
Começo hoje a ocupar este espaço no Brechando, depois de ter feito um convite com ares de ameaça à queridona Lara Paiva para que ela me deixasse escrever aqui, para falar de coisas da terra, mas também de alhures. Retornar a Natal, depois de 16 anos na ponte aérea com João Pessoa, me deu vontade de retomar o convívio com a cidade e, por que não?, meter meu bedelho no que ando acompanhando e, principalmente, lendo.
A cidade também me enche de nostalgia, de fatos que vivi, que ouvi falar, de pessoas que conheci, convivi, amei. Uma delas, claro, é meu pai, Carlão de Souza. Daí a pequena homenagem que resolvi fazer, ao tomar emprestado o nome da coluna que ele escreveu durante vários anos na Tribuna do Norte para batizar este meu pequeno recanto da internet.
Sempre achei muito engraçado a coluna dele se chamar “livros e cultura”, porque parecia à primeira vista que livro e cultura eram coisas separadas, distintas, o que era pra mim um contrassenso. Depois, percebi se tratar de uma desculpa do velho safado para falar de outras coisas além do objetivo principal que ele havia arrumado para conseguir o espaço. Ou seja, um migué.
Além disso, a cidade passou a me dar uns toques sobre essa ideia de voltar a colaborar na imprensa local. O primeiro deles foi uma ligação de Abimael Silva, do Sebo Vermelho, um parceiro de longa data tanto meu como de papai, e com quem eu não conversava direito desde abril do ano passado. Frescuragem de amantes antigos.
Ele me convidava para retomarmos nossa parceria com a editora Sebo Vermelho (há mais de 20 anos ajudo Abimael revisando e preparando textos em sua tarefa hercúlea de manter viva a memória material potiguar) e, para isso, me chamou ao lançamento (no sábado, 14/3) de Alguns Livros Potiguares 2, de Chumbo Pinheiro, a quem não conhecia, mas cujo nome não me era estranho.
Para minha surpresa, o livro era dedicado, vejam só, à memória de Carlão e de Nelson Patriota, dois críticos literários que, cada um a seu jeito, contribuíram para um campo tão pouco ocupado na vida intelectual da província. Que bacana!

Na hora de pegar meu autógrafo, me apresentei como filho do homem. Pinheiro deu uma estremecida e confessou que se emocionou ao descobrir isso. Perguntei, então, como ele havia conhecido Carlão. Ele me disse que nunca teve o privilégio de encontrá-lo pessoalmente, mas que papai tivera um papel crucial em sua jornada como crítico literário iniciante.

Acontece que Chumbo colaborava com Thiago Gonzaga no finado blog 101 Livros do RN (que você precisa ler), isso ali pelo começo dos anos 2010, resenhando leituras que ambos vinham fazendo. Os dois, aficionados por literatura, se conheceram no trabalho, como garis, e descobriram a paixão em comum por uma boa leitura. Depois, Gonzaga se tornaria um sério estudioso da literatura local, com doutorado na área defendido ano passado, e Pinheiro (na verdade, um pseudônimo para Luís Pereira da Silva) enveredaria pelas Ciências Sociais.
Em 2014, Pinheiro reuniu 33 daquelas resenhas e publicou Alguns Livros Potiguares. O livro, tadinho, foi analisado pela lupa às vezes cruel de Nelson Patriota, que reconheceu a paixão do autor pela literatura, mas percebeu um certo amadorismo, bem como fragilidades em sua visada sobre os escritos locais.
Magoado com a crítica, Pinheiro pensou em abandonar a empreitada de escrever sobre escrever, mas disse que repensou a decisão ao ler um breve comentário encorajador de Carlão em sua coluna da Tribuna. E me falou que, desde então, ele passou a abrir espaço ocasionalmente para as resenhas de Chumbo em sua coluna, o que reanimou o resenhista ainda mais. Daí a gratidão e a dedicatória no segundo volume.
No dia seguinte, recebi mensagem de meu irmão Adriano falando sobre Agnaldo França, o Naldo, nosso amigo de infância no conjunto Panatis, na Zona Norte de Natal. Naldo entrara em contato com meu irmão para saber notícias minhas, pois há alguns anos não nos falávamos e ele estivera na antiga casa da família – e lá encontrou uma raridade que o emocionou.
