{"id":2536,"date":"2019-05-07T00:00:00","date_gmt":"2019-05-07T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/homologacao.nerdbug.com.br\/?p=2536"},"modified":"2019-05-07T00:00:00","modified_gmt":"2019-05-07T03:00:00","slug":"renda-de-bilros-o-bale-que-sai-das-maos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/brechando.com\/novo\/renda-de-bilros-o-bale-que-sai-das-maos\/","title":{"rendered":"Renda de bilros: O bal\u00e9 que sai das m\u00e3os"},"content":{"rendered":"<p class=\"yiv3459008181MsoNormal\" style=\"text-align: justify\">O barulho seco das bobinas de madeira lembra um sapateado. Mas, nesse caso, os movimentos n\u00e3o saem dos p\u00e9s, e sim das m\u00e3os. A plataforma de dan\u00e7a \u00e9 uma almofada cil\u00edndrica e os movimentos n\u00e3o revelam passos, e sim formas das mais delicadas, originadas pelo bal\u00e9 de m\u00e3os de pessoas como dona Maria de Lourdes de Lima, ou &#8220;V\u00f3 Maria&#8221; como \u00e9 mais conhecida, a principal respons\u00e1vel pela manuten\u00e7\u00e3o das rendas de bilro feitas em Ponta Negra. Aos 83 anos, ela segue firme nesse of\u00edcio que corre risco de se perder na tradi\u00e7\u00e3o que \u00e9 t\u00e3o antiga quanto a coloniza\u00e7\u00e3o brasileira feita pelos portugueses, j\u00e1 que foram as mulheres d\u00b4Al\u00e9m mar que trouxeram essa trama artesanal para o Brasil.<\/p>\n<p class=\"yiv3459008181MsoNormal\" style=\"text-align: justify\">A artesania de V\u00f3 Maria foi heran\u00e7a de uma curiosidade infantil. Ela lembra que ainda bem menina observava com bastante aten\u00e7\u00e3o as mulheres rendeiras. A m\u00e3e, percebendo seu interesse e vendo que ela trocava facilmente as brincadeiras infantis por ficar assistindo aquele bal\u00e9 de m\u00e3os, pagou uma pessoa para que ela aprendesse.<\/p>\n<p class=\"yiv3459008181MsoNormal\" style=\"text-align: justify\">\u201cComecei a fazer renda aos sete anos de idade. De l\u00e1 para c\u00e1, n\u00e3o parei mais. Em menos de um m\u00eas eu aprendi a fazer as rendas. Minha primeira pe\u00e7a tinha dez metros. Meu pai levou para a praia e l\u00e1 vendeu por um cruzado. Eu n\u00e3o sei quanto isso valeria hoje. Mas minha m\u00e3e comprou roupas e cal\u00e7ados pra gente, com aquele dinheiro\u201d, relembra a rendeira mais antiga da cidade e respons\u00e1vel pela cria\u00e7\u00e3o do N\u00facleo de Produ\u00e7\u00e3o Artesanal das Rendeiras de Ponta Negra no qual, esporadicamente, faz cursos para pessoas interessadas em aprender um pouco de sua arte. Nessas aulas, elas aprendem n\u00e3o s\u00f3 a conduzir os bilros, mas tamb\u00e9m a elaborar os moldes (chamados de pique) que ajudam no processo criativo.<\/p>\n<p class=\"yiv3459008181MsoNormal\" style=\"text-align: justify\">Olhando \u00e0 volta, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil perceber que as rendeiras de Ponta Negra correm risco de extin\u00e7\u00e3o. Mas, enquanto pessoas como V\u00f3 Maria repassarem esse of\u00edcio, h\u00e1 esperan\u00e7a de revitaliza\u00e7\u00e3o. Durante todas as tardes, depois da hora do almo\u00e7o, na Tapiocaria da V\u00f3, estabelecimento do filho dela, as rendeiras de Ponta Negra se encontram para fazer o seu trabalho. S\u00e3o aproximadamente dez pessoas trabalhando e montando redes, roupas, panos de mesa, dentre outros materiais, com produtos que variam de pre\u00e7os entre R$ 150 a 300. Tanto as rendas quanto o material de produ\u00e7\u00e3o s\u00e3o vendidos no local, que recebe visita tanto de nativos, quanto de turistas.