Quem foi o Blackout?

A gente conhece Nísia Floresta, Auta de Souza, Ferreira Itajubá e dentre outros. Mas, existem muitos poetas no Rio Grande do Norte, principalmente na década de 70, 80 e 90. Um deles foi o Edgar Borges, vindo do bairro de Mãe Luiza, na época que ainda era tomado por barracões, e além de trabalhar como pintor e eletricista, o mesmo usava seu pseudônimo de Blackout, quando divulgava seus poemas por dinheiro ou refeições no Café São Luiz, na Rua Princesa Isabel. Ele vai ser homenageado por jovens poetas potiguares neste sábado (3), no Bardallos, mas vamos contar a história deste homem massa a seguir.

A sua biografia é bastante difícil de contar, mas fica na memória dos grandes nomes da literatura potiguar. O pouco que sabemos é sobre o fato dele ter nascido no dia 16 de outubro de 1961, estudou em um Colégio Interno do Governo do Estado e encaminhado para o Ginásio Agrícola de Currais Novos.

Sua vida era cheia de problemas, muitas vezes divididas, entre as ruas e as noites passadas no Hospital Psiquiátrico Dr. João Machado, na capital potiguar. Durante o tempo que ficou internado, o psiquiatra Franklin Capistrano, que também se dedica à literatura, o diagnosticou com hebefrenia, uma perturbação psíquica que se desenvolve ao término da puberdade.

O seu primeiro livro foi publicado aos 20 anos, com ajuda da Cooperativa dos Jornalistas de Natal (COOJORNAT) e amigos chamado “Duas Cabeças”, numa edição bem simples. Além disso, participou da antologia “Geração Alternativa”, organizada por J. Medeiros e, também, publicou alguns poemas dispersos em jornais locais, todos completamente inéditos em livros. Não tem outras edições do livro e só achei o registro da capa, veja:

Capa de Duas Cabeças

Confira um dos poemas do livro a seguir:

ALEGRIA

Na mesma praça
eu conto
eu canto
faço melodias

Na mesma estrada
eu ando
eu traço
eu acho
eu passo a rir…

Na mesma hora
eu marco
eu cato
eu subo a te,
faço descer;
mas estou aqui.

No mesmo instante
eu perco
eu planto
eu sambo e faço nascer.

CERTAS PALAVRAS

Minha poesia
é raiz
é o ritmo percute
de uma rima
à lançar
sou amplidão em versos.

Ficou conhecido por ser um poeta da contracultura e por participar de diversos saraus e eventos relacionados à poesia na década de 70 e 80. Participava de eventos ligados ao Dia da Poesia, junto com outros poetas que vieram de origem mais nobre, como Augusto Lula, Carlos Gurgel, Dorian Lima, João da Rua (que tem um estilo parecido), Miranda Sá, Novenil Barros e dentre outros.

Confira a declamação dele no poema “Outro Dia” em um evento na Capitania das Artes, no ano de 1997:

Mesmo conhecido nos eventos de poesia na cidade, o Blackout faleceu no anonimato, no dia 14 de dezembro de 1999, quando morreu eletrocutado quando fazia serviço numa casa no Centro de Natal. O jornalista Flávio Rezende moveu céus e terras para fazer um enterro digno do poeta que ficou preso na geladeira do Itep (equivalente ao Instituto Médico Legal no Rio Grande do Norte) por vários dias.

Antologia Blackout

A produção poética em Natal ganha mais uma nova compilação: a antologia Blackout. O lançamento ocorrerá na próxima sexta-feira (3), no Bardallos comida & arte (Rua Gonçalves Lêdo, 678, Cidade Alta), a partir das 19:00. Além de um sarau poético, o evento contará com atrações musicais: Luan Bates, Binnê e Uma Senhora Limonada.
Reunindo 18 poetas da chamada “novíssima geração”, o projeto tem como objetivo a publicação de poetas ainda inéditos em livro, até a reunião dos textos, além de fazer um panorama fiel do que é produzido, em termos de poesia, na Natal de agora.

Ayrton Alves Badriyyah e Victor H Azevedo, ao longo de um ano, trabalharam na seleção dos nomes, na captação dos poemas e na produção artesanal do livro, em edição cartonera, com a finalidade de torná-lo mais acessível ao público.

Ao longo de 144 páginas; Murilo Zatu, Olga Hawes, José Zapíski, Ana Mendes, Ian Itajaí, Gabrielle Dal Molin, Caroline Santos, Maíra Dal’Maz, Igor Barboà, Maluz, Ionara Souza, Pedro Lucas, Folha Joice, Jota Mombaça, Gessyka Santos, Ayrton Alves Badriyyah, victor H Azevedo e Fulô; escrevem sobre tudo, a partir da percepção oferecida ou dissolvida por essa cidade.

Foto: Franklin Jorge

80% das pessoas não sentem seguras na Ponte de Igapó

Construída há mais de 100 anos, a Ponte de Igapó é um dos mais famosos acessos para os bairros da zona Norte, onde carros, ônibus, pedestres e trens circulam todos os dias. No entanto, os noticiários apontam sobre as operações policiais e troca de balas com os traficantes da comunidade do Mosquito, que fica as margens da estrutura ou da falta de reparos. Recentemente, uma pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte apontou que 79% das pessoas que trafegam no espaço não se sente seguros de passar naquela região.

