[Artigo] Política é coisa de homem? Não aqui no RN

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Recentemente, o vereador Cicero Martins, do PTB (Partido do Trabalhador Brasileiro), durante a sessão sobre a votação do empréstimo do Fundo Previdenciário, brigou com os servidores que estavam protestando na Câmara Municipal de Natal e soltou a seguinte frase: “Isso aqui é o lugar de homem” (vídeo no final da matéria). Lembrando que o professor de biologia, que faz aula de cursinho online, tentou várias vezes ser candidato. Esta é a primeira vez que foi eleito e já solta este tipo de argumento. Mas, será que política é mesmo coisa de homem? Que sentido que ele queria falar que é homem? Por que as pessoas ainda associam às pessoas corajosas como homem? Mulher não pode ser corajosa? Ou ter participação política precisa apenas as participações de homens? Os motivos por ter referido a palavra homem ao invés de corajoso não foi explicado, muito menos nas redes sociais.

Edit: O vereador na tarde desta quarta-feira, na Câmara Municipal, pediu desculpa pela expressão “por ter parecido machista”, conforme foi noticiado no Novo Jornal.

Mas aqui no Rio Grande do Norte isto não encaixa, visto que as mulheres sempre tiveram uma forte participação política, como Celina Guimarães (foto acima), professora brasileira primeira eleitora do Brasil, que votou no dia 5 de abril de 1928, numa época que mulheres não podiam votar. Com o advento da Lei nº 660, de 25 de outubro de 1927, o Rio Grande do Norte foi o primeiro Estado que, ao regular o “Serviço Eleitoral no Estado”, estabeleceu que não haveria mais “distinção de sexo” para o exercício do sufrágio. A ação dela estimulou que no Código Eleitoral Brasileiro de 1932 permitisse que as mulheres votassem.

Sim, se não fosse uma mulher, potiguar (enfatizar bem a palavra), há quase 90 anos trás, nenhuma mulher brasileira poderia votar. Por falar na mulher norte-riograndense, é ela que tem a maioria dos votos, como já falamos no blog, elas representam 55% do eleitorado de todo o Rio Grande do Norte. Portanto, se não fosse as mulheres, muitos vereadores do sexo masculino nem seriam eleitos, deixando apenas Carla Dickson, Ana Paula, Natália Bonavides, Eudiane Macedo, Julia Arruda, Eleika Bezerra, Wilma de Faria e Nina Souza como representantes femininas.

Por falar em Wilma, sua colega de trabalho, caro vereador, sabia que ela foi a primeira prefeita de Natal e governadora do Rio Grande do Norte? Verdade, podemos não concordar com algumas ações dela, mas precisamos reconhecer a importância histórica dela na capital potiguar, visto que outras pessoas mulheres não conseguiriam se candidatar neste cargo em outros ou se eleger.

Cícero Martins disse que a CMN era lugar de homem

Realmente, não é um lugar para mulheres, como disse Cícero Martins, mas isto é por enquanto, visto que na gestão de 2012-2016 só tinham quatro mulheres: Amanda Gurgel, Julia Arruda, Eleika Bezerra e Eudiane Macedo. Houve um aumento de 100% de mulheres representando a população. Isto mostra que o lugar está sendo conquistado aos poucos e que não é mais para lugar de homem.

Ainda tenho mais argumentos para falar que política é coisa de mulher e que o Rio Grande do Norte é um ótimo exemplo. Vereador Cícero Martins, você conhece a Alzira Soriano? Luíza Alzira Soriano Teixeira foi a primeira prefeita eleita no Brasil e na América Latina. Tomou posse no cargo em 1º de janeiro de 1929. Viúva, Alzira Soriano disputou em 1928, aos 32 anos, as eleições para a prefeitura de Lajes, cidade do interior do Rio Grande do Norte, pelo Partido Republicano, e venceu com 60% dos votos, quando as mulheres nem sequer podiam votar.

Mas foi pouco tempo de administração, apenas sete meses. Com a Revolução de 1930, Alzira Soriano perdeu o seu mandato por não concordar com o governo de Getúlio Vargas. A responsável pela indicação de Alzira como candidata à Prefeitura de Lajes foi a advogada feminista Bertha Lutz, uma das figuras pioneiras do feminismo no Brasil.

A administração de Alzira Soriano à frente da Prefeitura de Lajes resultou na construção de novas estradas, como a que fazia a ligação entre os municípios de Cachoeira do Sapo e Jardim de Angicos. Ela também construiu mercados públicos distritais, fez escolas e cuidou da iluminação pública a motor.

Somente com a redemocratização, em 1945, Alzira Soriano voltou à vida pública, como vereadora do município de Jardim de Angicos, onde nasceu. Foi eleita por mais duas vezes consecutivas, liderando a União Democrática Nacional (UDN). Chegou à Presidência da Câmara de Vereadores mais de uma vez. Aos 67 anos, Alzira morre em 28 de maio de 1963 por complicações de um câncer.

Com muita luta na vida política, outras mulheres garantiram que, pela primeira vez, a Constituição brasileira consagrasse, entre outros aspectos, o princípio de igualdade entre os sexos, o direito do voto feminino e as garantias de proteção ao trabalho da mulher. São elas: Maria do Céu Pereira Fernandes, a primeira deputada estadual eleita do Rio Grande do Norte, em 1934, sim outra mulher potiguar quebrando os padrões da política brasileira. Poderíamos também citar outras mulheres importantes na política brasileira, como Joana Bessa, eleita a primeira vereadora do Rio Grande do Norte, no município de Pau dos Ferros, no ano de 1928. Alguns apontam que foi a primeira vereadora do Brasil.

Portanto, não dá para falar na Câmara Municipal do Natal que isto é um lugar para homem, sabendo que o estado do Rio Grande do Norte foi de suma importância para entrada de mulheres na política brasileira. Ou seja, uma frase infeliz e retrógrada.

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