Antes de ser um baile do Aeroclube, o rock’n’roll foi um pânico global. Em pouco mais de uma década, o ritmo que nasceu nos Estados Unidos atravessou o oceano, provocou tumultos em cinemas ingleses. Foi dançado por uma princesa, proibido por governadores brasileiros e, por fim, chegou a Natal. Aqui se tornou, ao mesmo tempo, coqueluche da alta sociedade e alvo de uma portaria judicial. Esta reportagem reconstrói essa trajetória a partir de recortes de jornais da época, em ordem cronológica.
Natal, anos 50. Esta foi a década bastante importante, uma vez que a Segunda Guerra Mundial acabou. Como consequência, as tensões seguiam vivas, e os dois grandes vencedores do conflito, Estados Unidos e União Soviética, disputavam quem exerceria mais influência sobre o planeta. Essa disputa não era só militar e diplomática: era também cultural. E foi nesse cenário que novos estilos musicais começaram a surgir e a se espalhar pelo mundo.
Origem do estilo
Um desses estilos misturava blues, gospel e folk. O que mais tarde seria conhecido pela alcunha de rock and roll. Suas primeiras batidas vinham de cidades como Nova Orleans, Memphis e do Texas, num caldeirão de tradições musicais afro-americanas do sul dos Estados Unidos.
Afinal, qual a origem do nome? É uma referência para os verbos “ to shake up”,” to disturb” ou “to incite”. Traduzindo algo como sacudir, perturbar ou incitar. Em 1937, Chick Webb e Ella Fitzgerald gravaram “Rock It for Me“, cuja letra trazia o verso “So won’t you satisfy my soul with the rock and roll“.
Já o termo rocking era usado por cantores negros de gospel no sul dos Estados Unidos com sentido próximo ao de êxtase espiritual. Na década de 1940, porém, o termo passou a ser usado também com duplo sentido. Referindo-se tanto à dança quanto, veladamente, ao ato sexual, como na canção em “Good Rocking Tonight“, de Roy Brown.
Anos 50, o rock começar a bombar no mundo
O marco geralmente apontado para a explosão do rock and roll como fenômeno de massa é a gravação de “Rock Around the Clock“, de Bill Haley & His Comets, em 1954. A canção se torna sucesso mundial, inclusive na Inglaterra, onde sua exibição nos cinemas, através do filme homônimo. Como resultado, as sessões do filme provocaram uma reação aos jovens, pois eles se levantam das poltronas para dançar nos corredores. Depois nas ruas, interrompendo o trânsito.
As autoridades locais, alarmadas com a “confusão” gerada pela plateia, chegam a proibir a exibição da película em cidades como Manchester. Esta cena foi fotografada e posteriormente publicada por “O Globo”. Depois, a Tribuna do Norte a republicou em Natal, sob o título “A Tempestade do Rock And Roll Sobre a Inglaterra”.
O ritmo efervescente atingiu níveis estratosféricos. A Tribuna do Norte publicou novamente em 1954 uma nota de agência. A mesma alegou que a própria princesa Margaret, irmã da rainha Elizabeth II, vai a um cinema do centro de Londres. Lá, assistiu ao mais recente filme de rock’n’roll, estrelado por Jayne Mansfield.
Enquanto isso, o público brasileiro aplaudia com o mesmo entusiasmo canções brasileiras como “Mulher Rendeira” e “Ave Maria no Morro”. Sendo assim, um sinal de que a música brasileira circulava lado a lado com a americana. Em Nova York, o cronista Rubem Braga, cobrindo a disputa presidencial entre Eisenhower e Stevenson, registra de passagem, no Madison Square Garden, um cantor negro e um trio tocando “rock’n roll”.
1957: O rock chega ao Brasil
No Brasil, “Rock Around the Clock” ganha uma versão gravada pela cantora Nora Ney. Ainda em dezembro de 1954, a mesma canção recebe duas versões em português: “Ronda das Horas”, por Heleninha Silveira, e outra gravada pelo acordeonista Frontera. Só em 1957 o país grava o que é considerado o primeiro rock original em português: “Rock and Roll em Copacabana”. A composição era de Miguel Gustavo e gravado por Cauby Peixoto.