<\/p>\n<p class=\"yiv3459008181MsoNormal\" style=\"text-align: justify\">No N\u00facleo, afora os cursos, as pessoas ainda podem comprar as almofadas e os bilros para come\u00e7ar a trabalhar em casa, em tempos que a popularidade do \u201cfa\u00e7a voc\u00ea mesmo\u201d (\u201cDo It Yourself\u201d) est\u00e1 em alta. Tanto as rendas quanto o material de produ\u00e7\u00e3o s\u00e3o vendidos bastante visitada pela vizinhan\u00e7a e turistas.<\/p>\n<p class=\"yiv3459008181MsoNormal\" style=\"text-align: justify\">Enquanto elas v\u00e3o chegando, o neto de V\u00f3 Maria, Gustavo, ajuda a encher as almofadas com folhas de bananeira. \u201cPorque ela demora para ressecar e \u00e9 mais resistente\u201d, explica o jovem que viu desde pequeno a av\u00f3 trabalhando e ensinando as outras pessoas. \u201c\u00c9 uma forma de distrair a cabe\u00e7a, conversar sobre os diversos assuntos, observar a vizinhan\u00e7a e, o mais importante, fazer a renda\u201d, complementa a av\u00f3.<\/p>\n<p class=\"yiv3459008181MsoNormal\" style=\"text-align: justify\">Josefa Lima, conhecida como D. Zefinha, trabalha com artesanato desde muito cedo. Mas fazia coisas mais simples. \u201cNo come\u00e7o fazia com agulha de croch\u00ea, aprendido com a minha m\u00e3e. S\u00f3 depois vieram os bilros. Com dona Maria (V\u00f3 Maria) estou h\u00e1 15 anos, e comecei a fazer blusa, vestido e camiseta\u201d. Uma poss\u00edvel herdeira desse of\u00edcio, Zefinha lamenta que as pessoas n\u00e3o valorizam essa \u201carte\u201d e comenta que \u201cs\u00f3 querem saber apenas de zap-zap (nome popular para o aplicativo Whatsapp). \u201cAs pessoas acham o nosso produto muito caro, mas n\u00e3o sabem o quanto de trabalho d\u00e1 para fazer uma pe\u00e7a, principalmente \u00e0 m\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"yiv3459008181MsoNormal\" style=\"text-align: justify\">Infelizmente as pessoas s\u00f3 querem saber dos produtos industrializados. Mas, eu fa\u00e7o aqui por amor, amo o meu trabalho e fico bastante feliz quando algu\u00e9m os compra\u201d. Ao ser questionada se j\u00e1 tentou ensinar aos seus filhos, ela prontamente respondeu: \u201cNenhum dos meus filhos quis saber de renda\u201d.<\/p>\n<p class=\"yiv3459008181MsoNormal\" style=\"text-align: justify\">Apesar do des\u00e2nimo, ela adora mostrar o seu trabalho e dividir os ensinamentos. Com uma linha, a mesma utilizada para fazer croch\u00ea, ela enrola nos bilros (um conjunto de quatro bilros se chama par) e depois gruda com alfinetes o desenho da renda. Tamb\u00e9m com alfinetes, Zefinha demarca os pontos.&nbsp; Ent\u00e3o, come\u00e7am os trabalhos.<\/p>\n<p class=\"yiv3459008181MsoNormal\" style=\"text-align: justify\">Os pontos mais comuns s\u00e3o tra\u00e7a e tran\u00e7a. S\u00e3o quase a primeira e a segunda posi\u00e7\u00e3o do bal\u00e9 da renda. O primeiro citado recebe este nome porque os bilros ficam cruzando entre si. \u201cEle tra\u00e7a um ao outro, um bilro vai para frente e outro para tr\u00e1s\u201d, contando. J\u00e1 a tran\u00e7a por sua vez, funciona que nem uma tran\u00e7a no cabelo. Ainda tem o pano e o centro.<\/p>\n<p class=\"yiv3459008181MsoNormal\" style=\"text-align: justify\">Para fazer uma blusa, por exemplo, Zefinha divide o trabalho em oito partes (n\u00e3o necessariamente do mesmo tamanho) para fazer a parte da frente e mais oito de tr\u00e1s.&nbsp; Depois, ela junta tudo e a blusa fica pronta. \u201c\u00c9 bastante trabalhoso, isso demora mais ou menos um m\u00eas para ficar pronto\u201d, explicou.<\/p>\n<p class=\"yiv3459008181MsoNormal\" style=\"text-align: justify\"><b>Bendito o fruto<\/b><\/p>\n<p class=\"yiv3459008181MsoNormal\" style=\"text-align: justify\">Jo\u00e3o Kleber, 28, \u00e9 o \u00fanico homem que faz renda na Vila de Ponta Negra e ajuda a fazer o acabamento dos produtos. Apesar de ver a tia e a av\u00f3 trabalhando com a arte, ele s\u00f3 come\u00e7ou a aprender quando ficou desempregado. Ele viu a renda como uma forma de descansar a mente e ganhar dinheiro, \u201cSou aqui \u2018o bendito \u00e9 o fruto entre as mulheres\u201d, brincou o jovem que est\u00e1 h\u00e1 dois anos como rendeiro.