
Andei por três eventos da cena musical potiguar no mês passado e o que o vi e ouvi me trouxeram algumas sensações e reflexões sobre rock, cena e (cof! cof!) velhice que gostaria de partilhar com meus parcos leitores.
O périplo começou em 8 de março, no DoSol, para uma etapa de shows do projeto Pensando Música, mas que eu perdi a parte do Pensando e fiquei só com a Música.
Estavam escalados praquela noite Júlio Lima, The Sinks, Bixanu, Caridea e Flau Flau, de João Pessoa, que apesar do nome sensacional eu não conhecia. O DoSol é provavelmente o melhor lugar pra ouvir música no Rio Grande do Norte há, pelo menos, 20 anos. Com isso, não quero desmerecer outros picos, como o Backstage ou o Black Hole, por exemplo, mas o DoSol tem se mantido como um referencial na cidade em termos de curadoria, organização, preço e outras mumunhas.
O rock é coisa do século 20, mas de vez em quando engana alguns jovens incautos, e as redes sociais têm fortalecido a criação de fandoms em torno de bandas iniciantes, ou na consolidação de iniciativas que já contam com alguma estrada.
É o caso, por exemplo, das bandas Bixanu e Caridea, que eu já havia visto no próprio DoSol numa oportunidade anterior. Os boys da Bixanu já tão aí com uma década de rock – o que pro meu patamar ainda é pouco, mas que já os coloca ali numa posição de semiveteranos. Eles arrastam, atrás de si, sempre uma multidão de jovens (multidão pq a sala de concertos do DoSol lota com 50 pessoas).

Agora, no entanto, chegou meu momento de

porque a boyzada tinha a oportunidade de ouro de conhecer dois (aí, sim) veteranos da cena local.
Júlio Lima está com um trabalho cada vez mais maduro e uma sonoridade cada vez mais rocker no seu pop panfletário. Trouxe algumas canções antigas, da época em que eu ainda fazia o MPBeco junto Dorian Lima e Júlio Pimenta, e um material novo, com uma banda azeitadíssima, na parceria que ele criou com Diego Francisco e rendeu um álbum da dupla no ano passado.
The Sinks, por sua vez, é um dos 125 projetos paralelos de Ana Morena e Anderson Foca, já vai com cinco álbuns gravados e tem uma estrada que merece respeito. (Aliás, valeu, Anderson, pela lembrança boa da entrevista que eu e Jesuíno André fizemos com Sandra Coutinho em nosso podcast MeuSons).

Apesar da casa cheia, boa parte do público preferiu ficar de fora destes dois shows para prestigiar apenas o que era de seu interesse. Que vacilo, garotada. No meu tempo de boy, eu ficava de bobeira em ver veteranos como Modus Vivendi, de Carito, ou o Gato Lúdico, de Vicente Vitoriano, pela primeira vez. Foram performances que marcaram minha formação musical.
Mas a gente vai ficando velho e parece que hoje a cena não comporta mais reverências a quem está há mais tempo na grande máquina de moer egos que é a música. Umas sete almas conferiram Júlio Lima e um pouco mais do dobro disso ficou para o The Sinks. De bestas que são.
Infelizmente, a idade e seus compromissos impediram que eu e Alexandre Honório ficássemos para os shows de Caridea e Flau Flau. Ou seja, vou continuar sem conhecer os caras de JP.
Na semana seguinte, rolou um bate-papo na Nobel do Praia Shopping sobre música e literatura, promovido pela Rede Potiguar de Música, que, pelo que tenho ouvido falar, nos últimos anos se resumiu a Esso Alencar e Vlamir Cruz. O nível foi altíssimo e apareceu muita gente massa, mas acho que a mais jovem no pedaço era a poeta Drika Duarte, que surgiu na cena ali pelos meados dos anos 2000 junto com Letto, no Elegia e seus Afluentes.
O que nos leva ao terceiro rolé, o primeiro dia do Rock Cordel, em 28 de março, que reuniu, digamos assim, três momentos, ou gerações, da cena local. Primeiro, foi o show do Truve, de quem nunca tinha ouvido falar, mas que tinha um fandom que até cantava junto, mesmo com a banda tendo apenas um EP lançado.

O som lembra um pouco o indie avant-garde do qual a música potiguar já teve bons nomes, como Automatics, Zarathustra e Bugs, bandas das quais, inclusive, duvido muito que os meninos do Truve já tenham ouvido falar. O vocalista não tem medo de soltar a voz, algo raro de ser ver na cena local, e, quando eles estiverem mais maduros sonoramente, com certeza vão dar muito trabalho.
Em seguida, Gracinha trouxe o seu pop experimental afiado. Acho que eles provavelmente estão no seu auge criativo e performativo, porque foi um show de encher os olhos e os ouvidos.

Por fim, o revival de Talma&Gadelha, projeto que praticamente marcou o início de uma nova fase no poptiguar e que volta agora tão bom quanto sempre foi, acompanhados de Ives, Ana Morena e Tiago Andrade, guitarrista residente do DoSol.

Muito interessante notar como cada iniciativa tem seu fandom próprio, apesar de o de Gracinha se confundir um pouco, temporalmente, com o de Talma&Gadelha. Mas é como se cada um ocupasse sua pista na estrada do tempo da música potiguar e os públicos pouco se misturassem.
Ao que me parece, a formação de público nos espaços de circulação musical da cidade não tem se preocupado em cativar na juventude o interesse por nossa história musical. Lembro, por exemplo, que o Festival DoSol até escalou, em edições passadas, veteranos como João Donato ou Ave Sangria. Este último show eu vi, mas era num horário inglório, tipo 18h ou 19h, que não dava o devido status ao tamanho do legado do Ave. Não sei se com João Donato foi assim.
Mas isso é apenas uma tergiversação. Não sei, nem tenho ideia de como corrigir esse desinteresse da galera nova pelo que é antigo ou velho. O que posso é reclamar.
maluvidos
Dona Clô
Está chegando à reta final o financimento coletivo do novo livro de Clotilde Tavares, escritora buliçosa que agora envereda pelos contos em Instruções para Sair à Luz do Dia. Ainda dá tempo de ir lá no Catarse pra garantir o seu exemplar na pré-venda. Quando Clotilde publica qualquer coisa, a gente precisa parar, comprar um exemplar e prestar atenção.
Ruínas
Disso Natal entende. Passei esse dias em frente à antiga casa do saudoso poeta Zé Saldanha, em Candelária, ali por trás do Natal Shopping. O lugar, onde era possível beber uma geladinha jogando uma sinuca e comprar os cordéis do velho “Repórter do Povo”, hoje é só uma pintura desgastada na parede.

História da cegueira
Nossos planos diabólicos com Lara Paiva previam uma periodicidade semanal para esta coluna. Porém, o pobre articulista descobriu um princípio de catarata em suas vistas cansadas e passará por cirurgia ainda esta semana. Então, infelizmente, deixaremos para nos rever apenas na segunda quinzena de maio.
Inté.

