{"id":4161,"date":"2022-06-22T00:00:00","date_gmt":"2022-06-22T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/homologacao.nerdbug.com.br\/?p=4161"},"modified":"2022-06-22T00:00:00","modified_gmt":"2022-06-22T03:00:00","slug":"revista-manchete-retratou-curandeiros-potiguares-em-1982","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/brechando.com\/novo\/revista-manchete-retratou-curandeiros-potiguares-em-1982\/","title":{"rendered":"Revista Manchete retratou curandeiros potiguares em 1982"},"content":{"rendered":"<p>A <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=UlvjZVc8qWQ\">Revista Manchete<\/a> era publicada semanalmente e distribu\u00edda quase todo o Brasil. Al\u00e9m disso, trazia reportagens especiais sobre v\u00e1rios acontecimentos nacionais e internacional. No ano de 1982, eles criaram uma reportagem para falar dos curandeiros que aprenderam ler pelo programa <a href=\"https:\/\/www.educabrasil.com.br\/mobral-movimento-brasileiro-de-alfabetizacao\/#:~:text=O%20Mobral%20propunha%20a%20alfabetiza%C3%A7%C3%A3o,e%20substitu%C3%ADdo%20pelo%20Projeto%20Educar.\">Mobral<\/a> e participaram do encontro da institui\u00e7\u00e3o que tinha o objetivo reunir a tradi\u00e7\u00e3o. O rep\u00f3rter foi o potiguar Val\u00e9rio Marinho. Na foto acima, os curandeiros foram benzer Cascudo durante este encontro.\u00a0<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a Mobral queria catalogar toda a documenta\u00e7\u00e3o e promoveu o encontro dos curandeiros com o folclorista Lu\u00eds da C\u00e2mara Cascudo.<\/p>\n<h2>Brechando transcreveu a reportagem que est\u00e1 no Acervo da Biblioteca Nacional<\/h2>\n<p>Confira a mat\u00e9ria a seguir transcrita. Ou no final deste post voc\u00ea pode clicar na imagem e ampliar.<\/p>\n<h2>Os Magos da Medicina<\/h2>\n<p>Reportagem: Val\u00e9rio Marinho.<\/p>\n<p>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<a href=\"https:\/\/brechando.com\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/WhatsApp-Image-2022-03-09-at-17.31.46.jpeg\" data-elementor-open-lightbox=\"yes\" data-elementor-lightbox-title=\"WhatsApp Image 2022-03-09 at 17.31.46\" data-e-action-hash=\"#elementor-action%3Aaction%3Dlightbox%26settings%3DeyJpZCI6MzgyODUsInVybCI6Imh0dHBzOlwvXC9icmVjaGFuZG8uY29tXC93cC1jb250ZW50XC91cGxvYWRzXC8yMDIyXC8wM1wvV2hhdHNBcHAtSW1hZ2UtMjAyMi0wMy0wOS1hdC0xNy4zMS40Ni5qcGVnIn0%3D\"><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t<img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"740\" height=\"488\" src=\"https:\/\/brechando.com\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/WhatsApp-Image-2022-03-09-at-17.31.46.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/brechando.com\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/WhatsApp-Image-2022-03-09-at-17.31.46.jpeg 740w, https:\/\/brechando.com\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/WhatsApp-Image-2022-03-09-at-17.31.46-300x198.jpeg 300w, https:\/\/brechando.com\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/WhatsApp-Image-2022-03-09-at-17.31.46-150x99.jpeg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/a><\/p>\n<p>Clique nas abas para ler cada parte da mat\u00e9ria:<\/p>\n<p>\t\t\t\t\t\t\t\t\tOs Magos da Medicina<br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\tNota da edi\u00e7\u00e3o<br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\tVoltando para reportagem<br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\tInflu\u00eancia x Ci\u00eancia<br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\tEncontro com Cascudo<br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\tOs Magos da Medicina<\/p>\n<p>Ele tem 77 anos. Se usasse barba, passaria facilmente por um personagem de filme b\u00edblico. Mais alto que a m\u00e9dia dos nordestinos, rosto queimado pelo sol, pele enrrugada, cabelos brancos e olhos azuis, Jo\u00e3o de Souza Pinheiro \u00e9 o mais famoso curandeiro do munic\u00edpio de S\u00e3o Miguel (Rio Grande do Norte).<\/p>\n<p>H\u00e1 40 anos, seu Jo\u00e3o vivve curando gente com rezas e ervas medicinas. \u00c0s vezes, tamb\u00e9m l\u00ea m\u00e3o.<\/p>\n<ul>\n<li>O senhor tem algum poder especial?<\/li>\n<\/ul>\n<p>A resposta cl\u00e1ssica vem na hora:<br \/>-N\u00e3o, meu filho, quem cura \u00e9 Deus. Sou apenas um rezador. Se a pessoa tem f\u00e9 em Jesus, fica boa.