{"id":4007,"date":"2022-02-25T00:00:00","date_gmt":"2022-02-25T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/homologacao.nerdbug.com.br\/?p=4007"},"modified":"2022-02-25T00:00:00","modified_gmt":"2022-02-25T03:00:00","slug":"um-relato-de-um-foliao-sobre-o-carnaval-de-natal-na-primeira-metade-do-seculo-xx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/brechando.com\/novo\/um-relato-de-um-foliao-sobre-o-carnaval-de-natal-na-primeira-metade-do-seculo-xx\/","title":{"rendered":"Um relato de um foli\u00e3o sobre o carnaval de Natal na primeira metade do s\u00e9culo XX"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">O carnaval, ap\u00f3s 1 ano de abandono devido \u00e0 pandemia, est\u00e1 de volta. Neste momento, as pessoas est\u00e3o empolgadas com a volta da folia de momo e loucas para enfiar o p\u00e9 na jaca. Mas, como era o carnaval na primeira metade do s\u00e9culo XX? A gente achou uma mat\u00e9ria do Di\u00e1rio de Natal que fala sobre o assunto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A reportagem entrevistou o poeta Jaime dos Guimar\u00e3es, irm\u00e3o de <\/span><a href=\"https:\/\/brechando.com\/novo\/2017\/09\/palmyra-wanderley-pioneira-no-jornalismo-potiguar\/#:~:text=Ela%20nasceu%20em%20Natal%20no,oficial%E2%80%9D%20da%20cidade%20do%20Natal.\"><span style=\"font-weight: 400;\">Palmyra Wanderley<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, que contou a experi\u00eancia da folia de momo. A <\/span><a href=\"http:\/\/memoria.bn.br\/DocReader\/DocReader.aspx?bib=031151_02&amp;Pesq=%22carnaval%22&amp;pagfis=3721\"><span style=\"font-weight: 400;\">publica\u00e7\u00e3o aconteceu em 16 de fevereiro de 1969<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">. Jaime faleceu em 1986.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Vamos reproduzir a mat\u00e9ria na \u00edntegra. Leia, portanto, a seguir:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8220;Alcancei o carnaval de Natal em 12&#8221;. Assim dep\u00f5e Jaime dos Guimar\u00e3es Wanderley, poeta setent\u00e3o e tranquilo teatr\u00f3logo, que at\u00e9 1912 morava em um engenho perto de Ar\u00eas e, em seguida, veio morar na Avenida Rio Branco para assistir, naquele ano, pela primeira vez, ao carnaval natalense. &#8220;Era na rua da Palha, hoje Vig\u00e1rio Bartolomeu, arrumada como um verso parnasiano&#8221;. A ruazinha se enfeitava de bandeirolas coloridas e muita palha de coqueiro. No come\u00e7o da rua ficava o coreto com a banda de m\u00fasica. A popula\u00e7\u00e3o toda da cidade &#8211; 20 mil habitantes &#8211; desfilava dia e noite, logo, em busca das batalhas de confete e dos entrudos famosos. Era uma Natal l\u00edrica, engomada nas lapinhas do poeta Itajub\u00e1 e que fazia com que o menino Jaime ficasse apenas de longe vendo papangus e blocos saudosos.\u00a0<\/span><\/p>\n<h2><strong>As batalhas<\/strong><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8220;As batalhas eram feitas atrav\u00e9s de bisnagas e rel\u00f3gios d&#8217;\u00e1gua, carregados de \u00e1gua de cheiro. Depois vieram as &#8220;latranjinhas&#8221;, feitas de cera de carna\u00faba, coloridas, que eram jogadas em desconhecidos, e especialmente, desconhecidos&#8221;. O poeta relembra o primeiro foli\u00e3o importante que conheceu: Cavalcanti Grande, dono do bloco &#8220;Maxixeira&#8221;, que sai \u00e0s 05 horas da manh\u00e3 ainda sob a luz da Estrela Dalva. O bloco madrugador saia do mercad\u00e3o onde foli\u00f5es tomaram uma cachacinha violenta e prodigiosa, sendo que muitos alentos (entusiastas) usavam tapioca com material de &#8220;parede&#8221; (nota do Brechando: pintavam a cara. Tipo a g\u00edria \u2018fazendo reboco na cara\u2019 para se referir que a mulher passou base, p\u00f3 compacto e maquiagem no rosto no geral).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8220;Cavalcanti Grande era realmente um gigante. Morreu de uma pilh\u00e9ria. N\u00e3o dava bom dia nem boa tarde. Em vez dessas sauda\u00e7\u00f5es dizia &#8216;\u00c9 proibido amar?