A cidade que confundiu duas plantas e virou fenômeno mundial: os bastidores do documentário sobre a Liamba de Cruzeta

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Bastidores da gravação do documentário da Liamba (Fotos: Júlia Donati)

Existe uma história no interior do Rio Grande do Norte que já passou dos limites do estado, do país e até do idioma. É a história de Cruzeta, cidade do Seridó conhecida como terra da fé e da música, que um dia apareceu no noticiário nacional por causa de uma planta espalhada pela praça, pelo cemitério, pela delegacia e por seis residências. A informação que circulou foi simples e explosiva: tinha maconha por toda parte. O problema, todavia, é que não era bem assim.

Trinta anos depois, Liamba, um santo remédio retorna ao território para investigar o que realmente aconteceu. Através dos relatos de quem viveu aquele episódio, o documentário revisita documentos, evidências, memórias e saberes populares para reconstruir uma história situada entre conhecimento tradicional, desinformação, medo e disputa de narrativas. 

diz o release do filme.

Foi essa confusão, e tudo que ela revelou sobre memória, medo e desinformação, que uma equipe de documentaristas do Rio Grande do Norte decidiu investigar. O resultado é um documentário que já nasceu grande: os vídeos sobre o caso somam centenas de milhares de visualizações no YouTube, no Instagram e no TikTok, e a equipe por trás do projeto vem de uma trajetória sólida no cinema documental, com passagens por produções como “Abraço de Maré”, de Victor Ciriaco, e “Leningrado: Linha 41”, de Dênia Cruz.

A equipe do “Liamba, um santo remédio” teve acesso a parte do inquérito policial, reportagens da época, registros audiovisuais e depoimentos de pessoas diretamente envolvidas nos acontecimentos. Além disso, o laudo pericial produzido durante a investigação, no entanto, não foi localizado pela equipe. Também buscou, através dos relatos de quem viveu aquele episódio, a revisão de documentos, evidências, memórias e saberes populares para reconstruir uma história situada entre conhecimento tradicional, desinformação, medo e disputa de narrativas.

O filme esclarece diferenças, aproximações e usos medicinais das plantas, conectando essa memória aos debates contemporâneos sobre saúde, acesso à informação e cuidado. Em um momento em que milhares de famílias recorrem à cannabis medicinal em busca de alternativas para doenças raras, crônicas e complexas, a história de Cruzeta ganha novos significados.

Liamba é maconha?

Uma das entrevistadas do documentário da Liamba (Fotos: Júlia Donati)

O nome popular é Liamba. A planta científica é a Vitex agnus-castus. E ela não tem nada a ver com a Cannabis sativa, a maconha propriamente dita, embora as duas tenham folhas parecidas o suficiente para confundir quem olha rápido. “É como se eu te dissesse que mamona e macaxeira foram confundidas, porque têm folhas parecidas, mas são plantas diferentes”, explica Luara Schmó, diretora do filme. “A anatomia dos folíolos é semelhante, mas são espécies diferentes.”

Foi em cima dessa confusão, entre uma planta e outra, entre boato e fato, que se construiu boa parte do imaginário sobre Cruzeta. E é justamente aí que mora o interesse do documentário, que não é, como muita gente supõe ao ouvir falar do projeto, um filme sobre maconha. “As pessoas pensam que esse é um filme sobre maconha, mas esse não é o eixo motor do filme. O eixo motor é sobre memória coletiva, sobre desinformação, sobre saúde”, afirma Luara.

Há também uma camada de religiosidade e uma reflexão sobre trauma coletivo, conceito que a equipe aprofundou com o professor Lauro Pontes, do Rio de Janeiro, no Fórum Delta 9 de 2024, importante evento norte-rio -grandense que debate sobre o uso da maconha medicinal. O Fórum é organizado pela ONG Reconstruir Cannabis, visto que foi essencial para equipe compreender sobre a maconha e e a limaba, os avanços científicos, as pesquisas e as aplicações terapêuticas que vêm transformando a vida de milhares de pacientes.

Da pandemia à Lei Paulo Gustavo: seis anos de produção sobre documentário da Liamba

Equipe do documentário (Foto: Júlia Donati)

O projeto nasceu num momento em que ir a campo era impossível. Entre 2020 e 2021, com a cultura parada pela pandemia e a equipe em casa cuidando de idosos e crianças, o grupo decidiu usar o tempo para pesquisa e desenvolvimento de novas histórias. Foi assim, com o apoio da Lei Aldir Blanc, ainda antes de virar Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), que a história de Cruzeta começou a ganhar corpo.

Em 2023 vieram a bíblia de produção, o primeiro tratamento de roteiro e a visão de direção. No mesmo ano, o projeto foi aprovado na esfera estadual pela Lei Paulo Gustavo, o que finalmente destravou os recursos para a realização. O dinheiro chegou em 2024, junto com um período de campanha eleitoral, e a equipe tomou uma decisão deliberada: esperar. “A gente não ia falar de um assunto tão delicado no meio de uma campanha eleitoral, com os ânimos aflorados. Você vai remexer numa coisa que dói em todo mundo daquela cidade, que as pessoas têm medo”, diz Luara.

