Família Alves. 

E agora? Será que vai cumprir realmente a pena? Peixoto relembrou, no entanto, que tudo depende de um bom advogado, uma vez que na época da condenação o advogado dele era um Defensor Público. 

“Não sou advogado, mas me parece que a condenação que existe é pelo acidente. A falsidade ideológica é outro crime, posterior a essa condenação. Pela lógica, precisa haver um novo processo. Mas, falando apenas da condenação que já existe: ele tem 69 anos, a pena é de 21 anos de reclusão. Se for cumprir integralmente, vai ficar na cadeia até os 90 anos. Mas acho que isso não vai acontecer. Se ele tiver um bom advogado”, finalizou

Segundo as investigações, o foragido vivia havia décadas sob identidade falsa, usando os documentos de uma pessoa morta em Natal em 1996. Ele teria, inclusive, renovado a própria Carteira Nacional de Habilitação com esses dados falsos em 2021, seguindo na profissão de motorista. A confirmação da identidade verdadeira veio por cruzamento de dados, análise documental e reconhecimento facial. Ao ser confrontado pelos investigadores em sua residência, no bairro Jardim Presidente I, ele confessou, portanto, quem realmente era e preso.

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Oi, eu sou o Goku. Mentira, meu nome é Lara. Sou jornalista e publicitária formada pela UFRN, natural de Natal. Sempre fui de humanas. Tem um blog para expor as suas curiosidades e anseios desta vida e mostrar os diferentes lados da vida urbana.
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