O cantor, compositor e escritor Nando Reis abriu, na manhã desta quinta-feira (16), na sala de cinema do Cinemark, a programação do Ação Leitura. O bate-papo contou com a condução do escritor e publicitário Carlos Fialho. Este é criador do selo Escribas, idealizador do programa. A conversa reuniu literatura, música e reflexões sobre criação artística, memória e transformação pessoal. Além disso, o membro-fundador do Titãs compartilhou a sua formação como leitor, contou histórias por trás de algumas de suas canções mais conhecidas e defendeu a leitura como uma das experiências mais importantes como profissional.
Antes de aprofundar sobre bate-papo, vamos falar da atividade. O Programa Ação Leitura nasceu há mais de uma década. Sua proposta, primeiramente, é formar novos leitores. Em segundo lugar, pretende aproximar escritores e artistas do público por meio de encontros literários. Idealizador da iniciativa, Carlos Fialho explica que o objetivo é despertar o interesse pela leitura de forma prazerosa, aproximando leitores de autores convidados a partir de uma curadoria cuidadosa.
“A gente promove esse evento de aproximação do público leitor com escritores interessantes”, resume o escritor Carlos Fialho.
Antes do bate-papo, coletiva com a imprensa
Antes da palestra do Ação Leitura, Nando Reis concedeu inicialmente uma coletiva de imprensa. O artista comentou que participar de um evento voltado à literatura lhe permite abordar um aspecto pouco conhecido de sua trajetória. Para ele, a literatura sempre ocupou um papel central em sua formação artística. “Eu não sou escritor, sou um compositor com palavras.”, enfatizou o músico, que já lançou um livro chamado “Pré-Sal“.
Embora tenha publicado uma obra literária, o compositor já é exemplo para literatura brasileira, inclusive transformando questão de prova de concurso público. Com bom humor, lembrou que uma de suas canções foi utilizada em uma prova de Língua Portuguesa e um candidato entrou em contato para questionar uma resposta e isto viralizou na internet.
“Tinham sete ou seis questões sobre ela e uma vez um dos candidatos escreveu dizendo que ele tinha feito uma resposta que foi considerada errada. Daí eu fui ver a resposta, a formulação da pergunta estava errada, e eu respondi isso e fui anular a questão. Eu achei muito engraçado”, recordou.
Questionado na coletiva sobre qual obra indicaria para acompanhar alguém por toda a vida, respondeu sem hesitar: “Os Miseráveis”, de Victor Hugo.
A descoberta da leitura
O começo do bate-papo, Nando Reis contou que sua relação com os livros começou ainda na infância, acompanhando o período escolar. Apesar de ser “cancelado” nos dias de hoje por conta da sua postura racista, as histórias de Monteiro Lobato, especialmente as Reinações de Narizinho, despertaram o interesse de Nando pela literatura. Posteriormente, veio os quadrinhos de Tintim e pelas adaptações de clássicos publicadas pela Abril Cultural.
Segundo ele, aqueles primeiros livros abriram caminho para leituras mais complexas e contribuíram decisivamente para sua formação. “A leitura foi fundamental na minha compreensão do mundo e no desenvolvimento dos meus códigos estéticos”, afirmou.
O compositor lembrou que, nas décadas de 1960 e 1970, o hábito da leitura era muito mais presente no cotidiano das famílias, visto que reconheceu esta perda devido ao uso exagerado do celular.
“O grande responsável por eu perder esse hábito foi o celular. A leitura exige envolvimento, e o celular rouba esse envolvimento”, confessou. Recentemente, disse ter retomado o prazer de ler, dedicando-se novamente aos grandes clássicos da literatura.
Quando literatura e música se encontram
Durante a conversa, Nando destacou que sempre enxergou uma ligação profunda entre literatura e música. Citou Caetano Veloso e Gilberto Gil como referências pela maneira como utilizam a palavra para transformar experiências pessoais em obras universais.
Ao falar sobre composição, desmistificou a ideia de inspiração como algo mágico. Para ele, escrever canções é um trabalho que exige disciplina, persistência e convivência permanente com a dúvida.
