Vinte anos depois, o Ratos de Porão voltou para Natal e eu ainda estou tentando processar esse show

Lara Paiva
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Show aconteceu no Galpão 292, no mesmo lugar da tentativa de show há 20 anos (Foto: Rafael Pandeiro)

Existe um tipo específico de catarse que só acontece em show de banda punk. Não é apenas sobre música alta, roda de poga ou gente se jogando do palco. É aquela sensação de que você participou de alguma coisa histórica, mesmo sem perceber direito enquanto ela acontece. E foi exatamente assim que saí do show da banda Ratos de Porão neste domingo (17), em Natal, mais precisamente no bairro da Ribeira.

Motivo deste delírio coletivo? Porque não era “só” um show. Era apenas o retorno do Ratos de Porão à cidade após 20 anos.

Se você começa a frequentar a cena underground de Natal, inevitavelmente escuta essa história em algum momento. Sempre tem alguém mais velho que fala: “Ratos nunca mais volta para Natal por causa do episódio do Blackout”. E eu sempre perguntava o que tinha acontecido exatamente.

As versões variam dependendo de quem conta. Uns dizem que houve uma queda de energia na segunda ou terceira música e João Gordo ficou completamente puto. Outros juram que alguém jogou um tênis ou até cinto de rebite no poste da rede elétrica da Ribeira. Tem quem diga que foi sabotagem, tem quem diga que foi só o sistema elétrico da região fazendo o que ele sempre fez de melhor: colapsar.

O fato é que, desde então, criou-se uma espécie de lenda urbana local. O consenso era simples: o Ratos de Porão nunca mais pisaria em Natal.

Até agora…

E existe algo poeticamente caótico no fato de que o reencontro aconteceu exatamente no mesmo lugar, hoje chamado Galpão 292, antigo Blackout. Inclusive, eu ainda não me acostumei com o fato de terem colocado um “292” no nome. Para mim, emocionalmente, continua sendo só Galpão 29.

Bastou olhar a rua para entender o tamanho daquilo. Carro espalhado por todo lado, gente chegando sem parar, grupos se acumulando na entrada e aquele clima clássico de “vai dar merda” que, curiosamente, sempre antecede os melhores shows punk. Embora que todos rezaram que os postes da Ribeira para ficassem bem acesos e a energia elétrica fluindo para que nada de ruins acontecesse.

Pouco depois ouvi o burburinho de que os ingressos haviam esgotado. Tinha gente, praticamente, implorando por entrada na porta. Mesmo assim, o fluxo de pessoas entrando no galpão não diminuía.

A noite ainda tinha várias bandas de abertura, incluindo os potiguares da Expose Your Hate, mas era impossível ignorar que todo mundo estava ali esperando por uma única coisa.

Quando terminou a banda anterior ao Ratos, resolvi finalmente entrar e escolher meu lugar estratégico: perto o suficiente do palco para sentir a pancada do show, mas longe o bastante para não ser completamente engolida pela roda de poga e pelo mosh.

Funcionou por aproximadamente alguns minutos

A passagem de som foi absurdamente rápida para uma banda daquele tamanho. Em menos de 40 minutos, as luzes diminuíram e o caos começou.

O mais curioso sobre assistir ao grupo Ratos de Porão ao vivo é perceber que você não precisa necessariamente ouvir a banda todos os dias para saber exatamente o que fazer ali dentro. O corpo entende sozinho. Todo mundo canta junto, mesmo quando não lembra a letra inteira. Todo mundo se empurra, se abraça, cai, levanta e continua. Pessoas subiam no palco o tempo inteiro. Outras gritavam coisas carinhosíssimas para João Gordo enquanto xingavam figuras políticas aleatórias no meio da multidão. Um ambiente absolutamente previsível para qualquer show punk de esquerda e exatamente por isso tão bonito de assistir.

E João Gordo, sinceramente? Impressionante

Mesmo aos 62 anos e depois de tantos problemas de saúde, ele parecia incansável. O show inteiro teve uma intensidade absurda. Não existia sensação de nostalgia automática ou banda vivendo de passado. Era pesado, rápido, agressivo e vivo.

Foram cerca de uma hora e meia de apresentação que passaram com a velocidade emocional de meia hora. Quando acabou, a sensação coletiva era muito clara: ninguém queria ir embora ainda.

Só que Natal aparentemente decidiu encerrar a noite de maneira dramática e mandou um toró gigantesco assim que o show terminou.

E foi debaixo dessa chuva completamente desgraçada que eu consegui realizar meu último objetivo da noite: fazer João Gordo autografar meu exemplar de “Consciência do Gordo”.

O livro mistura memórias da carreira, política, reflexões e histórias absurdas envolvendo a trajetória dele, inclusive um trecho sobre o fatídico episódio de Natal que virou lenda dentro da cena local. “Que massa, você tem esse livro. Não tem mais o exemplar, acho que tenho um lá em casa”, disse marrento e feliz o vocalista.

Fiquei brincando dizendo que ele formou meu caráter com o programa Gordo Freak Show

Pedi educadamente a foto e deu certo. Levei chuva. Fiquei ensopada. Passei perrengue.

E talvez a coisa mais inesperada da noite tenha sido justamente essa: apesar da fama de marrento, João Gordo parou para atender todo mundo que estava ensopado, porém doido para voltar para São Paulo

Vinte anos depois, o Ratos de Porão finalmente voltou para Natal.

E honestamente? Acho que ninguém que estava naquele galpão vai esquecer disso tão cedo.

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Oi, eu sou o Goku. Mentira, meu nome é Lara. Sou jornalista e publicitária formada pela UFRN, natural de Natal. Sempre fui de humanas. Tem um blog para expor as suas curiosidades e anseios desta vida e mostrar os diferentes lados da vida urbana.
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