Hoje para saber quais são os livros mais vendidos no mercado editorial só precisamos pesquisar no Google. Antigamente, as livrarias, por meio de sua equipe de marketing ou assessoria de imprensa, enviava para as redações. Outra forma, que existe até hoje, é através da seção de best-seller, no qual os livros mais vendidos são postos em um lugar específico.
Mas, quem não podia ir para livraria o tempo todo, o jeito era acompanhar pelos jornais. A Livraria Universitária, que ficava no Centro de Natal, trouxe ao jornal a lista dos “10 Livros Mais Vendidos no Semestre”, do ano de 1973.
Confira a lista completa a seguir:
1. Tereza Batista Cansada de Guerra — Jorge Amado (foto em destaque)
2. Memória do Marechal Juarez Távora – Autobiografia.
3.Último Tango em Paris — baseado no filme de Bertolucci
4. O Exorcista — William Peter Blatty
5. Massacre! — Dee Brown
6. O Número Dois Mais Famoso do Mundo — Henry Kissinger
7. O Chefão — Mario Puzo
8. A Hegemonia dos EUA e o Subdesenvolvimento da América Latina — Celso Furtado
9. Eram os Deuses Astronautas? — Erich von Däniken
10. Incidente em Antares — Erico Verissimo
Retiramos de um anúncio original: Livraria Universitária, na Tribuna do Norte em julho daquele ano. Não confundir com a Cooperativa Cultural, livraria que fica no campus da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Um retrato do Brasil de 1973
Não é coincidência que essa lista pareça, ao mesmo tempo, familiar e completamente estranha. Ela mistura literatura brasileira de peso, geopolítica da Guerra Fria e a cultura pop que dominava as bancas e cinemas do mundo inteiro.
Jorge Amado, declaradamente comunista, liderava o ranking com “Tereza Batista Cansada de Guerra”, publicado em 1972 e já consagrado como um dos grandes romances populares do autor baiano. Não muito atrás, Erico Verissimo fechava a lista com “Incidente em Antares”, lançado no mesmo ano.
Do outro lado do espectro, **Henry Kissinger**, então Secretário de Estado dos EUA e uma das figuras mais influentes (e controversas) da política internacional, aparecia como assunto de interesse do leitor comum, sinal de como a Guerra Fria e a diplomacia internacional ocupavam a cabeça das pessoas mesmo fora dos círculos acadêmicos. Na mesma toada política, **Celso Furtado**, um dos maiores economistas brasileiros, figurava com um ensaio sobre a hegemonia americana na América Latina, leitura densa para um “mais vendido”, o que diz muito sobre o público leitor da época.
O Exorcista
O destaque, porém, e o item que ganhou uma marcação especial no recorte original do anúncio, é “O Exorcista”, de William Peter Blatty, na 4ª posição.
O romance, lançado nos EUA em 1971, já era um sucesso de vendas mundial, mas 1973 foi o ano que o transformou definitivamente em fenômeno cultural: em dezembro daquele ano estrearia nos cinemas americanos a adaptação dirigida por William Friedkin, que se tornaria um marco do gênero de terror e um dos filmes mais lucrativos da década.
Mais curiosidade desta lista
O livro “Memória do Marechal Juarez Távora” é uma autobiografia, que traz memórias do militar e político brasileiro Juarez Távora. Lançado pela editora da Bibliteca do Exército, a obra fala da figura histórica do movimento tenentista, líder da intervenção no período de Vargas.
Já *Último Tango em Paris” posteriormente virou no polêmico filme de Bernardo Bertolucci, lançado no ano anterior e cercado de escândalo por seu conteúdo sexual explícito, outro sinal de como a lista misturava alta cultura, política e uma certa ousadia proibida para a época. Na época, a obra fílmica estava censurada pela Ditadura Militar (1964-1985).


