Bem, esta pergunta é sempre feita para mim ao falar que sou de esquerda. Eu reconheço meus privlégios, tive acesso ao colégio bem elitista na capital potiguar que me fez ter melhor preparo ao adentrar na UFRN, moro no bairro nobre da capital potiguar, tenho os melhores equipamentos, carro, roupas e nunca passei fome. Mas, viver como classe média realmente é pobre premium. Minha família sempre vivia no limite para que isso acontecesse, inclusive já vi meus pais abatidos por saber qual seria o próximo boleto a pagar.
Achava um absurdo, particularmente, ficar angustiada por um papel moeda ou por especulação de grana. Além disso, minha juventude todinha dizia: “O PT destruiu a classe média do país”. Mas, por outro lado, via a cidade que meu pai cresceu tendo água encanada, luz elétrica e aquele cenário de sertão sofrido de Patativa do Assaré sendo diminuído diante dos meus olhos.
Eu era uma adolescente questionadora e veio meu primeiro contato com a esquerda
Foi na adolescência, mais precisamente aos 14 anos, que tive meu primeiro contato com o socialismo nas aulas de história e filosofia. Foi estudando que mostrou que o movimento surgiu por meio da insatisfação da exploração de donos de fábricas em torno do trabalhador. Na época, os operários euripeus trabalhavam numa escala 7×0 e 12 horas por dia. Primeiro, os operários começaram a ficar insatisfeitos e começaram a lutar pelos seus direitos não só no trabalho, como no âmbito político. Isto se repetiu com os camponeses posteriormente.
Então, eu via que era importante ter um governo que lutasse por mais trabalho e mais retorno para a comunidade. Comecei a pensar no coletivo.
Antes mesmo desse contato tinha lido sobre Jacobinos, no qual o conceito de esquerda nasceu bem antes quando Karl Marx ousar a escrever o “Manifesto Comunista”. Os mesmos defendiam o fim da monarquia absolutista, voto universal e direitos iguais.

Virada de chave começou aos 20 anos
Voltando a falar do Partido dos Trabalhadores. Foi na faculdade de jornalismo que fiz amizade com pessoas que diziam com olhos marejados falando da importância de ser o primeiro da família a fazer curso de graduação e, ao mesmo tempo, na minha casa, via minha tia madrinha feliz porque finalmente foi enfermeira com Prouni, para dar um futuro melhor aos meus dois primos mais novos. Perguntara: “cadê essa destruição toda?”. Mas, o lado político veio mesmo após os protestos de 2013 que decidi que era de esquerda. Em 2015, eu criei o Brechando e sempre acompanhou pautas progressistas. Além das curiosidades e histórias do RN, falo de feminismo, adoção de animais, a importância da redução desigualdade social, LGBTQIAP+, universidade pública e assuntos que são marginalizados diante da sociedade.
Milennials (nascidos entre os anos 80 e 90) frustrados
Eu tive acesso as mesmas coisas que meus colegas de escola, sendo que a única diferença que não tinha acesso às viagens caras ou acesso a resorts luxuosos, porque meus pais tinham mais o que fazer: manter os boletos intactos. Meu pai queria que tivesse em um patamar alto para não chegar na dificuldade que ele passou, mas o golpe de 2016 fez com que muitas ilusões que criaram nos jovens de classe média alta que seriam ótimos profissionais e bem-sucedidos porque tiveram mais preparo foram por água abaixo.
Vi colegas ficarem depressivos, tornarem Ubers, abrir MEIs para sobreviver ou fazer outra graduação, porque o plano A não existia. Quem se deu bem, foi, obviamente, os meus colegas de classe que eram herdeiros ou passaram em concurso público.
Neste mesmo colégio, eu vi que não era vista como uma pessoa de elite no colégio que estudei, meus traços de indígena e negro eram temas de bullying, a minha neurodivergência que eles descobriram primeiro que eu era motivo de chacota e ainda era vista como uma emergente, esquisita e todos os adjetivos mais pejorativos. Me unia ao seleto grupo de excluídos de uma escola elitista composta por nerds, otakus e todo tipo de tribo alternativa urbana.
