{"id":4174,"date":"2022-03-24T00:00:00","date_gmt":"2022-03-24T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/homologacao.nerdbug.com.br\/?p=4174"},"modified":"2022-03-24T00:00:00","modified_gmt":"2022-03-24T03:00:00","slug":"munganga-republica-livro-de-moacy-cirne-de-1986","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/brechando.com\/novo\/munganga-republica-livro-de-moacy-cirne-de-1986\/","title":{"rendered":"Munganga republica livro de Moacy Cirne de 1986"},"content":{"rendered":"<p>\u201cUm panfleto para Godard\u201d era um livro com publica\u00e7\u00e3o original de 1986. Era uma plaquete de poemas verbais e visuais produzidos em resposta \u00e0 censura do filme \u201cJe vous salue, Marie\u201d (em tradu\u00e7\u00e3o livre, \u201cEu vos sa\u00fado, Maria\u201d), de Jean-Luc Godard, eventualmente imposta a partir de 1986 pelo Governo Sarney. Os poemas de Moacy, a cr\u00edtica \u00e0 censura justamente tecer cr\u00edticas mais amplas ao contexto s\u00f3cio-hist\u00f3rico que permitiu a exist\u00eancia dessa fratura na liberdade de express\u00e3o.<\/p>\n<p>Tudo numa constru\u00e7\u00e3o picaresca, t\u00e3o cara ao estilo de escrita de Moacy, em que, frequentemente, o leitor se depara rindo do abismo humanit\u00e1rio em que se encontra. Moacy, em \u201cUm panfleto para Godard\u201d, n\u00e3o se reserva apenas \u00e0s cr\u00edticas, que seguem sendo atual\u00edssimas; em seus poemas tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel observar v\u00e1rios trechos que convidam o leitor a reaver a f\u00e9 na esperan\u00e7a.<\/p>\n<figure id=\"attachment_38403\" aria-describedby=\"caption-attachment-38403\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/brechando.com\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/IMG_20220323_133639_189-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-38403\" src=\"https:\/\/brechando.com\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/IMG_20220323_133639_189-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"2560\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-38403\" class=\"wp-caption-text\">Eu e Ayrton durante a entrevista (Foto: Maluz Maheros)<\/figcaption><\/figure>\n<h2>Equipe da Munganga foi respons\u00e1vel pela reedi\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os poetas Ayrton Alves Badriah e Victor H. Azevedo, da Munganga Edi\u00e7\u00f5es, s\u00e3o os respons\u00e1veis pela segunda edi\u00e7\u00e3o da obra. Com o apoio dos familiares, e com revis\u00e3o de Jefferson Martim Turibio, eles v\u00e3o lan\u00e7ar o livro no pr\u00f3ximo s\u00e1bado (26), \u00e0s 16 horas, no Seburubu (na Avenida Deodoro da Fonseca, 307, Cidade Alta). Neste endere\u00e7o,\u00a0 encontrei Ayrton, meu parceiro de outros trabalhos paralelos, e inclusive das duas edi\u00e7\u00f5es da revista do Brechando, e ele contou detalhes da produ\u00e7\u00e3o do livro, totalmente manual.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cS\u00f3 n\u00e3o mostro o livro, porque acredita que fui levar a guilhotina (m\u00e1quina de cortar pap\u00e9is) na Ribeira? Perrengues das impress\u00f5es artesanais\u201d, brincou <\/span><a href=\"https:\/\/brechando.com\/novo\/2019\/12\/17\/victor-h-azevedo-relanca-seu-cachorro-morto\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">Ayrton<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> (o mo\u00e7o da foto acima do t\u00edtulo) em entrevista ao <\/span><b>Brechando<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Confira a entrevista completa a seguir.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tem um grande problema em Natal (como em outros lugares, obviamente): a gente n\u00e3o conhece as coisas daqui. \u201cSer\u00e1 que n\u00e3o tem nenhum poeta realmente interessante aqui?