Corria o ano de 1999 e eu começava minha carreira jornalística como diagramador no Diário de Natal, uma forma que papai arranjara de diminuir as despesas em casa, uma vez que minha filha Helena estava pra chegar a qualquer momento e eu, ainda calouro na UFRN, não tinha um pau para bater num doido (coisa, aliás, que eu jamais faria, quero deixar claro).
Era, ainda, o ano do quarto centenário da cidade e, como parte das comemorações, o Diário de Natal publicava diariamente uma seção chamada “Crônicas Natalenses”, com relatos de moradores sobre sua vida na cidade. O espaço era ocupado, majoritariamente, pela nobre e fina flor da burguesia local e suas lembranças festivas cheias de riquififes.
Já os França, por sua vez, eram uma família humilde e bastante trabalhadora, que se alojaram numa casa toda ainda por fazer na até hoje longínqua Zona Norte, após o patriarca, Seu Aprígio, perder quase tudo com o confisco da poupança promovido no governo Collor. A família era numerosa, oito filhos, e todos eram muito bem criados por dona Mariquinha, esposa de seu Aprígio. Jogamos muita bola na rua de paralelepípedos que separava a casa deles da nossa, eu, meu irmão, Naldo e os irmãos mais novos dele: Val e Leandro. Deixei por lá diversos pedaços do couro dos meus pés.
Geomar, um dos irmãos mais velhos de Naldo, era, em 99, motorista do Diário de Natal e as “Crônicas Natalenses” saíam no caderno “Muito”, de cultura, que era editado por papai. Tímido, Geomar ficou receoso de falar com os editores, mas se lembrou de nossa proximidade e me pediu um favor: seria possível publicar uma carta de dona Mariquinha naquele espaço?
Missão dada, missão cumprida: passei o relato a papai, que, em 22 de dezembro daquele ano, portanto às vésperas do aniversário da cidade, publicou a memória de dona Mariquinha, ou melhor, Maria da Apresentação Silva de França, filha do bairro do Alecrim. Segue o texto bacaninha demais que ela escreveu (e que a família autorizou que eu reproduzisse):
Lembranças da cidade antiga
Maria da Apresentação Silva de França*
No auge dos 400 anos de Natal, é com alegria e satisfação que relato minha infância, e hoje aos meus 62 anos, agradeço a Deus por fazer parte desta história de Natal, Cidade Presépio em que se comemora o nascimento do menino Jesus. Vamos juntos pedir por todos os irmãos unidos em uma só oração: que Ele nos abençoe lá no céu. Feliz Natal!
Nasci na Avenida 1 próximo à avenida 7, na época não tinha energia elétrica, eu era muito chorona e à noite meu pai colocava um cordão na rede, que ia até o dedo pé para me balançar.
Certa noite o cordão pegou fogo no candeeiro e o cansaço de minha mãe e pai, o sono deles era profundo, impediu que eles dessem conta do fogo. A minha chegada ao mundo foi muito, muito cheia de alegria e especial, para minha avó e tios, tias, todos moravam na mesma casa.
Todos dormiam quando acordaram pelas labaredas do fogo dentro de casa. Todos gritando e meu pai e mãe não acordavam. Eles bateram na porta e nada de acordar meus pais. Todos me procurando e não me encontravam. Minha tia pisou numa coisa mole. Lá estava eu com os olhos verdes olhando pro fogo. O pavor foi grande mas a alegria foi eu estar viva, e com o aconchego de todos agradecendo a Deus por eu estar sã e salva.
Com poucos dias de nascida e do acontecido, fomos morar na Av. Alexandrino de Alencar, que era só de sítios. Poucas pessoas moravam onde hoje é a mais bela avenida em Natal. Tinha a vacaria do Sr. Pedro Clementino e família; Mercearia do Sr. Nezinho e família; Sr. Haroldo e filhos; D. Ana, professora, e família. Na Avenida 6 ficava o sítio do Dr. Choque, hoje posto de gasolina e as casas que pertencem à Marinha. Moravam no local o Sr. Luiz e família, Sr. Pascoal e família; Sr. Justino e família e tantos outros que me falham a memória.
Tudo era areia, energia não tinha, só o firmamento com sua luz divina. E as serenatas dos jovens apaixonados. Na Jaguarary, moravam João Nepomuceno e família. Luiz, este trabalhava na Força e Luz, quando se fez presente a companhia. Foi uma festa a energia.
Sr. Sautino Pedreiro, Dr. Julio Régis, Artur (Buchudo) como era conhecido e querido por crianças, velhos e adultos por sua maneira de tratar as pessoas. Ninguém morre quando permanece vivo no coração dos seus entes queridos.
