Brechando em SP

Ará saiu de Natal, descobriu HIV em SP e hoje alerta jovens a partir da arte

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São Paulo tem amor e Ará Silva pode responder isso. O jornalista é natural de Natal. Inicialmente, ele entrou na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) pensando em cursar biologia. Depois, mudou para jornalismo. Por lá, brincou de ser repórter, estudou, participou de pesquisa e começou a trabalhar com marketing, tinha ido para SP e voltou para Natal para realizar mestrado. Mas, ele conseguiu uma bolsa. Como resultado, o Ará se mudou novamente para a terra da garoa, mas os planos de ser um profissional do marketing mudaram por algo que eu definiria como uma missão. 

Achava que ser homossexual no Nordeste já foi algo difícil. Viver na maior cidade do país também. Mas, um dia passando férias com amigos, ele percebeu estar com gânglios inchados demasiadamente. Podia ser amigdalite? Podia! Nunca imaginou que poderia ser uma Infecção Sexualmente Transmissível (IST) e muito menos que tivesse o HIV. Fazia exames regularmente, mas após o relaxamento de dois anos. 

“Fui na UBS (Unidade Básica de Saúde) perto da minha casa, fiz o exame de sangue e a enfermeira foi falar o resultado. Podia ter ficado triste, mas estava tão calma e pedi o que deveria fazer para tratar”, disse o meu colega de profissão, que conheci na UFRN. Foi por causa deste papel que nasceu o Ará. Sabe aquele brinquedo do Power Rangers que apertando o botão a cabeça com o mocinho mudava para a cabeça de um Ranger? Foi assim que pensei que imaginei a transformação do entrevistado enquanto conversava. 

 

No ano passado, o Ará Silva participou de uma série chamada “Deu Positivo”, no qual ele está no segundo episódio e conta toda a sua trajetória. Para assistir é clicar neste link aqui.

No Brasil, 694 mil pessoas estão em tratamento contra o HIV. Apenas neste ano, 45 mil novos pacientes iniciaram a chamada terapia antirretroviral. De acordo com o Ministério da Saúde, os números representam cobertura de 81% das pessoas diagnosticadas com HIV no país. Do total de pacientes em tratamento, 95% já não transmitem o vírus por via sexual por terem atingido carga viral suprimida. Os números foram divulgados pela pasta nesta quarta-feira (1º), Dia Mundial de Luta contra a Aids.

Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação, divulgados pelo Boletim Epidemiológico de HIV/Aids de 2021, mostram que, no ano passado, foram notificados 29.917 casos de aids no Brasil contra 37.731 em 2019 – uma queda de 20,7%.

Ará falava desta jornada, difícil para muita gente, em luta e sempre com um sorriso no rosto. Lembra até a data da sua descoberta, 2 de fevereiro de 2018, dia de Nossa Senhora dos Navegantes, de Yemanjá, que protege as águas e os rios. Tanto que ele tatuou a orixá bem gigante no seu antebraço para lembrar deste momento que virou um ativista. Além disso, ele viu que quase 40 anos, ter um vírus que destrói a sua imunidade, caso não tenha tratamento, ainda é visto como tabu. 

“Ainda existe um imaginário social sobre a Aids que ainda é muito doentio, verdade. Nas oficinas que faço em São Paulo, sempre pergunto o que eles pensam sobre a doença? A maioria das pessoas pensa que é a morte ou um câncer, inclusive lembram de Cazuza, principalmente aquela capa horrível da revista Veja”, lamentou e recomenda quem tem uma vida agitada sexualmente ou usa drogas (viciado ou recreativamente), independente ser LGBT ou não fazer os exames.

O seu objetivo de vida era, portanto, mostrar não ser mais hipócrita e mostrar que a doença é real e qualquer um pode pegar. “Neste tempo conheci várias pessoas que tem, inclusive pessoas que nasceram com a doença e vivem naturalmente, inclusive conseguiram ter filhos”, enfatizou o tempo todo durante a entrevista que com o tratamento correto as pessoas podem ter o vírus incubado do nível que não consiga transmitir para outras. Assim, você pode ter relações sexuais sem preservativo e ser totalmente saudável. 

Quando falo que a AIDS/HIV  virou a sua luta, ele deixou o jornalismo de lado e resolveu ser artista e ativista, onde ele fornecerá a informação ao público LGBTQIA+ e também as classes marginalizadas, onde tem pouca informação sobre o uso do preservativo e de como se cuidar. 

Apesar do Sistema Único de Saúde (SUS) fornecer o medicamento gratuitamente, foi conversando com essas pessoas que viu que como as políticas públicas ainda são poucas, visto que famílias não conversavam sobre sexo, muitas meninas desde jovens já eram vítimas de abusos, as escolas contavam superficialmente… E, por fim, as pessoas ainda pensavam que não existia mais vida após a contaminação. 