Depois de mais de quatro décadas de carreira, revelou que, mesmo assim, cada nova música ainda começa com medo, procrastinação e insegurança. “O medo precisa ser transformado em um elemento útil”, explicou, acrescentando que a busca pela originalidade passa justamente pelo inconformismo com aquilo que já foi produzido.
Bastidores de canções que marcaram gerações
Um dos momentos mais aguardados da palestra foi quando o compositor revelou histórias por trás de músicas que fazem parte da memória afetiva dos brasileiros. Sobre Marvin, explicou que a canção é, portanto, uma adaptação de “Patches” e que o nome escolhido presta homenagem ao cantor Marvin Gaye.
Também relembrou a origem de “Eles Querem Meu Sangue”, versão de “The Harder They Come”, de Jimmy Cliff, e contou que a música só alcançou grande repercussão anos depois de sua gravação pelos Titãs.
Ao falar do clássico “Resposta“, gravada pelo Skank, revelou que a letra escreveu na véspera da gravação do disco (inicialmente seria para o Titãs), sob a pressão de um prazo apertado, inspirada em uma experiência pessoal e em um pedido de desculpas para Marisa Monte, que era a sua ex-namorada da época.
Já “Onde Você Mora”, parceria com Marisa Monte, famosa na versão da banda Cidade Negra, nasceu da união de dois fragmentos de canções. As mesmas pareciam não encontrar um destino até serem reunidos em uma única composição. Ainda mais foi comentar sobre “Os Cegos do Castelo”, clássico do Titãs, Nando Reis revelou que a composição nasceu durante um dos períodos mais difíceis de sua vida, marcado pela dependência do álcool e cocaína. Hoje sóbrio há dez anos, afirmou que fala abertamente sobre o tema para combater o preconceito em torno da dependência química.
“A música foi um remédio para a dor, mas ela sozinha não foi suficiente.”, recomendou.
Claro que o Ação Leitura comentou de All Star com Nando Reis
No final do bate-papo, Fialho com sua vans nos pés foi perguntar sobre a canção All Star, composta para Cássia Eller, uma declaração que marcou a parceria intensa de amizade. Nando contou que escreveu a música durante o período em que conviveu intensamente com a cantora e que ficou constrangido quando ela ouviu a composição pela primeira vez sem demonstrar qualquer reação.
Tempos depois, descobriu que Cássia havia incorporado a canção ao repertório de seus shows. Após sua morte, uma gravação da artista interpretando “All Star” foi incluída em um álbum póstumo produzido por ele, visto que ele prometeu que iria produzir três albúsn da artista.
“Fico feliz por ter feito essa declaração de amor em vida. A gente não pode esperar para dizer às pessoas o quanto elas são importantes.”, respondeu.
Na saideira, Nando Reis afirmou que prefere falar em “transformação” em vez de “amadurecimento”, por acreditar que viver significa estar em permanente evolução.Também defendeu o respeito às diferenças, à cultura e às diversas formas de enxergar o mundo, lembrando que a dúvida é um dos motores do aprendizado.
Encerrando a abertura do Programa Ação Leitura, deixou uma mensagem que sintetizou tanto sua trajetória quanto os objetivos do projeto: “A gente tem que cuidar das pessoas, cuidar do planeta… Parem de ler o celular, o WhatsApp. Leiam livros.”
Sobre o Ação Leitura e terá outros convidados além de Nando Reis
A mensagem resume o espírito do Programa Ação Leitura, que segue com atividades até o mês de agosto. Segundo Carlos Fialho, a iniciativa passou, ao longo dos anos, a concentrar parte importante de suas ações nas escolas públicas e deve reunir, nesta edição, estudantes de cerca de 30 escolas estaduais, além de instituições municipais e particulares, em encontros realizados no Teatro Alberto Maranhão.
Depois da abertura com Nando Reis, a programação continuará com nomes como Jeferson Tenório, Clotilde Tavares e Eva Potiguara, entre outros convidados. “Com o passar dos anos, passamos a dar uma ênfase muito especial às escolas. Vamos levar um público muito numeroso ao Teatro Alberto Maranhão para estimular a leitura literária entre crianças e jovens”, finalizou Fialho em coletiva de imprensa.









