{"id":3310,"date":"2020-10-05T00:00:00","date_gmt":"2020-10-05T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/homologacao.nerdbug.com.br\/?p=3310"},"modified":"2020-10-05T00:00:00","modified_gmt":"2020-10-05T03:00:00","slug":"eu-ainda-quero-ter-a-vida-sexual-de-cleo-pires","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/brechando.com\/novo\/eu-ainda-quero-ter-a-vida-sexual-de-cleo-pires\/","title":{"rendered":"Eu ainda quero ter a vida sexual de Cl\u00e9o Pires"},"content":{"rendered":"<p>Assim que terminei um namoro de sete anos, um dos textos que publiquei foi um artigo chamado \u201c<a href=\"http:\/\/www.brechando.com\/2017\/10\/artigo-eu-quero-ter-a-vida-sexual-de-cleo-pires\/\">Eu quero ter a vida sexual da Cl\u00e9o Pires<\/a>\u201d. Tr\u00eas anos depois, te digo a seguinte frase: \u201ceu ainda quero ter a vida sexual da Cl\u00e9o Pires\u201d. Recentemente, eu ouvi a frase: \u201cFazia muita piada de duplo sentido e falava demais de sexo\u201d. Isso me deixou irritada pelo machismo. Al\u00e9m disso, eu ouvi indiretamente de um Crush separava as meninas aquelas que mereciam namorar e para fuder.<\/p>\n<p>Fiquei muito puta (desculpa, mas este texto tem palavr\u00e3o), n\u00e3o pelo fato do t\u00e9rmino e sim o machismo. Afinal, o que deveria ser um est\u00edmulo a liberdade feminina virou o pavor de sua masculinidade.<\/p>\n<h2>Deus aben\u00e7oe o feminismo<\/h2>\n<p>Cresci em um ambiente cercado de mulheres, principalmente do lado Paiva da minha fam\u00edlia, que falava de sexo, apesar da fiscaliza\u00e7\u00e3o para saber se todas as mulheres eram virgens.<\/p>\n<p>O bom lado da hist\u00f3ria \u00e9 que minha av\u00f3 quebrou tabus, minha m\u00e3e e minha tia quebraram outros e as netas continuam quebrando, visto que nenhuma delas est\u00e3o casadas ou possuem algum filho. Por\u00e9m, as nossas escolhas individuais s\u00e3o respeitadas, mesmo que eles n\u00e3o gostem.<\/p>\n<p>H\u00e1 anos tenho uma luta di\u00e1ria chamada liberdade em cultuar o meu corpo. N\u00e3o importa que eu vista 36 ou 46, eu quero venerar meu corpo e sentir orgulhosa e bonita, al\u00e9m de ter uma grande prazer em se conhecer e ter o direito de liberdade sexual.<\/p>\n<p>Nestes 10 anos, passei por muitas mudan\u00e7as corporais das mais diversas poss\u00edveis, no qual a medida que havia uma mudan\u00e7a, menos refer\u00eancia de pessoas parecidas comigo no cotidiano. No entanto, eu e outras mulheres fomos ensinadas a seguir um padr\u00e3o \u00e9 uma f\u00f3rmula pronta. Infelizmente sacrificamos a nossa sa\u00fade para seguir um controle de um corpo que muitas vezes n\u00e3o tem nada a ver com o nosso biotipo.<\/p>\n<h2>Meu corpo, minhas regras funciona mesmo?<\/h2>\n<p>Inicialmente achei que era paranoia que isso tinha a ver com o patriarcado, mas a medida que a gente fica mais velho e ver que as pol\u00edticas p\u00fablicas s\u00e3o decididas em sua maioria por homens, voc\u00ea ver que aquele argumento paranoico tem sentido.<\/p>\n<p>Se <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Fzd3PM_BqxI\">hoje a gente acha absurdo o Jos\u00e9 Serra falar em 98 que Xuxa n\u00e3o era exemplo por ser uma m\u00e3e solteira<\/a>, imagine que at\u00e9 hoje que mulheres com classes sociais de todos os tipos s\u00e3o consideradas esc\u00e1rnio da sociedade por n\u00e3o seguir o padr\u00e3o namorar&gt;casar&gt;filho.<\/p>\n<p>Xuxa quis ter filho com peguete e isso n\u00e3o tem algum problema. Al\u00e9m disso, ela \u00e9 a dona do pr\u00f3prio corpo e tinha poder para isso.<\/p>\n<p>N\u00e3o importa se eu tenho parceiro fixo ou casinho, o importante \u00e9 eu impor o que me d\u00e1 prazer. N\u00e3o s\u00f3 no sexo, mas tamb\u00e9m por toda a minha vida.<\/p>\n<p>Desde sempre a Educa\u00e7\u00e3o Sexual \u00e9 vista como tabu, pois se acredita que isso incentiva os jovens a correr atr\u00e1s da elimina\u00e7\u00e3o de uma virgindade. No entanto, esse argumento muitas vezes \u00e9 uma forma de ocultar que isso seria a chave para acabar com casos de pedofilia e ass\u00e9dio sexual.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a priva\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 uma forma de prender a mulher e um controle do patriarcado para controlar os seus corpos. Assim, aquela liberdade sexual que a gente ver no porn\u00f4 \u00e9 tudo balela, porque aquilo que estamos vendo \u00e9 a vis\u00e3o de um diretor. Geralmente homem, no qual quer controlar as pessoas sobre sexo. Ou seja, a atriz porn\u00f4 tem seu corpo como propriedade das produtoras de porn\u00f4.