Elas preferem ver satanás do que machista escroto na rua – Brechando

Elas preferem ver satanás do que machista escroto na rua


Na segunda reportagem especial do Dia Internacional da Mulher, o Brechando entrevistou a banda Demonia, formada por meninas e tem conteúdo criticando o capitalismo, o machismo e as situações políticas que estão rolando. Durante a entrevista falou sobre machismo, representatividade e também sobre o cenário musical de Natal para mulheres.

Os diálogos iniciais da gente era:

“Hey, eu te conheço, sempre te via no Saga e Yujô. Você andava com os otakus da Sociedade dos Cadáveres Mortos (grupo que participava quando adolescente alternativa de Natal e tinha um blog no wordpress)”
“Nossa, não sabia que você conhecia aquela menina! Natal é um ovo!’
“Natal conhece todo mundo!”
“Cuidado com o gato, ele tá com a orelha ferida” – disse uma delas, após ter tido ataque de fofura com os gatos do restaurante e colocado uma no meu colo.
“E agora, vamos fazer a entrevista no local com mais barulho ou voltamos para mesa da frente ?”

Foto: Luana Tayze

O rock e a mulher sempre existiu, mas o machismo ainda as perseguem. Principalmente, na cena punk. Quantas bandas só de meninas deste estilo você conhece? E as brasileiras? Você já ouviu falar de Mercenárias? Dominatrix ? Aqui em Natal, por exemplo, existem várias bandas punks de garotas, porém uma delas está começando a dominar a cena alternativa.

Em meio às 666 digressões que tivemos em meia-hora de entrevista, eu e as meninas do grupo Demonia (sem acendo circunflexo mesmo) concordamos em uma coisa: a sociedade patriarcal tem que parar e ficamos denunciando um monte de coisa escrota que acontece todos os dias. A famosa sororidade. Elas cresceram vendo a Pitty, Rita Lee e dentre outras mostrando que uma mulher pode dominar o velho e bom rock and roll. Agora, elas acompanham a repercussão nacional que as potiguares Emmily Barreto e Cris Botarelli, do Far From Alaska, estão tendo. As Demonias querem, no entanto, muito mais que mulheres no rock, mas que sejam capazes de lutar contra o patriarcado.

Apesar de viverem em meios alternativos, onde deveria ter uma mente mais aberta, a mulher ainda é colocada à prova para mostrar que é capaz e competente. “Teve um show lá em Recife, que fiquei falando o tempo todo para retornar o som da minha guitarra e o técnico de som ficou o tempo todo fingindo de doido ou perguntando se eu tinha certeza do que estava falando”, comentou Nanda Fagundes, uma das guitarristas do grupo.

“Mesmo com todos esses problemas e o som ter ficado uma bosta. O show foi incrível e ficamos mais felizes ainda quando vimos o nome da banda ter sido falado no site da revista Rolling Stone. Legal que a gente se juntou apenas em agosto e já estamos rodando para outras cidades do Nordeste”, afirmou Karina Moritzen, que assume os vocais do Demônia, em entrevista para o Brechando, no qual encontrei três das cinco integrantes no Mahalila, no conjunto Potilândia.

Além de terem sido faladas na Rolling Stone, elas também vão tocar no Garage Sounds, festival itinerante que acontece no dia 11 de março em Natal, no estádio Arena das Dunas. “Se você falasse para mim que eu iria tocar em Recife no Guaiamum Treloso, no mesmo dia que a diva Elza Soares e que iria aparecer no site da revista Rolling Stone, eu iria rir bastante e não acreditaria”, contou Isabela Graça, a outra guitarrista da trupe.

Como falado anteriormente, o grupo surgiu não tem um ano, mais precisamente em agosto de 2017, quando a Moritzen, que já tem experiência com outras bandas e discotecagens nas festas, queria unir a mulherada para tocar um bom rock por aí. “Todas nós temos experiência com bandas, mas sempre tocando com homens. O engraçado é que ninguém se conhecia direito. Apenas Raquel (Soares, bateria) e Karla (Faria, baixo). A Karla por sinal foi uma das organizadoras do festival Girls on X, que aconteceu no início dos anos 2000 e reuniu bandas de garotas. Mas, a gente sentiu rapidamente a conexão e ficamos logo amigas. Na metade do primeiro ensaio foi lá no estúdio, que fica aqui mesmo em Potilândia, a gente já tinha a nossa primeira música”, relatou a vocalista.

Ambas comentaram que o rock sempre foi o primeiro estilo que começaram a escutar, apesar de ter preferência de outros estilos musicais. “Eu cresci com minha família escutando rock em casa”, disse Nanda.

No meio do bate-papo, tivemos uma revelação, um crush de amizade. Você achava que isso era apenas para casos românticos? “Hey, Karina, vou te contar que tinha te visto no Ateliê Bar com um top com estampa de abacaxi e você estava lá dançando no palco. Quando te vi lá, fiquei dizendo: ‘Caramba, eu preciso ficar amiga desta menina, que boy massa!’ Não sabia que isso iria acontecer tão rapidamente!”, admitiu Isabela.

Surpresa, Karina disse: “Eu? Dançando? Mulher, eu acho que estava discotecando, nunca pagaria um mico desse no palco. Lara, pode colocar na entrevista que não estava dançando (risos).”.

Elas denominam o estilo de punk “Foda-se”, no qual a intenção é tocar cada vez mais o dedo na ferida das coisas que estão mais erradas, inclusive políticos que aprovam coisas retrógradas e capitalismo exacerbado. Mesmo sendo conhecidas, elas ainda temem andar pelas ruas sozinhas, com medo de assédio sexual e dentre outros tipos de violência. “Tem uma música nossa que um dos versos é: ‘Eu prefiro ver o satanás do que um macho’. Isto mostra como a gente ter medo de ser violentadas”, explicaram.

Outro objetivo delas é também estimular mais mulheres a participarem da cena musical.

Elas falam que ficam muito felizes em ver meninas participando de roda de pogas nos seus shows e cantando as suas canções. “Isso é muito bom, eu cresci nos shows na Ribeira vendo a maioria dos homens tocando e quando tinha mulher, a plateia era masculina. Vendo que mais garotas estão podendo curtir o nosso som sem ser julgada é muito bom”, comentou a Graça.

A Karina disse que o grupo recebe várias mensagens de garotas mostrando que se sentem representadas com Demonia. “Teve uma vez que fomos para Mossoró e depois que umas meninas assistiram o nosso show, elas montaram a própria banda, isto é muito gratificante. No nosso último show, que aconteceu no Bunker (na rua Dr. Barata, na Ribeira), havia uma poga de mulheres. Ainda cantando as nossas músicas, no qual ainda gravamos. Isto foi muito massa!”, vibra a vocal do quinteto.

A representatividade feminina não para, uma vez que elas irão tocar no Bar do Zé Reeira em um evento homenageando o Dia Internacional da Mulher.

“Quanto mais mulheres serem estimulada por familiares e amigos a tocarem instrumentos, vai aparecer mais meninas fazendo um bom som. Quando era pequena queria aprender guitarra, mas minha família achava que era coisa de menino. Então, eu fui aprender a tocar violão erudito na Escola de Música, algo que não curtia muito. Então, pais, estimulem os filhos a fazerem o que gostam”, finalizou a Karina.

Para saber mais das gurias acesse a fanpage.


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