Uma pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em parceria com a UESC, descobriu que espécies da família Myrtaceae. Essa família inclui frutos como a pitanga, araçá e cambuí. Os estudioses descobriram que as mesmas tem algo em comum: as mesmas escondem uma estratégia evolutiva sofisticada. Como resultado, as sementes desses frutos ficam prontas para germinar bem antes de a casca mudar de cor. Ou a polpa amadurecer. Este fenômeno se chama de “atraso visual”.
Antes de falar do estudo do Programa de Pós-Graduação em Ecologia, a universidade parceira é também conhecida pelo nome de Universidade Estadual de Santa Cruz.. Além disso, a mesma fica em Ilhéus, na Bahia.
O estudo, em publicação na revista Oikos, teve a coordenação por Hercília Freitas da Cunha, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ecologia da UFRN, sob o apoio da professora Vanessa Graziele Staggemeier.
A pesquisa
A equipe coletou frutos em oito áreas de restinga e floresta de tabuleiro do Rio Grande do Norte entre 2022 e 2023.
O resultado mais curioso ficou por conta dos testes com frutos artificiais de massa de modelar, usados para observar o comportamento de aves e outros animais dispersores (leia no final da matéria que explicamos passo a passo da pesquisa).
Perceberam, portanto, que copas (parte superior e ramificada da planta, composta por galhos, folhas, flores e frutos) com três cores diferentes ao mesmo tempo, verde, amarelo e vermelho, atraíram mais visitas do que copas com apenas duas cores. A explicação é que o contraste visual facilita a localização dos frutos pelos animais, enquanto o vermelho segue sendo o preferido, sinal de mais nutrientes disponíveis.
A descoberta também tem aplicação prática: como as sementes já são viáveis antes da maturação completa, projetos de restauração da Mata Atlântica podem colher frutos mais cedo, reduzindo tempo e custo na produção de mudas.
Como acontece esta antecipação de forma detalhada
Os cientistas realizaram um experimento na vegetação natural da Escola Agrícola de Jundiaí utilizando 60 arbustos. Em cada planta, distribuíram 51 frutos artificiais feitos de massa de modelar atóxica. O experimento simulou copas unicolores, com frutos verdes e vermelhos, e copas multicoloridas, compostas por frutos verdes, amarelos e vermelhos. Após 72 horas de exposição, a equipe registrou as marcas de bicadas e a remoção dos frutos artificiais.
Os resultados mostraram que os frutos vermelhos foram removidos com maior frequência em ambos os tratamentos. Assim, discordou da hipótese da recompensa, segundo a qual a coloração final do fruto sinaliza maior disponibilidade de nutrientes.
A planta “adianta” o desenvolvimento da semente para aumentar as chances de dispersão, mesmo que o animal coma o fruto ainda verde. O que costuma acontecer em épocas de escassez de comida na floresta. Quase todas as espécies testadas tiveram cerca de 77% de germinação mesmo nas fases iniciais. Com exceção do cambuí, que só germina bem quando o fruto fica preto (maduro).
Os frutos de massinha
Num experimento com frutos artificiais de massa de modelar, os pesquisadores viram que aves e outros dispersores preferem os frutos vermelhos (mais maduros, mais nutritivos) e que copas com três cores diferentes ao mesmo tempo (verde, amarelo, vermelho) atraem mais visitas do que copas com só duas cores. Ou seja, a variação de cores na copa funciona como um chamativo visual que facilita a localização dos frutos.
E o que fazer com o resultado?
Os resultados da pesquisa oferecem subsídios importantes para projetos de restauração da Mata Atlântica. A constatação de que sementes viáveis podem ser obtidas de frutos que ainda estão em processo de mudança de cor permite otimizar o calendário de coleta em campo.
Essa antecipação possibilita reduzir o tempo e os custos associados à colheita, além de ampliar a disponibilidade de material propagativo para a produção de mudas destinadas à recuperação de áreas degradadas.


