O que você faz quando está doente? Descansa, procura o melhor tratamento médico e repousa, ou resgata uns filhotes de gato presos dentro do capô do carro. Essa segunda-feira (27) a minha principal atividade. Acordei em crise de gastrite, com náuseas que não davam trégua. Não consegui trabalhar nem dar conta dos afazeres de casa, pole dance e mestrado.
Passei o dia inteiro sem vontade de comer, tentando engolir o mínimo possível para não desmaiar, e sem conseguir beber nada líquido. A vida era dividida entre misto quente, suco integral e água. No fim da tarde o enjoo voltou e tomei um remédio para aliviar. O famoso Dramin, achei que iria dormir.
Eu estava me deitando, pronta para o chochilo, olhinhos fechados, quando alguém bateu no portão. “Você é a dona de um carro branco? Uma gata entrou no capô e está tendo filhote.”. Abri os olhos e peguei a primeira roupa apresentável para ficar na calçada e ver a vizinhança toda em volta do meu carro.
Nos fins de semana é assim: eu paro em frente à casa do namorado, porque não tem garagem e todo mundo sabe qual é o meu carro. Foi no carango, em questão, que virou palco do parto. Ou, podemos afirmar, a maternidade. Todo mundo queria saber quantos filhotes a gata teria, como tirar os gatinhos de lá e se eles sobreviveriam. Ninguém era veterinário e só tinhamos um celular, Google e Chat GPT para orientar. Depois, veio nosso amigo Daniel, veterinário do bairro, que ajudou bastante quando resgatei a minha gata Lulu.
O parto
Arrependimento: deveria ter filmado porque outros veículos poderiam me ajudar a procurar a mãe dos gatos filhotes. Mas, tínhamos ligado aos bombeiros para ajudar no parto, mas só chegaram após o fim do ato.
Entre um “meu Deus, será que ela já pariu” e outro “como é que a gente tira ela daí”, fui pensando em mil formas de resolver aquilo. A primeira ideia foi abrir o carro e o capô para localizar a gata. Com a lanterna do celular, encontramos a frajolinha escondida no que os mecânicos chamam de papo de fogo, a peça entre o motor e a roda. Faz sentido: gata parindo procura lugar escondido e quentinho.
Primeira vez que vi um gato parindo diante dos meus olhos
Enquanto ela ficava ali, tranquila, os filhotes começavam a descer pela roda do carro. Foi desespero puro. Tínhamos medo de que caíssem e batessem a cabeça no asfalto. Então, a cada gatinho que aparecia era uma corrida com toalhas para pegá-lo e colocar em caixas de papelão e cestos improvisados. A pergunta se repetia a cada minuto: qual é o próximo gato? A gente não sabia quantos ainda viriam, nem se a mãe aceitaria cuidar deles, nem se ela ficaria ali dentro do carro amamentando.
No meio disso tudo, eu só pensava no carro. Será que ainda vai funcionar? Estragou alguma peça? A placenta ficou debaixo da roda, primeiramente. Antes preciso dizer que meu carro já viveu bastante coisa nos últimos seis meses: bateu três vezes, sempre por culpa minha, prejuízos estratosféricos e sempre com medo da Serasa de mandar aquela cartinha carinhosa. Sem contar que já perdeu o limpador de para-brisa no meio de uma chuva forte, esquentou o motor dias antes de uma viagem grande e já rodou na reserva mais vezes do que deveria. Mas virar palco de maternidade felina (seria cosplay de Januário Cicco?), foi inédito.
Nasceram saudáveis
Depois de uns 40 minutos, os quatro filhotes finalmente estavam todos fora, aparentemente saudáveis. A mãe, porém, não aceitou bem a intervenção. Na hora de tirá-la de lá, o resgate quase virou parto a fórceps e ela saiu correndo, refugiando-se no portão do lixo hospitalar da UBS ali perto. Ficou horas por lá. Depois voltou, ficou rondando em frente à casa onde estavam os filhotes, meio que sinalizando que queria amamentá-los, mas toda vez que a gente se aproximava com a caixa, ela fugia de novo. Só conseguiu levar um para seu refúgio, enquanto os outros três ficaram numa caixa na calçada.
Sem opção, levamos os filhotes para dentro de casa. Estava chovendo em Natal, fazia frio, e o risco de hipotermia era real demais para arriscar. Agora estão aqui comigo. Compramos fórmula para felinos e fazendo o possível para que sobrevivam. O que vem depois, ninguém sabe ainda, mas os próximos capítulos a gente conta por aqui.