Agora, o rock finalmente desembarca com força total no restante do país. Inclusive, em praças mais distantes do eixo Rio–São Paulo, como Natal.
Nas principais capitais, a chegada do rock ao país é recebida, no entanto, também com repressão de Estado. Em São Paulo, depois que jovens “apaixonados por Rock and Roll” depredam o Cine Paulista, o governador determina à Secretaria de Segurança que sejam detidos e postos à disposição da polícia os adeptos do ritmo. No Rio de Janeiro, o chefe de Polícia proíbe o rock’n’roll nos bailes de carnaval, assim como maiôs biquíni, lança-perfumes e bebidas alcoólicas.
E no Rio Grande do Norte?
Na capital potiguar, o debate chega antes mesmo do primeiro baile. O cronista Hênio Melo, na Tribuna do Norte, ironiza a adesão da “juventude transviada” do Rio e de São Paulo ao rock. Chamou o ritmo de algo “totalmente adventício”, sem ligação com a índole do povo brasileiro. Sua aposta é que o natalense reagiria como o público de Recife, que, segundo ele, assistiu à exibição do filme “Ao Balanço das Horas” com “a mais completa indiferença”.
A previsão, no entanto, não se confirma. Meses depois, a Tribuna informou que o próprio Veríssimo de Melo, que é jornalista, folclorista e cronista social de “A República” é flagrado dançando rock num baile no Teatro de Natal, episódio registrado em nota à parte.
O ano era 1957
Ao longo do primeiro semestre de 1957, o rock vira presença obrigatória nas colunas sociais de Natal. O Aeroclube anuncia repetidamente a “primeira festa do rock n’ roll”, chamando o ritmo de “coqueluche” que se torna moda na cidade, sempre com a participação de “um grupo de rapazes e senhoritas da alta sociedade natalense”. A mesma fórmula se repete em anúncios do Clube América e do Centro Esportivo Feminino.
O ápice chega numa noite de quinta-feira, na boate do Aero Clube: depois da exibição do filme “Bonita e Audaciosa”, a orquestra do “maestro louro” ameniza o salão com “um gostoso rock n’ roll”, com a presença de Socorro Gurgel, a recém-eleita Miss Rio Grande do Norte 1957. Na edição seguinte, a coluna escrita por Worden Madruga confirma o marco histórico: houve, durante o baile, “a primeira exibição oficial em Natal” do rock’n’roll, dançado por Ivanildo Deus e Inês Aranha, e pelo próprio cronista com Márcia Santos, “a brincadeira agradou em cheio”, resume a nota.
Novas festas se seguem: no Clube América, uma reunião social apresenta o rock “com a colaboração de um grupo de rapazes e senhoritas da sociedade local”; num jantar dançante na boate de Maxaranguape, o mesmo grupo volta a se apresentar, chamando o rock de “o trepidante ritmo ianque”; e uma nova sessão no Aerocube tem a exibição comandada pelo “mago” Ivanildo Barbosa.
A proibição
Mas, no dia 15 de junho de 1957, o Dr. Oscar Homem de Siqueira, Juiz de Menores da Comarca de Natal, baixa portaria proibindo os menores de 21 anos de dançar ou mesmo assistir a espetáculos de rock’n’roll, sob a alegação de que a dança “degrada os seus aficionados” e cria “ambientes de mais baixa depravação”. A portaria também responsabiliza pais e responsáveis por qualquer transgressão de filhos.
Como resultado, a diretoria do Aerocube do Rio Grande do Norte, reunida em sessão ordinária, delibera acatar e apoiar formalmente a portaria do juiz, proibindo a exibição de rock n’ roll no próprio clube. O mesmo salão que, semanas antes, sediara a “primeira exibição oficial” do ritmo na cidade.