Consciência de classe me ajudou na minha formação como pessoa de esquerda
Toda vida que perguntam, porque não me tornei uma “patricinha”, sempre falo que minha mãe me salvou. “Problema de fulano se ele tem direito de viajar todas as férias, você só pode ter o que pode, ainda assim você tá acima do patamar de muita gente, vamos ter consciência”.
Sempre tive conflitos com meu pai na adolescência por divergências de ideia, ele cresceu no sítio e ele venerava meu avô paterno anti-comunista, Manoel, um vaqueiro que teve que fugir para o Rio de Janeiro por conta da seca do Nordeste na década de 40 e após uma tragédia voltou ao estado potiguar, onde viveu como agricultor. Painho acreditava que a meritocracia é real, você tem que lutar sozinho e não existia fatores externos. Mas, seu Hermano França esqueceu que cada corpo funciona de um jeito, afinal como Rousseau fala: “o homem é produto do meio”.
Foi ali, em Sítio Novo, que vi governos de centro-esquerda investindo no interior pode melhorar o trabalhador do campo e seus filhos, que programas como Bolsa Família diminuiria evasão escolar e que pode estudar em universidades ou institutos federais sem precisar se mudar para capital. Meu pai pode não ter visto amigos de infância subindo na vida como aconteceu com ele, mas viu filhos e netos dos mesmos entrando numa universidade pública, gratuita e que incentiva a pesquisa, educação e a extensão. E quando não era, bolsas do Prouni ou financiamento do Fies.
Querer equidade não é pecado
Minha mãe sempre falava que minha família veio de baixo e como foi sofrido subir. O pai dela, por exemplo, saiu de Pedro Velho na juventude e trabalhou como motorista para ter seu emprego federal. A sua esposa, minha avó materna, tinha que vender muamba na rua até conseguir uns trocados e montar a sua própria merceária. O pouco que eles tinham, conseguiram juntar para comprar uma casa, quase a história da Galinha Ruiva.
Vovô Gilberto sempre dizia a minha mãe que tínhamos pensar no coletivo, ser honesto e alertava a jovem Alice Paiva e meus outros três tios, durante a infância, que o período que ela tava passando era a Ditadura Militar ao justificar o porquê de não elegermos o presidente naquele período e que todo cuidado era pouco.
Não, não é utopia
“Mas, Lara, o socialismo é uma utopia, você viu como a União Soviética caiu?”. Sim, a União Soviética caiu, porém trouxe inspiração que um advogado como Vladimir Lenin peitou um Império Russo extremamente corrupto e conseguiu criar uma gestão que tentasse promover igualdade, mesmo que por pouco tempo, assim como a Rosa de Luxemburgo que conseguiu na Alemanha.
Sonhos não envelhecem, como diz Milton Nascimento em Clube da Esquina nº 2 ou poderia usar Raul dizendo que um sonho que se sonha junto é realidade. Vovô admirava Brizola e sua capacidade de construir escolas na quebrada com objetivo de diminuir a desigualdade social no Rio de Janeiro. O velho mostrou que era possível ter um RJ igualitário, mesmo com a grande imprensa questionando isso e os fascistas querendo tomar o poder.
Hoje, o Rio de Janeiro virou um estado narcopentecostal e o Brasil, portanto, está mais próximo de ser uma Colômbia dos anos 70 e 80, dominada por facções e administrada por milicianos e seus políticos de estimação. Eu quero que esses dois por cento da eleição que separou esse futuro tenebroso seja só um susto. Precisamos criar uma frente ampla de esquerda nos próximos 15 anos para que a gente fique forte politicamente e que mesmo a direita continue a dominar, a gente ser uma oposição barulhenta e combativa. Agora, a dor precisa virar motor de construção social não só agora, mas para as próximas gerações.