\u201d, foi a pergunta que eu e Victor nos fizemos h\u00e1 5 anos,\u00a0 e, para nossa surpresa, a gente descobriu nomes interessant\u00edssimos, como Myriam Coeli, Ant\u00f4nio Pinto de Medeiros, Moacy Cirne e Jo\u00e3o Gualberto, para ficarmos nestes. Moacy nos impressionou desde o in\u00edcio, porque ele \u00e9 um poeta muito fora da caixinha, n\u00e9?, e \u00e9 interessant\u00edssimo por causa disso. N\u00e3o sei se ele \u00e9 mais conhecido no Rio do que aqui (e talvez seja mesmo, por causa da sua trajet\u00f3ria como professor da UFF), mas posso afirmar que ele \u00e9 mais conhecido como estudioso de quadrinhos do que como poeta, isso sim.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_38404\" aria-describedby=\"caption-attachment-38404\" style=\"width: 1086px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/brechando.com\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/cirne-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-38404\" src=\"https:\/\/brechando.com\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/cirne-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1086\" height=\"652\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-38404\" class=\"wp-caption-text\">Moacy Cirne, o autor do livro relan\u00e7ado, que faleceu em 2014, aos 70 anos,<\/figcaption><\/figure>\n<h3><b>\u00c9 tanto que ele criou o Chico Doido de Caic\u00f3, n\u00e9?<\/b><\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sim, ele e Ney Leandro de Castro. Mas ali tem mais a m\u00e3o dele do que de Nei Leandro, eu acho.\u00a0<\/span><\/p>\n<h3><b>Vi at\u00e9 ele [Moacy] dizer em uma entrevista para um blogue, assim, l\u00e1 da antiga, para Abimael, que sua m\u00e3e \u00e9 que teria criado o personagem.<\/b><\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o conhe\u00e7o essa entrevista, mas de Moacy a gente n\u00e3o espera menos (risos).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Descobrimos o nome de Moacy, e a gente ficou f\u00e3 dele de imediato. Em 2020, a fam\u00edlia dele doou para a cidade do Natal a biblioteca particular dele, que se encontrava no Rio de Janeiro. Entre livros e revistas, foram mais de 8 mil volumes. Atualmente, esse material est\u00e1 guardado. Em breve, a Prefeitura do Natal, atrav\u00e9s da Funcarte (Funda\u00e7\u00e3o Capitania das Artes), vai disponibilizar esses livros para a consulta p\u00fablica. Eu trabalhei na equipe que catalogou esses livros e foi assim que encontrei a filha dele, Isadora Cirne, que tamb\u00e9m ajudou na cataloga\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, eu falei pra ela que eu e Victor sempre tivemos o desejo de publicar algo dele. Principalmente aquelas obras que j\u00e1 estavam fora de circula\u00e7\u00e3o h\u00e1 algum tempo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tem livros dele que eu nunca cheguei a ver. E, por coincid\u00eancia, a gente estava l\u00e1 na Biblioteca do Munic\u00edpio e vimos um exemplar de \u201cUm panfleto para Godard\u201d. Conversando com Isadora, a filha dele, ela ficou muito empolgada, super apoiou. O projeto demorou para acontecer por causa da pandemia. N\u00e3o foi f\u00e1cil pra ningu\u00e9m, e o que restava para a utopia de uma editora independente, n\u00e9?\u00a0 Ent\u00e3o, esse projeto acabou tendo que ficar de molho por um tempo. E a\u00ed, para grande surpresa nossa, a gente conseguiu recursos e estamos colocando esse livro para rodar neste m\u00eas de mar\u00e7o.<\/span><\/p>\n<h3><b>Fale mais do livro\u2026<\/b><\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 uma plaquete de 36 p\u00e1ginas, confeccionada artesanalmente. Sou suspeito para falar, mas acho o conjunto de poemas\u00a0 bastante interessante. Foi constru\u00edda tendo como mote a censura do governo Jos\u00e9 Sarney, por press\u00e3o da ala conservadora da Igreja Cat\u00f3lica, sobre o filme de Jean-Luc Godard, \u201cJe vous salue, Marie\u201d. Al\u00e9m disso, o filme foi censurado por quase\u00a0 tr\u00eas anos. Mesmo assim, Moacy conseguiu a c\u00f3pia do filme e o exibiu para os alunos da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niter\u00f3i. Podendo ser preso e tudo mais.