Me lembro de quando uma vez fui para Drogasil e parcelei em três vezes uma compra de 1000 reais. Quem me dera fosse apenas produtos de skin care. Eram os remédios que minha antiga psiquiatra indicou: Sertralinas, Depakots e Ansitecs. Um regularia meu humor, outro diminuiria minha ansiedade e o outro amenizaria a depressão. Esse ritual era repetido mensalmente. Ou seja, em torno de 15 mil reais por ano (estou incluindo as consultas também). Recentemente, vi no Saiba Mais, estudo do site da Revista Lancet sobre a falta da eficácia do uso da cannabis medicinal.
No entanto, vem o primeiro viés da pesquisa: ela é qualitativa. Ou seja, ela faz uma análise bibliográfica de outros estudos, mas não arranja uma solução. A comprovação de uma eficácia de medicamento tem que ser quantitativa. E sempre as pesquisas alertam que nem todas as doenças podem ser tratadas com CBD, como Transtorno Bipolar. Mas, eu vou falar da minha experiência pré e antes do canabidiol.
Ao todo eram sete comprimidos todos os dias. Se esquecesse um, meu humor mudaria para pior. Isto porque não falei das tentativas de ir em consultas através do plano de saúde, no qual muitas vezes fui mal atendida e nem olhavam para minha cara. Só ouvia meus sintomas e me davam um diagnóstico qualquer.
Focar no que interessa:CBD
O tema deste texto é para falar de como o canabidiol mudou minha vida para melhor. Sempre ouvia que este medicamento iria revolucionar. Meu primeiro contato foi uma vez no evento do Delta 9 que fui cobrir para o Brechando e conheci Felipe Farias da ONG Reconstruir Cannabis, organizador do evento. Lá, assisti uma mesa-redonda que falava dos estudos avançados do canabinóides em doenças mentais não só como depressão, como também em neurodegenerativas, como Parkinson.
Na lojinha conheci uma pessoa que estava vendendo óleo de cânhamo, que vem das sementes de cannabis. Senti uma melhoria no meu corpo, inexplicável e ainda o uso da planta para fins medicinais ainda era um tabu. Tudo era mais complicado. Após a liberação da Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) comecei a procurar saber quem poderia receitar em Natal. Minha psiquiatra, da época, era extremamente contra. Quando comentei da minha suspeita de autismo, a mesma respondeu que era “impossível”.
O começo de tudo
Após minha mãe estudar e conhecer uma pessoa que disse melhorias, incentivou que eu procurasse algum médico psiquiatra que receitasse o óleo, que estava cansada de me ver com efeitos colaterais dos remédios e sem sinal de melhora, só as doses aumentando. Então, procurei Felipe novamente e ele indicou a minha psiquiatra atual. Cheguei lá, mostrei a minha primeira avaliação neuropsicóloga, meu histórico médico e começamos a conversar sobre os mais de 20 anos que luto para que minha saúde mental fique menos ruim.
Falei a ela sobre as dificuldades com humor, depressão, ansiedade ao extremo e ataques de pânico… Além do transtorno de personalidade Borderline, falei sobre o teste que deu resultado para fenótipo ampliado autista, mas isto ainda não responde às minhas perguntas, principalmente porque sentia prejuízo comunicacional. Afinal, eu tenho dificuldade de contato visual e isto me causa (porque o problemas foi amenizado, mas ainda continua) problemas de convivência, a fala muito rápida prejudicando a dicção, dificuldades de fazer amigos, comportamentos repetitivos, dificuldades de manter uma conversa e falta de compreensão das emoções alheias. Sem contar que era incrivelmente desatenta e hiperativa, que gerariam a impulsividade e muitas vezes tomar atitudes que arrependeria posteriormente.
Fazendo a análise médica
Inicialmente, ela acreditou no primeiro laudo, mas me receitou o CBD com CBG (Canabigerol). “Mas, vou colocar o CBG junto, porque juntos eles vão ajudar a regular seu corpo, deixá-lo menos depressivo, sua ansiedade e diminuirá as suas noites de insônia, mas não vou tirar o Depakot, porque ele que regula seu humor”, alertou. Além disso, exigia que tivesse acompanhamento multidisciplinar com outros médicos.
O mês era setembro e estava no meio do congresso quando fiz o último desmame. Tomei as 30 gotinhas diariamente, o gosto era estranho. Mas, eu estava com fome de melhora. Os meses foram passando e vi que o Naternal (marca que uso do meu CBG + CBD) estava realmente substituindo os efeitos da Setralina e Ansitec.
“Espera, ele está fazendo a mesma coisa quando tomava sete comprimidos ao dia? Isto realmente funcionou comigo!”, celebrei. Eu olho as garrafinhas que tomei com um misto de orgulho e felicidade, porque eu sinto que realmente estou melhor e regularizada, mais consciente do meu corpo e de suas funcionalidades.
Óbvio que tem dias complicados, mas nada se compara ao que era quase dois anos, que sempre o medo do próximo surto era presente.
Melhoria na saúde e no bolso
Parei de gastar 1000 reais por mês para metade do que gastava é um salto quântico. Os custos caíram pela metade. Ainda gasto muito com psicóloga e psiquiatra (mesmo sendo em torno de três vezes ao ano), mais motivo de ter mais CAPS no SUS, que atualmente tem fila de espera para poder receber o atendimento gratuito e para receber medicamentos, evitando práticas manicomiais.
Sei que o lobby farmacêutico é grande, porque houve o aumento de farmácias que receitam CBD e sua turma. No entanto, acreditou nas pesquisas que realmente comprovam a sua eficácia, inclusive em Natal com o Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Sem contar que muitos fármacos psiquiátricos utilizam psicotrópicos como componentes e tirar isso deles prejudicaria milhões de dólares,
O único gasto acrescido que tive foi o Lyberdia, que após descobrir o TDAH e TEA, no qual tive que fazer uma segunda avaliação neuropsicológica. Assim, eu comecei a tomar após ter tido problemas sérios com falta de atenção. Mas, sei que se tivesse continuado com aqueles e tivesse adicionado o Lyberdia, meu orçamento iria dobrar.
Espero que a medicina avance e que seja menos conservadora, além de abrigar novos horizontes para saúde mental. Afinal, não vamos voltar ao eletrochoque e a camisa de força.