O tempo extra de pré-produção foi usado para revisar o roteiro, aprofundar a pesquisa e formar a equipe. As filmagens aconteceram em 2025.

Voltar para casa: o pré-lançamento em Cruzeta

Em julho de 2026, o filme teve seu pré-lançamento onde tudo começou: na própria Cruzeta. A escolha não foi por acaso. Depois de tratar de um trauma coletivo da cidade, a equipe entendeu que era preciso prestar contas com a comunidade, explicar por que entrou naquelas casas, por que decidiu falar sobre maconha medicinal num município pequeno, de perfil conservador, majoritariamente católico e evangélico.

A exibição aconteceu dentro da Festa da Colheita e Torneio Leiteiro, celebração da agropecuária da cidade e uma das datas em que quem mora fora costuma voltar para casa. Junto com o pré-lançamento, a equipe promoveu uma roda de conversa sobre cannabis medicinal, saúde e direitos, em parceria com a Associação Reconstruir Cannabis Medicinal, organização parceira do projeto desde o início.

A expectativa era de resistência. Não foi o que aconteceu. “A gente pensava que a cidade ia estar fechada para isso. Não: a gente teve boa procura e participação na roda de conversa”, conta Luara. Profissionais de saúde, assistência social, famílias cuidadoras e pessoas da área do direito compareceram, e o interesse foi além do documentário em si: muita gente queria entender melhor os tratamentos atuais à base de cannabis, especialmente numa região, o Seridó, onde crescem os casos de câncer, Alzheimer, Parkinson e neurodivergências. A curiosidade também tem crescido desde a decisão do Supremo Tribunal Federal sobre o tema. 

“Trinta anos depois, o debate avança”, resume Luara, fazendo questão de reforçar que o filme não trata do uso adulto ou recreativo da cannabis, mas da aceitação do uso medicinal.

Palavra que cura, palavra que mata

Para a equipe, o cuidado com a forma de contar essa história foi tão importante quanto a pesquisa em si. “Uma narrativa é como um remédio. Como saber se é remédio ou veneno? A palavra pode ser a mesma, o que muda não é o fármaco, é a dose”, diz Luara. “Ou você ajuda alguém a sair de cima da ponte, ou ela termina de pular da ponte.”

Foi com essa lógica que o time tentou lidar com um tema sensível, marcado até hoje pelo medo. Muita gente em Cruzeta ainda hesita em falar sobre o episódio, com receio de que a história vire de novo inquérito policial. Documentaristas por formação, e não botânicos ou pesquisadores da área, a equipe optou por manter o filme centrado no que sabe contar: pessoas, memória e cidade. “Nossa personagem principal é a cidade de Cruzeta, é essa memória coletiva, é esse trauma coletivo”, resume a diretora do filme.

Onde assistir

Por enquanto, eles estão na fase de distribuição e o trabalho está sendo feito de formiguinha. Ou seja, segue um caminho diferente do vídeo de internet, que espalha rapidamente. “Filmes independentes precisam passar por um circuito de festivais de pelo menos dois anos antes de serem negociados com alguma plataforma ou com algum canal de TV brasileiro dedicado a curta-metragem”, explicou a diretora. O documentário agora está em fase de inscrição em festivais, aguardando seleção, sem data de estreia definida.

Até lá, fica a expectativa de quem já viu de perto o efeito que a história de Cruzeta provoca: gente que confunde duas plantas, uma cidade que carrega um trauma coletivo há décadas, e um documentário que aposta que contar essa história direito também é, de algum jeito, uma forma de cuidado.

Confira a ficha completa

  • Título: Liamba, um santo remédio.
  • Gênero: Documentário.
  • País: Brasil.
  • Ano: 2026.
  • Duração: 40 minutos.
  • Classificação indicativa: 12 anos.
  • Idioma: Português.
  • Pesquisa, Roteiro e Direção: Luara Schamó e Manoel Batista.
  • Assistência de Direção e Colaboração na Pesquisa: Wallace Santos.
  • Produção Executiva: Luara Schamó e Renata Marques.
  • Direção de Produção: Ricelly Sousa.
  • Produção Local: Jean Araújo.
  • Apoio à Produção: Lucas Schamó.
  • Coprodução: Nave Mãe Criações e Remar Produções.
  • Cocriação: Nave Mãe Criações e Cruzeiro Filmes.
  • Realização: Governo do Estado do Rio Grande do Norte, Secretaria de Estado da Cultura e Fundação José Augusto.
  • Parceria: Associação Reconstruir Cannabis Medicinal.
  • Apoio: Maji Filmes, Prefeitura Municipal de Cruzeta e Secretaria Municipal de Saúde de Cruzeta.
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Oi, eu sou o Goku. Mentira, meu nome é Lara. Sou jornalista e publicitária formada pela UFRN, natural de Natal. Sempre fui de humanas. Tem um blog para expor as suas curiosidades e anseios desta vida e mostrar os diferentes lados da vida urbana.
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