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o de Souza foi um dos 567 curandeiros e rezadeiros que o Mobral conseguiu reunir em Natal, atrav\u00e9s de um programa especial destinado \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o, preserva\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o da cultura local. Para Maria de Lourdes Guerra, coordenadora do Mobral-RN, o encontro foi idealizado com o prop\u00f3sito de &#8220;possibilitar a troca de experi\u00eancias e o interc\u00e2mbio de informa\u00e7\u00f5es entre os participantes, bem como despertar, no curandeiro\/rezadeira, a consci\u00eancia do papel que ambos exercem dentro da comunidade&#8221;.<\/p>\n<p>Procedentes do interior do estado, os curandeiros e rezadeiras ficaram alojados numa escola abandonada, a Manoel Villa\u00e7a. Ali, diante de t\u00e9cnicos do Mobral, m\u00e9dicos, jornalistas, fot\u00f3grafos e dezenas de curiosos, relataram experi\u00eancias de um of\u00edcio milenar. A grande maioria j\u00e1 passa dos 50 anos. O mais velho tem 88. Um deles, paral\u00edtico, dava consultas em cadeira de rodas. Os homens, em menor n\u00fameros, geralmente trabalham no campo. No que concerne \u00e0s mulheres, muitas delas s\u00e3o lavadeiras, e outras atuam tamb\u00e9m como parteiras. O conhecimento dos curandeiros, quase todos analfabertos ou semi-analfabetos, repousa sobre uma tradi\u00e7\u00e3o oral secular, transmitida de pai para filho.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do catimnbozeiro, que faz feiti\u00e7os e trabalha para o mal, o curandeiro s\u00f3 procura fazer o bem. Em seu trabalho intitulado &#8220;A Medicina do Povo&#8221;, Iaperi Ara\u00fajo revela que as &#8220;benzedeiras e rezadeiras procuram, na inova\u00e7\u00e3o aos santos cat\u00f3licos, a prote\u00e7\u00e3o ou a cura das doen\u00e7as, baseando-se sobretudo no conceito de corte celestial, onde cada santo \u00e9 um pequeno deus com poderes sobre as enfermidades, sobre o bem e o mal&#8221;.<\/p>\n<p>\t\t\t\t\t\t\t\t\tNota da edi\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Antigamente, o termo catimb\u00f3 era usando pejorativamente para chamar pessoas que praticavam religi\u00e3o de matriz africana, no qual sempre se referia como algo maldoso. Era como se fosse sin\u00f4nimo de &#8220;macumba&#8221;, que tamb\u00e9m \u00e9 um termo preconceituoso. Lembrando que a reportagem \u00e9 de 1982, onde a descrimina\u00e7\u00e3o ainda era pior do que hoje.<\/p>\n<p>\t\t\t\t\t\t\t\t\tVoltando para reportagem<\/p>\n<p>De uma maneira geral, o curandeiro n\u00e3o cobra por seus servi\u00e7os. Aceita pequenos presentes &#8211; uma galinha, meia d\u00fazia de ovos, um peda\u00e7o de queijo do sert\u00e3o, ou coisa semelhantes. Dona Clotilde da Silva, 58 anos, analfabeta, residente em Ielmo Marinho, explica por que n\u00e3o cobra:<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o exijo nada, pois n\u00e3o vou vender as palavras de Deus&#8221;.<\/p>\n<p>Dona Jozefa Teixeira, 75 anos, rezadeira h\u00e1 50 anos, \u00e9 muito procurada em sua cidade, Cai\u00e7ara, onde chega a atender a mais de 300 pessoas por m\u00eas. Como dona Clotilde, ela diz que tamb\u00e9m que &#8220;n\u00e3o cobro porque n\u00e3o posso vender a palavra de Deus. Foi ele quem me deu este dom e procuro cumprir minha miss\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>As rezadeiras se mostram acess\u00edveis, atenciosas, com exce\u00e7\u00e3o de uma ou outra mais desconfiada, que se recusou a ditar a letra de suas ora\u00e7\u00f5es sob o pretexto de que &#8220;as rezas perderiam seu efeito milagroso&#8221;.<\/p>\n<p>Sentada \u00e0 sombra de uma mangueira, dona Rosa atendia a uma mo\u00e7a que lhe pedira para ler sua m\u00e3o. Jovem da cidade, demonstrando mais curiosidade do que f\u00e9, a garota queria saber quando iria casar, se seu marido seria seu namorado atual, e outras coisas do g\u00eanero. Notando o deboche, a velha tirou o cachimbo da boca, deu uma cusparada, e proclamou ir\u00f4nica, dando por encerrada a consulta:<\/p>\n<p>&#8220;Na sua m\u00e3o est\u00e1 escrito que voc\u00ea s\u00f3 casa na hora que Deus Marcar.