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nessa plaquete, que nada mais \u00e9 que\u00a0 um livro de poucas p\u00e1ginas, o leitor encontrar\u00e1 poemas experimentais que tecem severas cr\u00edticas \u00e0 nossa \u201celite do atraso\u201d. Cr\u00edticas com um tom burlesco, uma vez que d\u00e1 aquela alfinetada que antes da dor gera o riso. Para al\u00e9m desse tom mais cr\u00edtico, \u00e9 poss\u00edvel encontrar nos poemas palavras relacionadas ao campo sem\u00e2ntico da esperan\u00e7a, a dias melhores, uma vez que em 1986 a democracia brasileira engatinhava e ainda sofria com os graves res\u00edduos do golpe de 64. Apesar de ter sido escrito em 1986, Moacy parece tamb\u00e9m escrever em \u201cUm panfleto para Godard\u201d sobre o Brasil de agora.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><b>O que foi mais dif\u00edcil na produ\u00e7\u00e3o do livro?<\/b><\/h3>\n<h3><\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para al\u00e9m desta pandemia, o grande trabalho foi o de deixar a segunda edi\u00e7\u00e3o exatamente igual \u00e0 primeira quanto aos textos. Por serem poemas que se espraiam de forma pouco usual no sil\u00eancio branco da p\u00e1gina. \u00c0s vezes a gente ajustava em um lugar e isso acabava gerando um desajuste em outro canto. Foram sucessivas revis\u00f5es para chegarmos na vers\u00e3o final. Aqui e ali tivemos algumas d\u00favidas quanto \u00e0s escolhas lingu\u00edsticas do autor, mas, dada a impossibilidade de comunica\u00e7\u00e3o com o poeta, restou manter tudo como ele pensou na primeira edi\u00e7\u00e3o. Foi um trabalho \u00e1rduo, mas, gra\u00e7as ao empenho e \u00e0 paci\u00eancia de Victor, que fica \u00e0 frente da parte da apresenta\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica dos livros da Munganga, conseguimos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><b>Para finalizar, conte-me os detalhes do lan\u00e7amento<\/b><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ser\u00e1 um lan\u00e7amento simples. Como \u00e9 uma retomada das atividades \u201cpresenciais\u201d da Munganga. N\u00f3s pensamos em cultivar um espa\u00e7o mais convidativo ao di\u00e1logo, em que o livro e o seu autor sejam o centro da coisa. Al\u00e9m disso, os processos dos bastidores do livro foram bem bonitos, e um autor que, mesmo morando h\u00e1 muito tempo no Rio, nunca desligou-se da cena cultural do RN n\u00e3o merecia menos, sendo, inclusive, um grande divulgador das letras potiguares fora da prov\u00edncia. Esperamos que a gente tenha conseguido colocar no livro o carinho que temos pela obra e pela pessoa de Moacy.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O ambiente para comportar\u00a0 esse lan\u00e7amento n\u00e3o poderia ser outro: o Seburubu, um sebo aconchegante em que o amor aos livros \u00e9 vis\u00edvel em cada canto.<\/span><\/p>\n<p>E acompanhe os meninos no Instagram, clicando neste <a href=\"http:\/\/instagram.com\/mungangaedicoes \">link<\/a>.<\/p>\n<h2>Sobre Moacy Cirne<\/h2>\n<p>Moacy Cirne foi um poeta e artista visual, nascido em S\u00e3o Jos\u00e9 do Serid\u00f3, Rio Grande do Norte, em 1943. Al\u00e9m disso, \u00e9 considerado um dos especialistas brasileiros em hist\u00f3rias em quadrinhos e o poeta potiguar foi um dos fundadores, em 1967, de uma das neovanguardas brasileiras mais importantes do p\u00f3s-guerra, o Poema-Processo, ao lado de Wlademir Dias-Pino, \u00c1lvaro de S\u00e1, Nei Leandro de Castro e Pedro Bertolino, entre outros.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de \u201cUm panfleto para Godard\u201d (1986), sua obra po\u00e9tica, das mais interessantes entre os melhores poetas experimentais brasileiros, segundo Ricardo Domeneck na Revista Modo de Usar e Cia., \u00e9 formada por livros como: \u201cObjetos verbais\u201d (1979), \u201cCinema Pax\u201d (1983), \u201cDocemente experimental\u201d (1988), \u201cQualquer tudo\u201d (1993), \u201cContinua na pr\u00f3xima\u201d (1994), \u201cRio Vermelho\u201d (1998), \u201cPoemas inaugurais\u201d (2007) e \u201cSerid\u00f3 Serid\u00f3s\u201d (2013).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cUm panfleto para Godard\u201d era um livro com publica\u00e7\u00e3o original de 1986. 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