Musa Class: merchan que cai no meu carro

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Foi assim: estacionei, fui resolver minha vida e, quando voltei, tinha um cartão preso na borrachinha da janela do motorista. Não no limpador de para-brisa, que seria o clichê. Na borrachinha. Alguém teve o cuidado de escolher um lugar que ninguém olha, mas que a gente sempre acaba vendo.

No cartão, uma mulher em pose de ensaio, estilo Coelhinha da Playboy, sem nome, só a marca “Musa Class” e um QR Code. Nada de escrito explicando o que era. Não precisava. Olhei pros outros carros do estacionamento e todos tinham recebido o mesmo cartão. Um merchan coletivo, silencioso, deixado ali por alguém que sabia exatamente o que estava fazendo.

Já sabia qual era o site, seus anúncios são espalhados por aí, principalmente nas paredes dos túneis e viadutos de Natal. Mas depois, curiosa, procurei o site e encontrei a página do Musa Class em outro momento. A promessa para as acompanhantes é direta: “eleve sua carreira para o próximo nível”, “vitrine definitiva e mais luxuosa para acompanhantes de alto padrão”, cadastro para ser “descoberta pelos clientes certos”. No rodapé, o discurso é puro copywriting de startup: SEO de ponta, algoritmo de recomendação, “adeus à lentidão”, suporte via WhatsApp, perfil verificado, stories ativas, design responsivo pra desktop e celular.

É uma rede social. Só que em vez do feed de aleatórios, é vitrine de acompanhantes. O Musa Class atua em praticamente todo o Nordeste, e fora da região só aparece em São Paulo, Belo Horizonte e Brasília. Dá pra pensar nele como o Mark Zuckerberg da putaria: mesma lógica de plataforma, mesma linguagem de crescimento e conversão, só que aplicada a outro produto.

Merchan mais comum do Musa Class (Foto: Lara Paiva)

O que me chamou atenção não foi o site em si, foi a estratégia de distribuição. Cartão na janela do carro, lambe-lambe pela cidade, marketing de guerrilha clássico aplicado a um segmento que sempre operou nas margens e agora está migrando pra dentro da lógica das plataformas digitais. A indústria do sexo em Natal está se sofisticando no discurso publicitário na mesma velocidade que qualquer startup de aplicativo.

Natal e o sexo como setor comercial

E isso reabre uma ferida antiga da cidade que nem o sistema Fecomércio explica. Natal carregou por décadas a fama de polo de turismo sexual, um estigma que o poder público sempre tentou empurrar pra debaixo do tapete em campanhas de turismo. Um cartão na janela do carro, discreto, bem produzido, endereçado a quem passa despercebido, mostra que essa realidade nunca foi embora. Só trocou de plataforma.

Não sei quem colocou o cartão no meu carro nem se vieram atrás de mim especificamente ou se foi só sorte de estacionamento com lotação. Mas fiquei pensando em como a gente segue tropeçando nessas provas de que a cidade ainda carrega esse rótulo, só que agora com QR code.

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Oi, eu sou o Goku. Mentira, meu nome é Lara. Sou jornalista e publicitária formada pela UFRN, natural de Natal. Sempre fui de humanas. Tem um blog para expor as suas curiosidades e anseios desta vida e mostrar os diferentes lados da vida urbana.
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