Take it easy 2: Como ser um casal neurodivergente

Lara Paiva
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Namoro há quatro anos e posso dizer que nunca tive tanta intimidade quanto tenho com o atual relacionamento. Foram tantas subidas e descidas que pareceram uma montanha-russa. O que poderia ser fim ou cansaço vira um pouco de resistência. Talvez de teimosia, além da vontade de ficar junto. Muitas vezes, quando sabem que estou em um relacionamento afetivo e tenho neurodivergência, perguntam como João é meu suporte. É possível ser casal neurodivergente?

O questionamento, ainda, vem mais sério quando descobrem que João também possui neurodivergência. No início, de fato, a gente tinha muita divergência na comunicação. Às vezes, queria comunicar uma coisa e ele entendia outra. Nesta hora, os ruídos eram fortes. 

Primeiro veio o diagnóstico dele. Queria estudar e compreender o que se passava na cabeça dele, como ter comunicação clara e concisa. Ao mesmo tempo, quando ele contava as coisas da infância, eu enxergava as minhas juntamente com outros relatos de filhos de meus amigos e aprofundava no assunto. 

No final de 2024, eu tive uma crise de burnout. Chorei copiosamente no meu trabalho após cometer um erro. Senti um fracasso profissional e, ao mesmo tempo, vi que ele estava melhorando a saúde mental dele. Ele estava no time que mais me incentivou a refazer o exame neuropsicológico. 

Foram seis semanas de dúvidas e estava lá me incentivando todas as quartas a andar a pé até a clínica. Sempre perguntara como foi e o que estava sentido naquele momento. Até chegou o dia do resultado, numa manhã de abril e liguei no choro dizendo o  veredito. Ele estava no meio do batalhão da rede de apoio, implorava para parar e tomar café no Mc Donald’s (gosto do queijo quente deles), tirar um dia para mim e que ficasse com minha família. 

Só tomei café e vi minha família no almoço, à noite lhe vi na minha casa, nos abraçamos e depois desse dia a gente luta para que nossa comunicação, nossos sentimentos e tudo esteja claro. Um dia de cada vez para entender esse universo de casal neurodivergente. Cada um pergunta como foi o dia da terapia, se já tomou remédio e fica na casa de um ou de outro quando está se sentindo atibulado. 

Todo dia estudando e procurando técnicas para se regularizar e o mais importante: nunca dormir brigados ou resolver o mais rápido possível. Hoje, vejo que a gente quer ficar junto, luta diariamente para ter a mente saudável para ajudar um ao outro e sempre lê artigos sobre o que deve e não deve fazer. 

Relacionamento já é difícil. Mas, considero que nós dois, casal neurodivergente, conseguimos seguir numa vida menos complicada, pois ambos entendemos as dores de ser forçado a viver em uma caixinha de uma normalidade. 

Desde a Revolução Industrial, o sistema quer que a sociedade apresente alto rendimento no trabalho (maldito, capitalismo), seja gentil o tempo todo, tenha corpos bonitos, boa aparência e todos aqueles requisitos para sermos amados. Então, vem em torno de 1% da população mundial que naturalmente ou não resiste a isso e sofre as consequências.

Por isso, sempre tentamos respeitar o limite dos nossos corpos, buscamos fazer o possível e impossível para manter o casal e os corpos individuais saudáveis. Se um não estiver saudável, o relacionamento não anda.  

E isso é o que faz com que os meus gatos se tornem os dele. Os gatos dele se tornam os meus. Os meus sonhos se tornam os sonhos dele. A torcida mútua para subir o degrau da vida. As conquistas dele me fazem feliz, vice-versa. Um dia de terapia feito é um dia de vitória.  Um dia de remédio tomado, um dia feliz. 

Isso é amor, na minha opinião. 

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Oi, eu sou o Goku. Mentira, meu nome é Lara. Sou jornalista e publicitária formada pela UFRN, natural de Natal. Sempre fui de humanas. Tem um blog para expor as suas curiosidades e anseios desta vida e mostrar os diferentes lados da vida urbana.
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