O sol do João está brilhando mais forte que nunca

Acompanhei o processo de transição de João Sol de uma pessoa tímida que vivia na minha casa com roupa dos pés à cabeça ao rapaz exibindo sua pequena barba e bermuda no aniversário de 20 anos da minha irmã.

O amigo que sempre contava as novidades de Portugal para ela e que juntos estão se tornando fortes adultos.

Carol, quando meus pais perguntavam sobre o jovem, sempre contava com um misto de felicidade e emoção os pequenos avanços deste garoto trans, hoje aluno de Pedagogia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), com uma namorada bacana que o aceita do jeitinho que ele é e finalmente pode utilizar seu nome social na certidão de nascimento, sem medo de ser feliz.

Solzinho, como alguns dos amigos chamam, tem a felicidade de ter o apoio da família, enquanto muitos trans não conseguem sobreviver. Por isso, o Brechando convidou para falar sobre os sentimentos e conta como foi essa trajetória que apenas está no começo.

O João contou que desde a infância nunca aceitou ter nascido biologicamente como mulher. “Nas lembranças mais antigas da minha infância eu já queria ser um menino, e houve inclusive uma época (por volta dos meus 8-9 anos) em que eu dizia que era pras minhas amigas da escola. Mas a consciência de ser homem trans veio quando eu tinha 14 anos e alguém compartilhou no Facebook um vídeo de um garotinho trans de 6 anos. Eu lembro muito bem de assistir esse vídeo, pensar “MEU DEUS, É ISSO O QUE EU SEMPRE SENTI”, e depois me trancar no banheiro e chorar desesperadamente por achar que nunca conseguiria me assumir pra sociedade”, relatou.

Sim, a própria aceitação foi a coisa mais complicada, principalmente por saber das questões da LGBTfobia. ” Se descobrir trans é processo de desconstrução muitíssimo complicado, principalmente considerando que eu venho de uma família extremamente católica e cresci permeado por esses valores. Me aceitar é uma luta diária que eu não sei se algum dia terá fim. A aceitação dos outros é um trabalho difícil, sim; mas com bastante paciência e uma boa didática eu tenho conseguido me virar”, comentou.

Após se identificar, era a hora de contar aos pais que aquela menina que eles viram crescer, na verdade era um menino preso no corpo errado. “O nascimento, como qualquer parto, foi bem doloroso. Até eles entenderem que não tinham “perdido uma filha” e que aquilo não era só uma fase nem coisa da minha cabeça, foi muito choro e muita briga. Mas agora eles são os melhores pais que uma pessoa trans poderia ter. Me acompanham em todos os processos, lutam por mim, me defendem, e fazem questão de mostrar como me amam. Claro que existem pensamentos deles que podem mudar (ainda enxergam várias coisas do mundo como coisas de menino ou menina), mas não tenho do que reclamar. Depois que eles começaram a me apoiar, não tenho mais medo de nada. Poder confiar na minha família é fantástico e não devia ser um privilégio”, relatou.

Tanto que o nome Sol foi escolhido pelo próprio pai. “João veio de um apelido no primeiro ano do IFRN, quando uma amiga minha da sala, Mariana, me chamava de Jão. Quando me descobri trans os meus pais não aceitavam nem um pouco que eu fizesse a transição, então me aproveitei do apelido para me apresentar para as pessoas. No momento em que eles finalmente decidiram me dar um nome, eu queria que eles escolhessem para se sentirem mais confortáveis), foi natural a escolha do João. Já Sol era o nome que meu pai sempre quis me dar.”.

Assim, na escola, todo mundo não chamava o João pelo nome de batismo e inclusive os professores, então isso ajudou a se sentir mais inserido na sociedade. No entanto, nem sempre isso aconteceu.

“O mais tenso que já aconteceu foi levar vários tapas na cara de uma garota louca no aniversário de um amigo meu, mas psicologicamente teve bem mais. Os amigos e familiares que passaram a me tratar diferente ou a nem me tratar pesaram muito”, lamentou.

Aos 18 anos, ele começou o seu tratamento hormonal e no ano seguinte passou no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em Pedagogia e agradece as pioneiras da UFRN, como Emilly Mel, de ter seu nome social na lista de chamada no Sigaa (Sistema que administra as aulas e matérias dentro da universidade).

“Ser trans na UF é ter a feliz certeza de um nome social na chamada. Obrigado Emilly Mel por isso. Mas, ao mesmo tempo, o medo cruel de entrar no banheiro. Infelizmente não me sinto totalmente seguro nem com visibilidade, porém sou muito grato por ser uma das poucas pessoas trans que conseguem chegar a esse grau de escolaridade e de poder desconstruir nem que seja um pouquinho a mente daqueles que vão me conhecendo”, disse.

Neste ano, a sua luta para ter seus direitos reconhecidos ganhou mais um avanço, quando conseguiu que o seu nome social fosse inserido na sua certidão de nascimento. A diminuição da burocracia ajudou muitas trans a terem o direito de ter nos seus documentos o seu nome de direito.