&nbsp; Ao ser questionado se existe um ponto mais f\u00e1cil de fazer, Kleber fez ar solene: \u201cAqui nada \u00e9 f\u00e1cil, mas com a pr\u00e1tica a gente aprende\u201d, disse ele, admitindo que j\u00e1 ouviu algumas \u201cpiadas\u201d pelo fato de ser o \u00fanico homem da turma. \u201cEu n\u00e3o ligo, porque o importante \u00e9 arranjar trabalho e n\u00e3o ficar de bobeira nas ruas\u201d. Sem contar que desde que come\u00e7ou a fazer as rendas com as amigas rendeiras, Kl\u00e9ber passou a perceber que l\u00e1 \u00e9 um espa\u00e7o bastante democr\u00e1tico. \u201cAqui n\u00e3o tem restri\u00e7\u00e3o de cor, defici\u00eancia ou credo, aqui mostra que todo mundo pode trabalhar. D. Maria Francisca, por exemplo, uma de nossas rendeiras, \u00e9 surda, n\u00e3o fale e, mesmo assim, faz lindas rendas. Aprendeu vendo as outras\u201d, disse.<\/p>\n<p class=\"yiv3459008181MsoNormal\" style=\"text-align: justify\">Luana da Silva, funcion\u00e1ria da Tapiocaria, d\u00e1 suporte para as rendeiras no caso precisarem de uma \u00e1gua ou outras necessidades. A conviv\u00eancia di\u00e1ria n\u00e3o lhe tirou o encanto de ver as pe\u00e7as sendo elaboradas. \u201cEu acho interessante como elas conseguem encontrar os pontos entre os milhares de bilros. Todos os dias me encanto com a beleza dos pontos e o trabalho final. \u00c9 gratificante trabalhar aqui e poder ter o contato todo dia com essas mulheres maravilhosas\u201d, contou.<\/p>\n<p class=\"yiv3459008181MsoNormal\" style=\"text-align: justify\"><b>Tradi\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p class=\"yiv3459008181MsoNormal\" style=\"text-align: justify\">Alguns atribuem a tradi\u00e7\u00e3o \u00e0 It\u00e1lia ou Fran\u00e7a. Ainda existem vers\u00f5es que pa\u00edses como Inglaterra, Espanha e B\u00e9lgica, conduziram a t\u00e9cnica para o restante da Europa. Mas o que se sabe \u00e9 que foram as portuguesas quem trouxeram essa t\u00e9cnica para o Brasil.<\/p>\n<p class=\"yiv3459008181MsoNormal\" style=\"text-align: justify\">Em Portugal, a palavra \u201crenda de bilros\u201d teria surgido por volta de 1560, no reinado de Dom Sebasti\u00e3o. Durante muito tempo, esta arte s\u00f3 foi praticada nos conventos e sua utilidade \u00fanica era ornamenta\u00e7\u00e3o de igrejas e das vestes eclesi\u00e1sticas. No Brasil, a t\u00e9cnica foi trazida pelas portuguesas como uma forma de entretenimento para as mulheres, enquanto os maridos trabalhavam. Aqui, o artesanato da renda foi bastante difundido pelo litoral brasileiro e no Sert\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"yiv3459008181MsoNormal\" style=\"text-align: justify\">Al\u00e9m do Rio Grande do Norte, outros estados da regi\u00e3o Nordeste tamb\u00e9m s\u00e3o reconhecidos produtores de rendas de bilros, a exemplo de Alagoas, Pernambuco, Para\u00edba, Cear\u00e1 e Maranh\u00e3o, Sergipe, Piau\u00ed e Bahia. Na regi\u00e3o sudeste destaca-se o Rio de Janeiro, mais precisamente a cidade de Cabo Frio. No Sul do Brasil, o Estado de Santa Catarina se sobressai, mas h\u00e1 registros ainda de produ\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m no Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>*Texto que fiz para a revista Brouhaha, publicada em novembro de 2017, editada pela Secretaria de Cultura de Natal<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O barulho seco das bobinas de madeira lembra um sapateado. 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