&#8220; &#8216;. E acrescentou que o Clube de Benedito s\u00f3 saia \u00e0 noite, &#8220;Na hora do Bacurau&#8221;. O Clube do Benedito era o mais popular. Ben\u00e9 morava num s\u00edtio fabuloso, no Baldo, passava o ano inteiro a preparar os carant\u00f5es e monstros de papel\u00e3o que formavam a grande atra\u00e7\u00e3o do carnaval natalense em 12. Mas o referido clube, que passava o ano todo na prepara\u00e7\u00e3o, desfilava pela noite como um meteoro. Saindo \u00e0s 06 horas da noite, duas horas depois j\u00e1 estava encerrada sua participa\u00e7\u00e3o. &#8220;Dele ficavam marchinhas que velhos bo\u00eamias ainda sabem lembrar&#8221;.<\/span><\/p>\n<h2><strong>Vassourinhas<\/strong><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Outro bloco inesquec\u00edvel para o poeta Jaime \u00e9 a &#8220;Divis\u00e3o Branca&#8221;, legion\u00e1rios que hoje seriam chamados de Lawrences da Ar\u00e1bia, clube de ricos, todos a cavalo, lanceiros vestidos de branco e culote encarnado, chap\u00e9us de combatente grego. Tinha um chefe audaz e vitorioso: Ber\u00f4ncio Guerra. Sem esquecer, contudo, o humilde clube oper\u00e1rio dos &#8220;Tubar\u00f5es do Norte&#8221;. Mas quem ficou na imagina\u00e7\u00e3o popular &#8211; continuava Jaime- foi o &#8220;Vassourinhas&#8221;, cuja marcha inesquecida para ele, tem estribilho de saudade, cantada depois com &#8220;As Pastorinhas&#8221;. L\u00e1 diziam os vasculhadores nas tardes de carnaval:\u00a0<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400;\">Sempre, sempre em movimento,\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sempre, sempre em movimento,\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00d3 Vassourinhas, varre o ch\u00e3o,\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00d3 Vassourinhas, varre o ch\u00e3o\u2026<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em 1923, Jaime e seu bando da lua cantavam no carnaval a marchinha de Cirineu de Vasconcelos, sucesso da \u00e9poca, principalmente no Redinha Clube.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu quero voc\u00ea pra mim,\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E voc\u00ea sabe porqu\u00ea,\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Voc\u00ea ser\u00e1 toda minha\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E eu todinho de voc\u00ea.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p>&#8220;Das batalhas de \u00e1gua e confete, a mais famosa era a da casa de Ezequiel Wanderley, a chamada a Batalha do Porto Artur. 12 senhoras contra 10 cavalheiros; estes armados de sacos cheios de confete&#8221;, relembra.<\/p>\n<h2><strong>Na Tavares de Lyra<\/strong><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em 24, o carnaval desceu para a Avenida Tavares de Lyra. De onde hoje \u00e9 a esquina do Banco do RGN (Bandern) at\u00e9 o cais: caminho do corso, vinte carros (Ford de bigode) no m\u00e1ximo. As velhas fotografias condizem bem com o tempo de antigamente: os homens, chap\u00e9u panam\u00e1, colarinho duro, palet\u00f3, almofadinha, vendo o corso passar. Os bo\u00eamios, mais pobres, ter\u00e3o uma festa saud\u00e1vel no banho de rio, pulando do cais depois da meia-noite.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8220;As meninas eram magn\u00edficas, davam &#8220;linhas&#8221; a n\u00f3s rapazes. Era o tempo de piscar o olho. Os pais cedem mal em sua severidade e pod\u00edamos pegar na m\u00e3o da donzela. Beleza&#8221; &#8211; exclamou o ex-bo\u00eamio do Majestic.