Canteiros Fagner

Canteiros é uma mistura de músicas feita por Fagner

brechadas
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A gente tem ódio em saber que Raimundo Fagner teve apreço pelo Jair Bolsonaro. No entanto, algumas músicas fizeram parte da vida de muita gente. Uma delas é “Canteiros”, que sempre está na set-list do artista e tem um dos começos que todo mundo sabe verso por verso, que é:

Quando penso em você

Fecho os olhos de saudade

Tenho tido muita coisa

Menos a felicidade

 

A canção foi lançada em 1973, no álbum de estreia do cantor, e, na ocasião, não fez muito sucesso. Posteriormente, quando o cantor já havia estourado lá pelas bandas do sudeste, a música se tornou um grande sucesso. Mas, você sabia que a música é uma junção de três poemas musicados por Fagner?

 

O primeiro poema é o de Cecília Meireles

Uma das inspirações do artista cearense foi o poema “Marcha”, de Cecília Meireles.Confira o poema completo, portanto, a seguir. 

 

As ordens da madrugada

romperam por sobre os montes:

nosso caminho se alarga

sem campos verdes nem fontes.

Apenas o sol redondo

e alguma esmola de vento

quebraram as formas do sono

com a idéia do movimento.

 

Vamos a passo e de longe;

entre nós dois anda o mundo,

com alguns vivos pela tona,

com alguns mortos pelo fundo.

As aves trazem mentiras

de países sem sofrimento.

Por mais que alargue as pupilas,

mais minha dúvida aumento.

 

Também não pretendo nada

senão ir andando à toa,

como um número que se arma

e em seguida se esboroa,

— e cair no mesmo poço

de inércia e de esquecimento,

onde o fim do tempo soma

pedras, águas, pensamento.

 

Gosto da minha palavra

pelo sabor que lhe deste:

mesmo quando é linda, amarga

como qualquer fruto agreste.

Mesmo assim amarga,

é tudo que tenho,

entre o sol e o vento:

meu vestido, minha musica,

meu sonho, meu alimento.

 

Quando penso no teu rosto,

fecho os olhos de saudades;

tenho visto muita coisa,

menos a felicidade.

Soltam-se os meus dedos tristes,

dos sonhos claros que invento.

Nem aquilo que imagino

já me dá contentamento.

 

Como tudo sempre acaba,

oxalá seja bem cedo!

A esperança que falava

tem lábios brancos de medo.

O horizonte corta a vida

isento de tudo, isento…

Não há lagrima nem grito:

apenas consentimento.

Foi essa estrofe que inspirou as duas primeiras de “Canteiros”, no qual o cantor não colocou Meireles no crédito, levando um processo das herdeiras, o acusando de plágio, uma vez que alterou algumas palavras.

 

O segundo poema/música é o trecho “Na Hora do Almoço” de Belchior

Já a segunda música que ele misturou foi de Belchior, no qual os versos são conhecidos são:

 

… E eu inda sou bem moço

Pra tanta tristeza.

Deixemos de coisas,

Cuidemos da vida,

Senão chega a morte

Ou coisa parecida,

E nos arrasta moço

Sem ter visto a vida

Ou coisa parecida 

 

Essa música faz parte do disco de 74 de Belchior, embora tenha concorrido em 1971 no IV Festival Universitário de Música Brasileira, promovido pela TV Tupi do Rio de Janeiro em agosto de 1971. Ganhou o troféu Bandolim de Ouro,  10 mil cruzeiros  e uma viagem à Europa.

A letra tem um clima de tensão constante que atravessa a recordação de alguém na hora do almoço em família. O pai à cabeceira, soberano e ele, o filho, olhando a tristeza no fundo do prato, pra isso está de cabeça baixa, contrariado. Sendo que Fagner mudou o foco do enredo para que ele está triste e com saudade da pessoa amada, mas que não deveria ser assim, pois era moço. 

Diferente de Cecília Meireles, Belchior e Fagner eram parceiros musicais. Juntos, eles compuseram a canção “Mucuripe”. 

 

Terceira música foi Águas de Março de Tom Jobim

 

Os versos da canção:

 

É pau, é pedra, é o fim do caminho

É um resto de toco, é um pouco sozinho

São as águas de março fechando o verão

É promessa de vida em nosso coração

Tom Jobim começou a compor a canção em 1972 após um dia cansativo trabalhando em “Matita Perê”. Certa vez, Tom mencionou em entrevista que compôs a música em um momento de muita tristeza.

Neste momento, ele utilizou a metáfora da ressaca e das chuvas que acontecem em março no Rio de Janeiro como uma forma de limpar as mágoas e recomeçar um novo ciclo. Por isso, o artista utilizou esses versos para dizer que nada como um tempo para curar a dor de cotovelo pela amada que está chorando pelos canteiros. 

O lançamento da canção foi feito em um Disco de Bolso, o “Tom de Jobim e o Tal de João Bosco”, e no ano seguinte no álbum “Matita Perê”. Por falar em 1973 foi na mesma época que Fagner lançou o seu primeiro disco. Assim, chegamos a mistura que uniu os três poemas que se transformou em “Canteiros”. 

Ou seja, Fagner criou um smash-up antes da música eletrônica. 

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