Dramaturgia: potiguar Vinisso lançou seu primeiro EP e aposta na música autoral

Lara Paiva
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Crescer rodeado de música pode plantar uma semente que demora anos para brotar. Mas, quando brota, vem com raízes fundas. É o que aconteceu com Vinisso, publicitário nascido no Rio Grande do Norte e radicado em São Paulo. O mesmo acaba de lançar seu primeiro EP, “Dramaturgia”, produzido por Léo Pinotti. O último mencionado atuou com grandes artistas locais, como Tássia Reis, Xênia França e Duquesa.

A trajetória do artista não seguiu o roteiro convencional de quem sonha com os holofotes desde a infância. A música entrou pela porta dos fundos, pela família, pelos tios que cantavam, pelas tias que tocavam algum instrumento, pelas histórias contadas ao som de Beth Carvalho. “Minha família sempre foi muito musical. Todos os meus tios e tias por parte de mãe cantavam ou tocavam algum instrumento. Eu cresci rodeado de música desde criança”, contou o cantor-publicitário em entrevista ao Brechando.

Desse ambiente afetivo e sonoro vieram as primeiras influências: o samba e a MPB que embalaram sua infância potiguar. Mas foi uma decisão prática da mãe que deu o primeiro passo concreto rumo ao palco. Ainda criança, ele foi matriculado em aulas de violão. “Tive um professor que me incentivou muito, e do violão veio a necessidade de cantar, porque você precisa cantar alguma coisa quando toca, não é mesmo?”, comentou.

A voz como consequência

Vinisso é direto ao falar sobre o próprio instrumento vocal: ele nunca foi o ponto de partida. “O foco nunca foi a voz, e até hoje não é. As pessoas não olham e pensam ‘nossa, que voz, esse cara nasceu para cantar’. Mas hoje em dia tem tantas coisas mais importantes que compõem um artista: a identidade, a composição, a letra, os acordes, a mensagem. A identidade em si, muito mais do que a voz.”, esclareceu.

Essa postura revela uma consciência artística apurada sobre o que diferencia um cantor de um artista, e Vinisso quer ser artista. Com o tempo, a relação com a própria voz foi se transformando. “Faz uns dez anos que percebi que gosto da minha voz e que ela tem potencial. Hoje estou muito bem resolvido com isso.”.

Primeiras canções

As primeiras composições surgiram em 2017. Como qualquer processo criativo em seus estágios iniciais, o caminho foi tortuoso. “No início não gostava das minhas composições, como qualquer pessoa que começa algo do zero. Mas faz uns anos que comecei a sentir: caraca, isso aqui ficou legal, esse aqui pode funcionar.” Foi essa percepção que abriu o caminho para Dramaturgia, e gravar as próprias composições nunca foi apenas uma questão técnica. Para Vinisso, é uma condição. “Se eu não tivesse escrito nada, não cantaria. Não seria só cantor, tenho que ser também compositor, estar muito dentro do processo criativo.”

Um ano e meio entre dúvidas e coragem por parte de Vinisso

O pontapé inicial veio de um ímpeto. Em junho de 2024, depois de um período de freelas que lhe deu uma reserva financeira, Vinisso decidiu que era hora. “Estava vivendo muitas coisas novas: o início de relações pessoais, encontros, e ao mesmo tempo fazia só um ano que eu estava em São Paulo, ainda entendendo o que era essa grande cidade, o que era ser uma pessoa migrante, ser um potiguar em São Paulo de fato. Num peso de coragem eu falei: ‘acho que agora é a hora, porque senão agora, quando?'”

O processo se estendeu até o final de 2025, um ano e meio de gravação, idas e vindas, dúvidas e reescutas. A produção ficou a cargo de Léo Pinotti, nome conhecido por trabalhos com artistas como Duquesa e Jantar. “Eu sabia o quanto ele é importante. Isso me passou muita segurança, mas não foi simples também. Foram muitas idas e vindas, porque era um estilo de música que ele não estava acostumado a produzir.”

A tensão criativa entre os dois, no entanto, rendeu frutos. Vinisso queria trazer elementos da brasilidade, sanfona, acordeão, samba, enquanto Pinotti vinha de um universo mais urbano, de sintetizadores e sonoridades contemporâneas. “Foi uma mistura muito gostosa. Eu vim com essa necessidade de trazer elementos do triângulo, da zabumba, da pirraça. Ele chamou um amigo para fazer o acordeão em ‘Pirraça’, um instrumento com o qual não estava muito familiarizado, mas que sentiu a necessidade de colocar quando começou a gravar comigo.”

Referências entre o clássico e o contemporâneo

As inspirações de Vinisso atravessam gerações. De um lado, os pilares da MPB que moldaram seus primeiros anos, Caetano Veloso, Beth Carvalho, Emílio Santiago, Alcione. Do outro, nomes da cena atual que souberam herdar esse legado com personalidade própria, como Marina Sena, Duda Pitt e Silva. “São pessoas que sabem trabalhar um álbum, conectar tudo a um conceito maior, ser contemporâneas mas ao mesmo tempo respeitosas com o passado e com suas influências. Pessoas que trabalham muito bem a estética. É uma camada muito vasta.”

O publicitário dentro do artista

Formado em publicidade, Vinisso não deixou a profissão do lado de fora quando entrou no estúdio. O olhar de comunicador, atento à semiótica, ao conceito, à coerência de um projeto como um todo, moldou diretamente a construção de Dramaturgia. “O olhar de publicitário me ajudou muito: saber semiótica, pensar num projeto como um todo, entender o conceito, como isso se conecta à música, ao ritmo, ao que eu preciso expressar. Isso deu mais valor ao processo, independente da minha voz.”

Por muito tempo, no entanto, essa dupla identidade foi fonte de conflito interno. “Sou artista ou sou publicitário? Vou ser empresário ou ter vida corporativa?” Era muito uma coisa ou outra. Hoje, a visão é outra. “Ser artista me ajuda a ser eu no corporativo, e o corporativo me proporciona tudo que estou fazendo enquanto artista. Saí do lugar de culpa e comecei a enxergar que isso potencializa quem eu sou.”

Próximos passos: novas músicas e um selo independente

Com o EP no mundo, Vinisso já pensa nos próximos movimentos. Além de continuar compondo, e garante que as músicas mais recentes estão “ainda mais maduras”, ele está lançando o Sem Drama, um selo de tração criativa e artística voltado para novos artistas que querem gerar valor independente de métricas. “Quero ajudar novos artistas a se comunicar, a se posicionar, a saber o que lançar e como se comunicar com o público. É uma frente que quero explorar daqui para frente.”

Para quem acompanhar a jornada, ele adianta o que pode esperar: “Um artista com os pés no chão, que vai sempre tentar dar o seu melhor. Sou virginiano, não consigo fazer nada pela metade.”

“Dramaturgia”, de Vinisso, está disponível nas plataformas de streaming. Produção: Léo Pinotti.

Ficha Técnica: EP – Dramaturgia

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Oi, eu sou o Goku. Mentira, meu nome é Lara. Sou jornalista e publicitária formada pela UFRN, natural de Natal. Sempre fui de humanas. Tem um blog para expor as suas curiosidades e anseios desta vida e mostrar os diferentes lados da vida urbana.
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