<\/p>\n<h2>O Machismo nosso de cada dia<\/h2>\n<p>Por isso, \u00e9 muito comum em ouvir coisas como:<\/p>\n<p>1. Homem procura prostituta porque a mulher dele n\u00e3o fez o que ele queria na cama.<\/p>\n<p>2. Mulher s\u00f3 leva chifre porque est\u00e1 errada.<\/p>\n<p>3. A mulher n\u00e3o pode questionar o sexo.<\/p>\n<p>Claro que esses argumentos s\u00e3o balelas, mas est\u00e3o t\u00e3o enraizado na nossa cultura que com certeza voc\u00ea j\u00e1 ouviu isso. Seja de uma m\u00e3e ou av\u00f3 falando daquela prima que levou uma galha gigante.<\/p>\n<h3>Mas vem o seguinte questionamento: afinal os nossos corpos pertencem a gente?<\/h3>\n<p>A pesquisadora L\u00facia Scavone, em artigo publicado na Universidade Federal Fluminense (UFF), de Niter\u00f3i (RJ), fez um estudo a partir de um discurso do que seria o novo feminismo. As pautas que s\u00e3o debatidas na vida da mulher est\u00e3o cada vez mais aumentando.<\/p>\n<p>Ela diz:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cConstituir-se em sujeito de direito, n\u00e3o foi (\u00e9) o suficiente para ultrapassar a domina\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que \u201clevar a identidade corporificada a s\u00e9rio requeria o abandono do indiv\u00edduo masculino unit\u00e1rio, a fim de abrir espa\u00e7o para duas figuras: uma masculina, outra feminina\u201d (PATEMAN, 1993, p. 329). Isto implicava, tamb\u00e9m, confrontar-se com os pr\u00f3prios limites da lei, do poder institu\u00eddo e das rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o e, posteriormente, do reconhecimento das identidades n\u00f4mades e contingentes. O desencadeamento das pr\u00e1ticas de liberdade, expressas nas a\u00e7\u00f5es feministas apontadas, contribu\u00edram para o reconhecimento social e jur\u00eddico da mulher como sujeito pol\u00edtico e de direitos, que, ali\u00e1s, ainda n\u00e3o se realizou em escala planet\u00e1ria\u201d (p. 10).<\/p>\n<\/blockquote>\n<h3>Sim, o que ela quis dizer com isso?<\/h3>\n<p>L\u00facia mostrou que essa pauta da liberdade de escolha dos nossos corpos, principalmente a mulher brasileira ainda \u00e9 um assunto sem resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00f3 para voc\u00eas tem uma ideia, o aborto para beb\u00eas anenc\u00e9falos e v\u00edtimas de estupro s\u00f3 surgiu em meados de 2010. O atendimento de risco entre a m\u00e3e e o feto na d\u00e9cada de 80.<\/p>\n<p>O uso do contraceptivo ainda \u00e9 visto como mal.<\/p>\n<p>Isto mostra que ainda n\u00e3o temos uma liberdade no nosso corpo, ainda querem julgar como gozamos, o que falamos, qual contraceptivo que devo tomar e o pior, escolher como me comporto diante da sociedade.<\/p>\n<h2>N\u00e3o se culpe, revolte-se<\/h2>\n<p>Mulheres, ao ler essas declara\u00e7\u00f5es, a vontade \u00e9 se culpar por querer ser quem \u00e9. Por\u00e9m, precisamos debater e expor mais esses assuntos com a finalidade de comentar o que a mulher pode e n\u00e3o pode fazer.<\/p>\n<p>Percebe-se, portanto, uma necessidade de dar \u00e0 mulher autonomia sobre seu corpo, para que possa, por meio da autodetermina\u00e7\u00e3o, usufruir de sua escolha moral.<\/p>\n<p>Finalizo o meu texto com um trecho da Advogada M\u00f4nica Ribeiro:<\/p>\n<blockquote><p>Esse caminho \u00e9 da culpabiliza\u00e7\u00e3o por uma situa\u00e7\u00e3o em que, em verdade, a mulher \u00e9 a v\u00edtima, colocando em risco a provedora \u2013 que \u00e9 a mulher, em grande maioria dos lares do Brasil.<\/p>\n<p>Di\u00e1logo e pol\u00edticas p\u00fablicas<\/p>\n<p>Pressuposto que as leis s\u00e3o escritas com base nos costumes da sociedade, e a postura feminina hoje reflete a domina\u00e7\u00e3o masculina, podemos afirmar que existe uma domina\u00e7\u00e3o institucionalizada.<\/p>\n<p>Uma vez imbu\u00edda da decis\u00e3o de abortar, dever\u00e1 ent\u00e3o o Estado reconhece-la como leg\u00edtima para respaldo de garantias e preserva\u00e7\u00e3o da integridade f\u00edsica, ps\u00edquica e moral, pensando numa justi\u00e7a inclusiva e abrangente, sem marginaliza\u00e7\u00e3o pautada em religi\u00e3o, patriarcado ou desigualdade.<\/p>\n<p>Percebemos que o valor atribu\u00eddo aos corpos, \u00e0 vida e consequ\u00eancia disso, a proibi\u00e7\u00e3o do aborto, d\u00e1-se em consequ\u00eancia da cultura, das cren\u00e7as reproduzidas.<\/p>\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Assim que terminei um namoro de sete anos, um dos textos que publiquei foi um artigo chamado \u201cEu quero ter a vida sexual da Cl\u00e9o Pires\u201d. 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