Uma das coisas que podemos dizer é que o Brechando zerou ao conseguir entrevistar personalidades da internet. Principalmente quando youtubers são mais flexíveis, além de muito mais acessíveis, e dão aulas tanto para a sua vida profissional quanto acadêmica. Foi uma aula de governamentalidade e necropolítica em menos de 15 minutos.
Foi assim o bate-papo com Rita von Hunty no Festival Aurora. Inclusive, neste pouco tempo, houve referências que vão de Marx a pesquisadoras da USP, passando por Viktor Orbán e bares palestinos em São Paulo, Rita não deixa ninguém sair da conversa do mesmo jeito que entrou.
“A gente está enfrentando um levante conservador como poucas vezes vimos na história do Brasil. Nesses momentos, todas as pautas sensíveis são atacadas, das pessoas com deficiência, às do espectro autista, passando pela pauta de gênero, que tem sido central”, enfatizou a drag queen em conversa com as repórteres presentes.
Antes de realizar o bate-papo com os natalenses na Casa da Ribeira, em uma das atrações do Festival Aurora, ela parou para bater um papo sobre política, corpos e o que significa ser uma drag queen intelectual num país que mata quem é LGBT.
Surgimento da Rita von Hunty
Rita von Hunty é a drag de Guilherme Terreri Lima Pereira, com graduação em Artes Cênicas pela Unirio e Letras na USP. Seus primeiros passos como artista foram como ator. Porém, após a mãe ter ficado doente, no ano de 2011, o ator teve que se mudar para São Paulo. Em 2012, após a morte de sua mãe resolveu ficar em São Paulo para se dedicar ao teatro. Além disso, o nascimento da Rita veio apenas no ano seguinte.
A ideia de Rita vem quebrar estereótipos sobre drag queens, como ser uma caricatura do feminino ou superficial. Primeiramente, seu nome advém de Rita Hayworth, famosa atriz americana dos anos 40. “Hunty” é uma gíria da comunidade drag para demonstrar afeição ou carinho, e “von” remete à realeza.
“Eu me divirto. E eu apanho dos dois lados (risos). Mas (a mensagem) surte efeito, menina. E eu me preocupo mais com o efeito prático do que com a crítica”, enfatizou ao declarar sobre a recepção da cena drag e dos intelectuais acadêmicos.
A entrevista
O mais interessante é que este papo foi totalmente feminino, visto que houve a presença de minha pessoa (mulher cis e neurodivergente) e uma mulher LGBTQIAP+ representando a equipe do Saiba Mais, a Gil Araújo. É importante falar neste parágrafo, uma vez que as redações de jornais ainda estão 100% masculinizadas e ignoram estas pautas, principalmente na grande mídia.
Confira o bate-papo completo a seguir:
Recentemente rolou uma polêmica com uma fala LGBTfóbica de Paulo Galo (motoqueiro e militante a favor dos trabalhadores por aplicativo), sugerindo que a esquerda deveria repensar suas prioridades. Você acha que esse tipo de coisa atrapalha a unidade da esquerda num momento em que o neofascismo está cada vez mais forte?
Olha, não é uma pergunta simples e ela está bem longe de poder ser respondida em um tweet. O que gosto de pensar a respeito disso é o seguinte: o poder sempre está em aliança. Desunidas somos nós. Os interesses da classe dominante sempre unem a classe dominante de forma quase inequívoca, quase uníssona. Raras são às vezes em que a gente vê setores da classe dominante brigando. Mesmo assim, quando brigam, esses conflitos são rapidamente costurados em novas alianças. É o que a gente vai ver acontecer no primeiro turno das eleições, com frentes bolsonaristas se arrumando.
O que acontece quando o motoentregador mais famoso da luta social produz esse tipo de fala? Para mim, a resposta está em trocar as personagens. Imagina se o Galo tivesse dito: “Agora tenho que me preocupar com preto? O preto que se foda.” .
