24 de junho é dia de São João. Rapidamente vem uma festa de interior, quadrilha junina e um fim de semana na casa dos meus avós por parte de pai. Ao mesmo tempo, uma rápida visita na cidade vizinha, onde tem a família por parte de mãe como tias e primas dela: Tangará. Adoro dizer que esta tem um universo particular e todo aquele estereótipo de cidade interiorana.
Tem o doidinho da cidade, a praça para fazer a resenha, a igreja no centro, o açude e todo mundo se conhece, do pobre ao rico. Mas, tem gente que pensou: Se eu fizer uma história de terror envolvendo Tangará? Foi o pensamento que o jornalista e doutorando do Programa de Pós-Graduação em Estudo da Mídia da UFRN (PPGEM/UFRN) pensou.
O mesmo foi, inclusive, finalista do concurso nacional de literatura, mas bateu na trave. Como a vida do escritor é com base na teimosia, o mesmo resolveu lançar de forma independente. No entanto, eu tive a exclusividade de ler primeiro e vou fazer a resenha. Fiquei curiosa para saber como a terra do pastel seria retratada.
A resenha de Sina
Sina é o nome do livro de Tony Lucas. A história se passa em 2024 com o estudante de jornalismo Samuel, um menino tangaraense, gay e está começando a namorar o Caio, que lhe deu recentemente um baralho de tarô. O estudante fica encantado, uma vez que estuda misticismo e ainda sofre com o luto perder o pai após 10 anos. Sobre a relação paternal, esta associação na mente do protagonista é cheia de nuances.
Primeiramente, o genitor falou por último com o próprio Samuel antes de fazer uma tragédia. Como resultado, a família do jovem sofreu intensas retaliações e se mudou para um distrito. Além disso, só iria ao centro para estudo e ainda sofria bullying por ser magro, negro e gay. Por conta da faculdade de jornalismo ser em Natal, ele se mudou para capital.
A partir desta introdução, todo o livro vai ser baseado nas cartas de tarô para começar nos nomes dos capítulos.
Virada de chave da trama
O livro já começa a dar ação quando há o diálogo entre Caio e Samuel após o presente. Ao organizar a mesa de cartas, o futuro jornalista tira logo a carta da morte, que significa novas mudanças, fim de ciclos. Mesmo assim, o mal pressentimento surgiu. Apesar disso, ele seguiu em frente e começou a ler as cartas para a sua rede de apoio, amigos que também eram gays e tinham muita coisa em comum.
O Samuel ficou encantado com as cartas e o leitor também fica curioso com o tarô, uma vez que explica detalhado o funcionamento de cada imagem. Não é apenas prever o futuro, mas interpretação de imagens. No fim do semestre da faculdade, o casal realizou uma viagem para Tangará, aí que vem a parte que mais gostamos: o suspense.
Apesar do suspense, também tinha relatos comuns de ser gay natural do interior, como a mãe chamando o namorado de amigo, separando o quarto com aquele questionamento de “o que os outros vão achar” e ao mesmo tempo queremos torcer que as coisas mudem ao longo da história.
Reviravolta por trás de reviravolta
No entanto, a medida que o livro passa o Tony procurou fazer com que as cartinhas parecesse uma espécie de cartas Clow da Sakura Card Captors na vida do jovem Samuel cheia de mistérios, deixando o pobre do protagonista cheio de dúvidas. Quando comecei a ler o livro, rapidamente imaginei o Samuel com aquela roupinha de Sakura usava na hora de guardar as entidades de volta para carta e a Tomoio, óbvio seria o Caio (quem assistiu o anime vai entender).
E a medida que o livro avança viu que não era somente o pai que tinha problemas do além, mas toda a família do Samuel está no meio do misticismo. Algo estilo uma crônica de Gabriel Garcia Marquez, no qual sempre há um calcanhar de Aquiles que os familiares carregam de geração em geração. E a medida que ler, você pergunta: Qual o “rabo de porco” da família de Samuel por parte de pai? O que tem de místico na família da mãe?
Ao mesmo tempo que traz um pouco do realismo fantástico (poderia ser muito bem uma obra de Dias Gomes), Sina mostra alguns problemas no interior, como a existência de facções que são os novos cangaceiros.
Considerações finais sobre Sina
O livro também me lembra das coisas que eu fazia quando visitava no interior, como comer um alimento em forma de afeto (pode ficar 200 anos sem pisar na cidade a comida terá o mesmo gosto), sair de Tangará após comer pastel de queijo manteiga, parar em Bom Jesus para comprar Beiju ou Soda (meus pais gostam do último mencionado, eu odeio), escutar música no meio do caminho ou ouvir um podcast começando rir sozinha no carro e ter sempre aquele choque cultural ao ver meus parentes.
Sem contar que lembra o lado místico do interior, como o jeito da minha avó Maria do Céu ser extremamente superticiosa e pedir para uma rezadeira me benzer quando eu era bebê porque achava que tinha mau olhado.
Ao mesmo tempo, assemelha o distrito que meu avô tinha sítio no distrito de Sítio Novo, onde tinha um pequeno posto de saúde, a escola ficava distante e poucas casas ao redor, tudo isso próximo de um chão de terra batida e um ar mega quente amenizando apenas a noite por estar em volta de serra.
Por fim, o livro de Tony não é só identificação, mas também uma forma de mostrar que é possível escritores potiguares usar cenários fora de Natal. Você não precisa ser do interior para entender, mas é um livro de identificação. Se gosta de Garcia Marquez, vai amar este livro no seu kindle, estante ou tablet.