&#8221;<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\t\t\t\t\t\t\t\t\tInflu\u00eancia x Ci\u00eancia<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, a popularidade do curandeiro entra em conflito com o m\u00e9dico da pequena cidade. Um dos rezadores conta:<\/p>\n<p>&#8220;O doutor me chamou para reclamar de que o povo estava indo pouco ao seu consult\u00f3rio. Eu respondi: mas doutor, eu n\u00e3o vou atr\u00e1s de doente, n\u00e3o cobro nada, s\u00f3 fa\u00e7o rezar. Meu rem\u00e9dio \u00e9 raiz de pau.&#8221;.<\/p>\n<p>Segundo um outro, certa feita, o dono da farm\u00e1cia o chamou e lhe prop\u00f4s um trato:<\/p>\n<p>&#8220;Homem, em lugar de planta do mato, receita rem\u00e9dio da farm\u00e1cia que eu lhe dou 10 por cento do apurado.&#8221;<\/p>\n<p>Iaperi Ara\u00fajo afirma em seu trabalho:<\/p>\n<p>&#8220;A medicina do povo tem influ\u00eancias marcantes das ra\u00e7as que formam a base \u00e9tnica do homem brasileiro. Dos ind\u00edgenas, nos veio o conhecimento das propriedades farmacol\u00f3gicas da flora brasileira. Este conhecimento se deve em grande parte aos jesu\u00edtas, que em suas miss\u00f5es colhiam certas informa\u00e7\u00f5es sobre o valor medicinal de nossas plantas e as registraram em seus di\u00e1rios.&#8221;.<\/p>\n<p>A exemplo desses antigos jesu\u00edtas, o Mobral est\u00e1 coletando dados, copiando receitas, documentando ora\u00e7\u00f5es. Entre as revela\u00e7\u00f5es deste I Encontro de Curandeiros e Rezadeiras, um chamou particularmente a aten\u00e7\u00e3o: o desinteresse dos jovens pelo of\u00edcio. Atra\u00eddo por in\u00fameras ou outras solicita\u00e7\u00f5es, os filhos dos curandeiros est\u00e3o abandonando a tradi\u00e7\u00e3o dos antepassados.<\/p>\n<p>Nas palestras dos t\u00e9cnicos do Mobral, indagava-se aos curandeiros quais seriam as causas das doen\u00e7as, de tanto sofrimento. Tudo para eles se resume na vontade de Deus:<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 Deus quem d\u00e1 a doen\u00e7a, e \u00e9 Deus quem cura.&#8221;.<\/p>\n<p>Sem querer, de maneira alguma, interferir neste plano m\u00edstico, os t\u00e9cnicos procuraram, nos trabalhos de grupo, iniciar um programa de higiene e sa\u00fade que futuramente ser\u00e1 desenvolvido nas pr\u00f3prias comunidades dos curandeiros. E Maria de Lourdes guerra, explica:<\/p>\n<p>&#8220;Afinal, o curandeiro \u00e9, \u00e0 sua maneira, um l\u00edder dentro da sua pequena comunidade. Para quem est\u00e1 doente, necessitando de ajuda, o que ele diz tem for\u00e7a de lei. N\u00f3s queremos que, al\u00e9m de suas rezas, de suas receitas de erva, ele diga tamb\u00e9m que a \u00e1gua deve ser fervida, que a mosca contamina os alimentos, que se deve lavar as m\u00e3os antes de comer, enfim, que transmita certas informa\u00e7\u00f5es elementares de higiene e educa\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria.&#8221;.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\t\t\t\t\t\t\t\t\tEncontro com Cascudo<\/p>\n<p>Ao final do encontro, 25 curandeiros foram levados \u00e0 presen\u00e7a do historiador e folclorista Lu\u00eds da C\u00e2mara Cascudo. Aos 82 anos, surdo, por\u00e9m inteiramente l\u00facido, Cascudo lamentou n\u00e3o poder ouvir as rezas e palavras sagradas que, atrav\u00e9s dos tempos, comp\u00f5e a magia da medicina do povos. Rezas e palavras que fizeram parte essencial daquela tradi\u00e7\u00e3o oral que, durante toda a sua vida, ele tratou de resgatar da boca do povo para os livros.<\/p>\n<p>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"768\" src=\"https:\/\/brechando.com\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/WhatsApp-Image-2022-03-09-at-17.31.52.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/brechando.com\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/WhatsApp-Image-2022-03-09-at-17.31.52.jpeg 600w, https:\/\/brechando.com\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/WhatsApp-Image-2022-03-09-at-17.31.52-234x300.jpeg 234w, https:\/\/brechando.com\/novo\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/WhatsApp-Image-2022-03-09-at-17.31.52-150x192.jpeg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Revista Manchete era publicada semanalmente e distribu\u00edda quase todo o Brasil. 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