Videolocadora: chuvas revelam antigos estabelecimentos que foram apagados por uma tinta

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Foi andando pela Zona Leste, resolvendo problemas de adultos. Isto não quer dizer que fico observando Natal pelas beiradas. Uma delas foi vendo uma casa conjugada na zona Leste que escondeu um segredo interessante. Descoberto pela chuva. Reboco gasto, tinta descascando em placas, o tipo de fachada que a cidade inteira tem aos montes e que ninguém mais olha duas vezes.

Onde a tinta tinha ido embora, sobrava um desenho. Não risco de tempo, não mofo, não essas manchas soltas que qualquer parede acumula. Era letra. Grande, alta, teimosa: “VIDEOLOCADORA”. Escrita por baixo de não se sabe quantas demãos, sobrevivendo a reforma, a pintura nova, a troca de dono, a troca de função da própria casa. Como seria essa videolocadora? Tinha gente? Esses mistérios ficaram juntamente com a camada de tinta.

Antes de dobrar a esquina onde ficava a casa, tentei tirar a foto para mostrar o nome que está bem nítido. Não é só tinta descascando à toa. É o contrário: é tinta que tentou, camada atrás de camada, apagar um nome, e não conseguiu.

Tem algo de assombração boa nisso. Não do tipo que assusta, do tipo que insiste. A cidade constrói em cima de si mesma o tempo inteiro, casa vira comércio, comércio vira casa de novo, quarto de aluguel vira ateliê, ateliê vira depósito. E por baixo de cada reforma, alguma coisa do que já foi teima em atravessar a nova camada. Uma parede não esquece tão fácil quanto a gente.

O que é uma videolocadora?

Uma videolocadora ou, simplemente, locadora é um estabelecimento comercial focado no aluguel de mídias de entretenimento, como fitas VHS, DVDs, Blu-rays e jogos eletrônicos. O modelo foi extremamente popular entre as décadas de 1980 e 2000, antes de perder espaço para as plataformas de streaming digitais. Hoje, existe algumas lojas para alugar, mas equipamentos específicos.

Dá para imaginar a cena, sem nem ter vivido ela: fila de sexta à noite, fita andando de mão em mão, capa de VHS meio arranhada, aquela demora gostosa de escolher o filme com a família inteira dando palpite. Um comércio de bairro, desses que sabiam o nome de cada cliente e o gênero de filme que cada família gostava. Depois veio o streaming, vieram os anos, veio a tinta. E o nome ficou lá, teimoso, esperando o dia em que alguém ia raspar de leve e descobrir que ele nunca tinha ido embora de verdade.

É meio isso que a gente queria dizer com esse achado: o passado não pede licença para voltar. Ele não avisa, não bate na porta. Ele só espera a próxima rachadura, a próxima reforma malfeita, o próximo pedaço de tinta que descola sozinho com o sol. E aí ele aparece, sem cerimônia, escrito bem alto na parede, para lembrar todo mundo que nenhuma camada nova apaga completamente a que veio antes.

Natal é cheia dessas casas. Cheia dessas letras escondidas, desses nomes de comércio que ninguém mais lembra, desses pedaços de história empilhados um em cima do outro como se fosse possível esquecer só pintando por cima. Não é. A gente que andou pela Zona Leste esse dia que aprendeu isso na prática: às vezes basta o tempo fazer o trabalho de descascar para mostrar que memória não é coisa que se cobre, é coisa que se acumula.

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Oi, eu sou o Goku. Mentira, meu nome é Lara. Sou jornalista e publicitária formada pela UFRN, natural de Natal. Sempre fui de humanas. Tem um blog para expor as suas curiosidades e anseios desta vida e mostrar os diferentes lados da vida urbana.
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