Véspera de Corpus Christi, quarta-feira. Eu estava saindo da minha aula de pole dance com menos de uma hora e meia para me arrumar e já pensando em como ia ser a noite. Roupa de xadrez, camiseta de banda, saia, o visual mais matuto que uma roqueira consegue montar sem abrir mão de si mesma. Maquiagem normal, namorado buscado no Midway, e lá fomos nós.
Mas antes de chegar, já tinha um sinal do que estava por vir: uma fila gigante enrolando o SESC de Potilândia. Comentei comigo mesma que aquilo ia longe. E ia mesmo. A fila começava no Centro Comunitário, aquele espaço que por muito tempo foi local de votação e hoje abriga jiu-jitsu, cursos e atividades comunitárias, e se estendia até quase a passarela que liga ao entorno da Arena das Dunas.
Estacionei o carro na casa da minha avó, que fica a uns 500 metros do evento, e fui a pé. E olha: parecia que Natal inteiro tinha decidido aparecer naquela noite. Além disso, todo mundo com roupa de festa junina, orgulho bem alto, disposto a encarar a fila carregando um quilo de alimento não perecível, a entrada solidária para o Projeto Mesa Brasil do SESC.
Fila gigante no Ahayá de Rua
Esperamos a fila aliviar um pouco e, quando entramos, era um mar de gente. Gente em todo lugar. Vi pessoas da minha escola, da faculdade, gente que eu não via há tempos. O Ahayá de Rua não é, portanto, mais só para quem vive no circuito alternativo. Ele está reunindo quem vive em show de forró, quem vive no escritório, quem mora em Petrópolis. Está virando algo maior.
Uma ressalva de produção que tenho que fazer: só havia uma entrada e uma saída de emergência. Potilândia tem várias ruazinhas que dariam acesso ao espaço, mas uma foi fechada para os banheiros e outra era exclusiva para entrada. Entendo a lógica de segurança, mas se tivesse dado algum problema, a situação poderia ter ficado complicada. Fica o ponto para a próxima edição.
Mas isso não tirou o brilho da noite. Me instalei do lado esquerdo do palco, que era o mais folgado, perto dos bares. Bebi água, coquinha, dancei forró, sim, roqueira também dança, e me peguei lembrando daquelas músicas que aparecem em festa de família e você sabe todas as letras sem nunca ter admitido isso pra ninguém. Vinha galera fazendo quadrilha improvisada. E entre uma música e outra, o cenário do comércio informal me encantou do seu jeito particular: tinha cigarro gudão, tadalafil, cigarro sabor cola, energético. A vida real, sem filtro.
Sobre a parte musical do Ahayá de Rua
Os shows foram ótimos. A Deusa do Forró me surpreendeu, o que ela mostra na TV é muito menos do que entrega no palco. Depois veio Rafael Dumaresc discotecando forró dos anos 2000, aquele que a geração millennial escutou muito na época áurea da Fiem FM. A transição foi perfeita, como uma ponte entre um show e outro.
Lá pela uma da manhã, minha bateria social esgotou. Tentamos comer fora: Gil Laches lotado, Pittsburg da Prudente lotada, e trailers da Praça Cívica lotados. A cidade estava acordada. Acabamos no iFood, mas sem arrependimento nenhum.
Um Mada junino?
O Ahayá de Rua está se tornando o Mada versão junina. Não é mais um evento de nicho, é um festival que está crescendo e abraçando Natal inteira. E Potilândia, que muita gente ainda chama erroneamente de bairro, sendo que é um conjunto habitacional dentro de Lagoa Nova, embora eu defenda que deveria ser desmembrado e virar bairro de vez, merece cada segundo desse holofote. A vizinhança é unida, todo mundo se conhece, e ninguém tentou sabotar o evento. É uma festa legítima, nascida de um lugar legítimo.
Espero que venham mais leis de incentivo à cultura, palcos maiores e que o evento tome Potilândia inteira. Porque ela merece.