A gente acharia inconcebível. Imagina ele dizendo: “Eu tenho que me preocupar com mulher? Cada um luta a sua.”. Essa noção de “cada um luta a sua” é exatamente o que tornou as nossas lutas impossíveis de serem lutadas historicamente. Porque o que as compõe é uma raiz comum: antiopressão, antiexploração. Opressão e exploração nunca se dissociam. Entender que dá para combater essas coisas em separado é não ter entendido nada.
E olha, eu fiquei pega de surpresa, porque já fiz eventos com o Gallo, já fiz live, e eu lembro de um evento no Al Janiah, um restaurante palestino lá em São Paulo, no qual a fala dele estava centrada em como toda luta sempre esbarra no controle dos corpos. Então isso me pega de surpresa, porque não é como se ele não soubesse o que estava falando. Muito pelo contrário.
Restaria a gente poder sentar com ele e entender: “Bicha, você estava doidona? O que houve?”. Porque a linha de raciocínio é muito antitética ao que ele produziu até ali.

E você acha que isso pode alimentar ainda mais o crescimento do neofascismo?
Não sei. Considero que essa é uma visão reacionária, conservadora, sendo emitida por uma pessoa da classe trabalhadora que não deveria emiti-la, considerando seu grau de influência e letramento. Talvez aquela persona pública que ele encarna no podcast tenha ido longe demais, se distanciado do que era para ter sido dito.
Agora, alimentando o fascismo, de verdade, estão as condições precárias de vida da classe trabalhadora, as máquinas de propaganda massiva, as igrejas. Não é como se essa fala auxiliasse os oprimidos da sociedade brasileira. Mas, ela sozinha não é o motor do fascismo.
A gente avançou muito em termos de visibilidade LGBT, mas o Brasil ainda é o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo. Como você vê a importância dos corpos LGBT nesse debate político?
Sempre haverá esse confronto. A gente está lutando contra o patriarcado desde antes de Cristo, desde o primeiro patriarca que conseguimos rastrear na história. Estamos lutando contra o sistema racial desde a fase de acumulação primitiva do capital. E a LGBTfobia tem raiz no patriarcado — não é uma luta separada, nunca foi.
Tem uma pesquisadora na USP, amiga minha, a Marília Moscovitch, professora do departamento de sociologia. Ela tem um texto publicado na Boitempo em que diz uma frase muito potente:
“Nós, pretas, nós, mulheres, nós, travestis, nós, viadões, nós, sapatonas… Nós não somos parte da classe trabalhadora. Nós somos a classe trabalhadora.”.
Rita von Hunty mencionando Marília Mosocovitch na entrevista
Porque parece que existe uma imaginação de que a classe trabalhadora não tem corpo, não tem cu, não tem pau, não tem desejo. Aí basta ir a uma rodoviária, olhar os banheiros e descobrir se a classe trabalhadora tem ou não sexualidade. Ou então pegar dados estatísticos: todo o setor de telemarketing no Brasil, um dos que apresentam mais precariedade, com altíssima superexploração da força de trabalho é majoritariamente por pessoas LGBT.
Há uma série de pesquisas no mundo que descobriram como o discurso antigênero é a cola da extrema-direita. O que faz com que Viktor Orbán e Donald Trump estejam irmanados é exatamente esse ponto: a pauta antigênero é a que eles defenderão com mais fervorosidade.
Quando a gente pega a história, “ideologia de gênero”, “generismo”, “teoria queer”… Tudo isso começou a ser atacado pelo Vaticano nos anos 90. A gente está há quase meio século combatendo esse levante conservador.
Esse discurso é uma forma de angariar juventudes masculinas ressentidas e transformar esse ressentimento em afeto político. É uma fala para homens que sonham em ter algum poder — e que acreditam que, se se aliarem com outros homens, ao menos terão poder sobre mulheres e viados.

É um discurso sedutor para os dominados que sonham em se tornar dominadores. O mais urgente é que a gente consiga uma educação pública que pautue as questões de gênero.