“As pessoas não falam que quando o portador de HIV está com AIDS quer dizer que ele tem uma quantidade de vírus muito grande podendo gerar a síndrome e consequentemente ter outras doenças devido à falta de imunidade. Mas, a medicina moderna, permite a diminuição desses vírus, mesmo que ainda não tenha a cura. Por isso, a medicina fala portador de HIV e não com AIDS, pois ela é um momento.”.  Este site explica melhor o que Ará quis dizer na frase

“Eu peguei todas as informações todos os encaminhamentos todos os papeis e segui minha vida. Mas claro que lembrei de coisas que eu via na infância, né? De que a gay morre de AIDS, né? Isso eu ouvia quando eu era criança. Né? Exatamente. E aí parece que você está assinando um atestado de morte assim. Era dia de Iemanjá, longe da minha cidade e não tinha o mar para abraçar. Mas, ela estava ali me protegendo.”.

Ará sabia que não tinha obrigação de contar a sua nova realidade para as pessoas. Mesmo assim, ele estava pronto para enfrentar o preconceito. Explicou-me com um sorriso no rosto que aquilo era uma nova saída do armário, em que para quebrá-lo foi bem mais complicado. Com medo ou não, ele resolveu encarar a ideia de contar aos pais. 

“Contei ao meu pai somente depois que estava em tratamento, o vírus indetectável e criado o coletivo de artistas. Ele me deu um abraço e disse que ficou feliz pelo fato de confiar nele para desabafar. O amparo dos meus pais foi maravilho, me quebrei por inteira e acreditava que seria um caos”, comemorou.

Ará Araújo sabe do caos e já viu várias vezes pessoas se afastarem por conta do HIV, acreditando que uma simples cutucada está assim. “Tenho amigos aqui que já relataram que que vivem com HIV e a recepção dos pais e amigos foram totalmente contrárias”, disse.

Sem contar que já sofreu preconceitos de ficantes, inclusive levando fora após uma relação sexual. “Lara, você sabia que um portador de HIV tem o direito de preservar a sua identidade? Se eu estou em tratamento, não tenho a obrigação de falar que sou infectado, o que faço e quem me ‘dedurar’ pode até ser preso. As pessoas não podem falar como devo curtir a vida, mas tenho a obrigação de me cuidar e curtir a vida. Sei que este vírus tem o fim, que será quando morrer. Então, eu tenho que aproveitar o máximo”, enfatizou. 

Sobre a lei, ele está referindo a Lei nº 14.289, que obriga o sigilo sobre a condição de pessoas infectadas pelo vírus HIV e hepatites crônicas. A medida também abrange pessoas com hanseníase ou tuberculose. O sigilo é obrigatório no âmbito dos serviços de saúde, estabelecimentos de ensino, locais de trabalho, administração pública, segurança pública, processos judiciais e mídias escrita e audiovisual., que você pode saber mais detalhes aqui.

 

Ará com um amigo de Natal e São Paulo no ano de 2019 resolveu criar um coletivo para criar oficinas e apresentações teatrais para mostrar que as pessoas com HIV podem ter prazer na vida, realizar um sexo gostoso e ter o direito ao SUS de ter um tratamento digno. 

Segundo o artista, surgiu a partir de um desejo de mostrar o que era o HIV a partir de exemplos. Até fez uma analogia para explicar a sua análise de como as pessoas supõem que tem o vírus. “Um dos nossos trabalhos era ‘Pode entrar o cachorro está preso’, porque parecíamos aquelas donas de casa que tinha cachorro e quando tinha visita prendia o cachorro, pois o visitante ficava com medo. E é assim na realidade. Aonde eu vou, sempre tem alguém com medo de dialogar ou se relacionar julgando que pegará a qualquer momento (o vírus).”.

A peça e oficinas acontecem em vários lugares de SP, mas o seu foco é a região periférica, em que ele viu serem os lugares com mais infecções dos mais variados tipos e sem contar que percebeu a doença é mais que uma questão social do que de saúde. 

 “Assim como a AIDS, quando foi descoberta, a Covid ela nos revela serem as pessoas LGBTs, pretas, indígenas e outras minorias que mais sofrem. Toda a pandemia mostra que essas pessoas são as mais atingidas pelos mais diversos fatores, falta de informação, acesso ao básico de saúde (como medicamentos e vacina) e ações artísticas e culturais para explicar”, finalizou. 

O que acontece se descumprir a Lei

 

O descumprimento da lei sujeita o agente público ou privado infrator às sanções previstas no artigo 52 da Lei nº 13.709/2018, a chamada Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), bem como às demais sanções administrativas, e obriga-o a indenizar a vítima por danos materiais e morais.

As penas previstas na LGPD, assim como as indenizações, serão aplicadas em dobro quando a divulgação da informação sobre a condição da pessoa for praticada por agentes que, por força da sua profissão ou cargo, estão obrigados à preservação do sigilo ou quando ficar caracterizada como intencional e com o intuito de causar dano ou ofensa.

Entre as punições previstas na LGPD estão: multas de até 2% do faturamento da empresa no Brasil em seu último exercício, limitada a R$ 50 milhões, multas diárias, bloqueio de dados pessoais a que se refere a infração e eliminação dos dados pessoais.