O sítio que pertencia a ele tinha um cacimbão. Na época a água era a fonte que se tinha. Ele era funcionário da Prefeitura, gostava de andar a cavalo com os amigos. Tinha vários jericos. A Rádio Poti tinha o locutor Luiz Cordeiro que em época do Carnaval pedia o jerico emprestado para fazer o bloco. Era muito engraçado. Lembro de Genar Wanderley, com seu programa Domingo Alegre, o locutor Paulo Câmara, Ademir Ribeiro e tantos outros que faziam as novelas no Rádio. Lembro também da cantora Glorinha Oliveira.
Lembro da Igreja S. Pedro, que tinha missa às 4h30 da manhã, celebrada pelo padre Martinho. O abrigo Juvino Barreto com os velhinhos, as freiras que cuidavam. O orfanato onde as freiras tomavam conta das meninas. No fim do ano tinha exposição feita pelas crianças e jovens que tinham mãos de fada, com seus trabalhos, pescarias e dramatização que encantavam os olhos de quem ficava até meia noite para esperar a Missa de Natal.
Depois da campanha de Aluizio Alves contra Dinarte Mariz foi que as pessoas ficaram conhecendo o que era governador. O trio elétrico passava na Alexandrino de Alencar. Quando tinha passeata de Aluizio, o povo era vestido de verde, bandeiras e até galhos de árvores, era festa. De lá pra cá, toda criança hoje sabe o que é governador e prefeito.
O pai de Gilliard tinha uma movelaria, a mãe era professora. O foto de Jorge Mário, no Alecrim, era um sucesso. Tinha também a Farmácia Navarro, Celeste Cabeleireira, Armazém S. José, Movelaria Almeida, a feira do Alecrim. Tudo faz parte da história maravilhosa de Natal.
O bonde, as lotações, os acidentes do Baldo. Graças a Deus, hoje, o viaduto foi a salvação. Fiz até a 5a Série no Grupo Estadual Professor João Tibúrcio, Diretor Saturnino e a Professora Orione, e tantos outros que não esquecemos, com saudades dos nossos colegas.
O tempo não destrói o que se construir para a eternidade.
“Os justos brilharão como o sol no reino do seu pai” Mateus 13,43.
* Maria da Apresentação Silva de França é natalense
Ok, agora você pode estar a se perguntar: Mas Alex, como foi que você conseguiu esse texto? É que os França mantêm emoldurada e pendurada na parede até hoje, como um troféu precioso, a contribuição de dona Mariquinha aos 400 anos de Natal. É uma das maneiras que a família arranjou para manter viva a memória da matriarca, que partiu em agosto de 2004.

E foi rever esse quadro, naquele dia, que fez Naldo, meu bom e velho amigo, retomar o contato há anos perdido.
Carlão tinha essa marca, a da generosidade. Em seu velório, pelo menos três pessoas me procuraram para falar que estavam ali em gratidão por ele ter aberto espaço para que elas pudessem publicar nos jornais onde ele trabalhou.
Então, esta coluna é minha maneira, também, de homenagear meu velho pai e ter uma desculpa para voltar dar pitacos sobre livros que li ou ando lendo e, quem sabe? cultura.
Inté.
Maluvidos
Sagrado
Neste feriado de semana santa, o Cinépolis do Natal Shopping exibirá, de quinta a domingo, em sessão única, o clássico Ben Hur, de William Wyler. É simplesmente o maior romance gay do cinema cristão de todos os tempos. Já comprei meu ingresso.
Profano
Nesta quinta (2/4), Carito Cavalcanti lança O Tênis da Foto da Capa e Outras Histórias, livro de causos autobiográficos de um cara que viveu pra caramba. A festança será no Seburubu, a partir das 18h. Queira Deus que a chuva não atrapalhe e o lançamento precise ser adiado, senão Carito vai findar lendo o livro todinho pra gente nos vídeos que vem gravando para divulgar o lançamento.
Nas brechas
Vamos todos brechar de coração! Pedi a Larinha Paiva para me ceder este espaço em seu blog porque acho muito importante o trabalho que ela faz sobre jornalismo cultural e memória de Natal e do RN. O Brechando tá nessa trincheira há um tempão e, apesar de nunca termos tido a oportunidade de trabalhar juntos na minha época de redação, sempre reconheci esse esforço. E viva o Brechando!



Deixe um comentário