“Foi através do provimento do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para alteração do nome das pessoas trans. Eu só precisei juntar um montão de documento e levar no cartório. Ficou pronto em 5 dias úteis”, finalizou.

Agora, o João pode mostrar o seu sol aonde quiser.

É possível estimular os moradores de rua a lutar pelos seus direitos?

Pelo menos um grupo dentro da Universidade Federal do RN (UFRN) quer para aqueles que vivem sem uma casa através do projeto “Descartáveis urbanos ou cidadãos de direitos?”, para alguns isso deveria ser uma ideia utópica de estudantes de Ciências Sociais. Mas a ideia, que existe desde 2015, é coordenada por Maria Teresa Lisboa e Ana Karenina de Melo, professoras do Departamento de Psicologia. É resultado de trabalhos que vinham sendo desenvolvidos pelas professoras e por outros profissionais, vinculados ao Centro de Referência em Direitos Humanos (CDRH), no atendimento às demandas dessa parcela da população.

Os dados foram retirados no boletim da Agecom, agência de comunicação da UFRN.

Esse trabalho começou com o CDRH, em 2012, que era um programa financiado pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Ele perdeu o financiamento em 2016 e continuamos como esse projeto de extensão da Universidade vinculado apenas aos professores. Recentemente, o CDRH voltou ao campus universitário, próximo do setor de aulas II, sob o nome de Marcos Dionísio, homenagem ao grande militante da área.

Referência, Marcos Dionísio foi presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos e Cidadania do RN. A unidade funcionará no Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA) da UFRN, com psicólogo, assistente social e advogado, prestando assistência com o apoio de nove estagiários.

Autora da emenda parlamentar destinada ao funcionamento do CRDH, a senadora da República Fátima Bezerra, destacou que a atuação do centro é uma forma também de desmistificar uma interpretação incorreta que muitas pessoas têm a respeito dos direitos humanos. Sobre a homenagem, ela afirmou que tem um significado adicional.

O projeto está na sua quarta edição e tem articulado estudantes de cursos como psicologia, administração, serviço social e direito. As ações acontecem em conjunto com membros do Movimento da População de Rua do Rio Grande do Norte, conhecido como Pop Rua.

Dentre as atividades promovidas estão: Assessoria nas reuniões semanais do movimento; Oficinas de educação, arte e cidadania; Seminários temáticos sobre perfis específicos dessa população, como mulheres e LGBTs; Formação de lideranças dentro do movimento e Assessoria às equipes que atuam no Consultório na Rua da Rede de atenção básica. Além disso, o projeto fornece alimento e banho para aqueles que estão dias sem tomar banho.

Para a professora Maria Teresa, “São ações que acontecem na medida em que surgem demandas do próprio movimento e nós vemos no que podemos mais colaborar. Sempre nas reuniões discutimos os problemas e como pressionar o estado na elaboração de políticas públicas. O que eu vejo de positivo nesse processo é o seu fortalecimento, a formação de lideranças e, também, a formação dos estudantes para trabalhar com populações vulneráveis”.

O projeto Descartáveis Urbanos possui várias frentes de trabalho e toda elas acontecem na intenção de aliar atividades de pesquisa com ações de intervenção, ou seja, na medida em que se estuda o perfil da população de rua e as suas demandas, ela recebe orientação sobre as formas mais apropriadas de atendê-las e se mobilizar a respeito.
Um exemplo de intervenção do projeto foi na solução de um problema relacionado a uma pauta nacional do movimento: o afastamento compulsório de mães em situação de vulnerabilidade social de seus filhos.

Uma questão recorrente nas pesquisas relacionadas a pessoas em situação de rua é explicar o problema apresentando as seguintes causas: rompimento do vínculo familiar, o uso de álcool e outras drogas e o desemprego. Porém, ao se deparar com a história de vida dessas pessoas é perceptível que apontar uma causa específica para justificar a situação de rua, é uma forma de negar a complexidade de cada história, negligenciando aspectos como o contexto social e a singularidade das pessoas.

Para Anna Carolina, uma das colaboradoras do projeto, a experiência de colaborar com o projeto e lidar com pessoas com histórias diferentes tem sido motivadora “Acho que uma das coisas mais emocionantes de trabalhar com eles é que, mesmo com todas as dificuldades que existem, cada um tem a sua singularidade e, ainda sim, eles conseguem se unir e produzir algo para o coletivo. Eles me inspiram todo dia”, revela.

Dentro do projeto, surgiu alguns coletivos de rua, como o Movimento da População de Rua do Rio Grande do Norte (Pop Rua RN) começou a ser articulado em 2012, mediante ações do Centro de Referência em Direitos Humanos (CDRH) voltadas para a conscientização dos problemas que envolvem a população e dando suporte para mobilizações.

Segundo Vanilson Torres, coordenador local do movimento, a pauta central atualmente é moradia digna, pois a partir dessa conquista, outras políticas públicas se tornam mais acessíveis. “Existe uma diferença entre moradia e moradia digna. Quando falamos em moradia digna nos referimos a toda uma estrutura que uma família precisa como uma escola, posto de saúde, transporte público e saneamento. A moradia comum é um lugar distante sem acesso a essas coisas”, ressalta.