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A pesquisa faz parte do rupo de Pesquisa de Dinâmicas Ambientais, Riscos e Ordenamento do Território (Georisco), vinculado ao Departamento de Geografia. O trabalho buscou identificar qual a percepção da população potiguar frente ao risco de desastres tecnológicos na ponte e a real condição de conservação do equipamento, com a aplicação de questionário na internet e uma visita técnica com acompanhamento da Capitania dos Portos de Natal e da Marinha do Brasil, no dia 21 de março de 2017. Os resultados do estudo foram apresentados à Coordenadoria Estadual de Proteção e Defesa Civil (CEPDEC) durante o V SEM Desastres, seminário realizado pelo Georisco em outubro. O grupo, também, prepara um novo documento para encaminhamento ao Ministério Público do Rio Grande do Norte.

Com a visita técnica, os pesquisadores constataram danos causadas pela ação natural do meio ambiente, pela ausência de manutenção e pelo impacto de cargas que circulam na extensão da ponte. Entre as rupturas identificadas estão a desagregação do concreto, a oxidação dos pilares e algumas perfurações nas estacas de fundação. A dinâmica da maré e agentes externos como aumento da salinidade, erosões flúvio-marinha e eólica, além das chuvas são, em grande parte, os fatores responsáveis pela corrosão das ferragens da estrutura e desagregação do concreto.

Erguida sobre o estuário do Rio Potengi, a Ponte de Igapó, cujo nome oficial é Presidente Costa e Silva, é a principal via de acesso da população da Zona Norte e de municípios vizinhos, como Ceará-Mirim e Macaíba, às demais zonas da cidade de Natal. Construída há 47 anos, a estrutura de concreto armado não passa por reparos há 27 anos. Embora a cidade conte hoje com um novo equipamento, a Ponte Newton Navarro, que liga os bairros de Redinha e Santos Reis, a Ponte de Igapó continua sendo muito utilizada, atendendo a um grande fluxo de transporte de passageiros. Pelo tempo que foi construída, já foi alvo de especulações sobre um possível desabamento, devido ao desconhecimento de reformas na estrutura.

Relatórios do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea) também foram utilizados para sustentar a pesquisa. “A ponte de Igapó opera em uma capacidade de carga muito maior do que a prevista em seu projeto. Isso implica diretamente nos desgastes das estruturas, que também sofrem influência de agentes naturais erosivos”, explica Jhonathan Lima, um dos pesquisadores do projetos em entrevista para UFRN.

Com relação à percepção das pessoas sobre o equipamento, o estudo foi realizado com 289 que responderam à pesquisa por meio de questionário online e 100% dos entrevistados disseram acreditar que não ocorre nenhum tipo de manutenção periódica na ponte. Os resultados também apontam que 79% não se sentem seguros ao cruzarem o trecho de pouco mais de 500 metros e 88% declararam que já pensaram na possibilidade de desabamento da estrutura.

Dos participantes da pesquisa, 56% residem na Zona Norte de Natal, 22% na Zona Sul, 13% são de municípios vizinhos, 7% vivem na Zona Oeste e 2% moram na Zona Leste da cidade. Destes, 80% afirmaram que seriam prejudicados em uma possível interdição da ponte, o que demonstra a importância da edificação para Natal.

A estrutura tem 606 metros de extensão, 12,6 de largura e recebe um fluxo de 37 linhas de ônibus municipais, 14 linhas de ônibus interurbanos, 13 viagens diárias de trem, além do tráfego de aproximadamente 60 mil veículos diariamente. A última manutenção foi realizada em 1990, segundo o DNIT. Os resultados da pesquisa foram apresentados no IV Congresso Internacional de Riscos, Prevenção e Segurança, na cidade de Coimbra, em Portugal, de 23 a 26 de maio de 2017 e no II Congresso Brasileiro de Redução de Riscos e Desastres, no Rio de Janeiro, realizado de 11 a 14 de outubro.

De acordo com os pesquisadores, a falta de um Sistema de Gestão aumenta a vulnerabilidade das estruturas da ponte, que somada ao perigo dos agentes naturais do ambiente e ao aumento do fluxo de carga, tornam maior a exposição ao risco de desastres nas estruturas. Dentro do sistema proposto é apontada a necessidade de aquisição de dados periódicos sobre a estrutura, estudos geotécnicos e a capacitação de um corpo técnico para vistorias e reparos.

“A falta de manutenção cria sensação de insegurança. Consideramos importante a prevenção dessas estruturas”, explicou Lutiane Almeida, coordenador do Georisco, grupo responsável pela pesquisa. Ele apontou, ainda, a necessidade de criação de sistemas de monitoramento para evitar acidentes e desastres. Apesar dos indicadores de vulnerabilidade, o grupo alerta que a ponte não corre o risco de cair.

A primeira ponte sobre o rio, a Ponte de Ferro, existe há um século e, embora esteja sobre ruínas, resiste ao tempo e embeleza o estuário do Potengi, no trecho de quem entra e sai da Zona Norte de Natal. O equipamento foi construído pelos ingleses, em 1916, para suprir a demanda do fluxo ferroviário, impulsionando o setor exportador das commodities, base da economia extrativista do estado. Naquela época, até meados de 1950, o trem era o principal meio de transporte e servia para o escoamento da produção da cana-de-açúcar vinda de Ceará-Mirim e da produção do sal da cidade de Macau para o porto de Natal.

Com o aumento da frota automobilística, o monumento de ferro foi desativado em 1970 e edificada uma segunda ponte sobre o rio, desta vez de concreto armado, batizada de Presidente Costa e Silva e conhecida popularmente como Ponte de Igapó.

Mais tarde, em 1988, a última parte (sentido Centro-Zona Norte) foi edificada, aumentando a mobilidade, ganhado status de rodoferroviária. A ponte de Igapó continua sendo até hoje a principal via de acesso da zona norte às demais zonas da cidade. Depois dela, está a ponte Newton Navarro, inaugurada em 2007.