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A bebida era cana &#8220;pur\u00edssima&#8221; de alambique, conhaque Macieira Cinco Estrelas (Importado da Fran\u00e7a), &#8220;meladinhas&#8221; e, para os mais pobres, conhaque &#8220;Arame&#8221;. Carnaval na Avenida era das seis \u00e0s 10 horas da noite. Havia tr\u00eas bondes para a Ribeira e muita gente ficou preocupada em chegar cedo em casa. Do tempo em que chegar cedo em casa era compromisso irrevog\u00e1vel. Sinal de seriedade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Festa do clube s\u00f3 existia uma: no Natal Clube, animado pelo seu presidente, o velho Jos\u00e9 Pinto, gerente de &#8220;A Rep\u00fablica&#8221;, humorista que nunca deixou de fazer quadradinhas debochando dos &#8220;monstros sagrados&#8221; da prov\u00edncia. &#8220;Mas a maior parte das senhoras e senhoritas, homens de responsabilidade, recolhiam-se aos col\u00e9gios de freira para o retiro. Diz-se que o dem\u00f4nio tinha no carnaval sua grande vez de manga. Congregado mariano (Padres) n\u00e3o podia nem ver de longe a folia. Um foi faz\u00ea-lo, olhando as irm\u00e3s Madureira (que eram belas\/ nota do <\/span><b>Brechando<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">: freiras) e um foi expulso com fita azul e tudo&#8221;.<\/span><\/p>\n<h2><strong>Na Vila de Tirol<\/strong><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A grande figura da cidade era, nos idos de 20, o Coronel Cascudo, o homem mais rico e mais importante. Ele tinha uma vila que ocupava um quarteir\u00e3o inteiro no Tirol. O chamado &#8220;Principado do Tirol&#8221;. E seu pr\u00edncipe era Cascudinho, jovial adolescente.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8220;Na Vila Cascudo, Cascudinha reunia dez amigos para o carnaval. Pass\u00e1vamos o dia todo l\u00e1, bebendo o melhor conhaque franc\u00eas e o leg\u00edtimo vinho do Porto. Era tudo magn\u00edfico. S\u00f3 sa\u00edmos a noite no carro &#8220;Page&#8221;, limousine preta, carro de Reis, para a festa de carnaval do Natal Clube. Neste carro, \u00e9ramos donos da cidade, porque foi, at\u00e9 hoje, o autom\u00f3vel mais bonito que chegou aqui&#8221;.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E concluiu: &#8220;Depois, a vila foi vendida, fomos nos separando o tempo engolindo o tempo &#8211; resta a vida e estas lembran\u00e7as que lhe dou de presente&#8221;. Para o poeta Jaime s\u00f3 duram mesmo os hinos do clube &#8220;Maxixada&#8221;, que sa\u00eda de madrugada sob a luz das estrelas.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O carnaval, ap\u00f3s 1 ano de abandono devido \u00e0 pandemia, est\u00e1 de volta. Neste momento, as pessoas est\u00e3o empolgadas com a volta da folia de momo e loucas para enfiar o p\u00e9 na jaca. Mas, como era o carnaval na primeira metade do s\u00e9culo XX? A gente achou uma mat\u00e9ria do Di\u00e1rio de Natal que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":25,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[20],"tags":[3567],"class_list":["post-4007","post","type-post","status-publish","format-standard","category-curiosidades","tag-carnavalcidadeseventosnatal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/brechando.com\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4007","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/brechando.com\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/brechando.com\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/brechando.com\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/25"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/brechando.com\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4007"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/brechando.com\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4007\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/brechando.com\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4007"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/brechando.com\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4007"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/brechando.com\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4007"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}