Quero fazer um artigo para falar da minha avó de 85 anos

Adoro esta foto acima, vovó tava feliz demais, pois conseguiu criar quatro filhos, que tiveram muitos netos, que se formaram numa universidade, algo que ela nunca imaginaria que isto fosse acontecer. Fui a segunda neta a formar e a primeira numa federal, isto foi muito importante para ela, assim como quando minha mãe passou na UFRN na década de 80, algo que nem era pensado.

Hoje é dia 28 de fevereiro, uma terça-feira de carnaval, mas ao mesmo tempo lembro que é o aniversário da minha avó Áurea que completa 85 anos, bem vividos e cheio de aventuras. Para quem me conhece sabe das histórias da minha avó pelo fato de ser evangélica e sempre ficar falando dos meus cabelos coloridos, piercings e tatuagens. Mas neste texto também vou contar algo que nunca falei: minha avó é foda.  Olhando a biografia dela, podemos contar que ela foi um pouco para frente em muitos quesitos.

Ela nasceu numa cidade chamada Tangará, no dia 28 de fevereiro de 1932. Quase que nasceu no dia 29 de fevereiro, pois aquele ano era bissexto. Era a segunda de 12 filhos, todos com a letra A. Ela vivia numa fazenda próspera com a família e os irmãos. Meu bisavô era empresário da cidade. Diziam que ela era rainha das traquinagens, no qual fala que assustava as pessoas colocando um sapo dentro de uma rede. Na época, fazer traquinagem era “coisa de menino” e muitos a criticavam por conta disso. Não importava, ela continuava mesmo assim.

A vida na fazenda daria uma pausa brusca, pois na década de 50, a sua mãe havia morrido ao tentar dar a luz ao 13º filho e rapidamente viu o seu pai casando novamente. Então, ela resolveu se mudar para Natal e criar o seu irmão, caçula, o Alcemir, que a sempre chamou de “mainha”.  Sempre batalhou para ser independente, fez o curso de corte e costura, trabalhou e sempre quis ser uma mulher independente.

Vovó sempre gostou de se vestir do jeito dela. Ela era bem estilosa, gostava de se enfeitar e de vestidos, também não tinha vergonha de mostrar as pernas grossas.

Vovó com a turma que se formou no curso de costura. Ela é a terceira de baixo, da direita para esquerda, o vestido mais curto das formandas

Na década de 50, ela conheceu o meu avô, o Gilberto. Um motorista de táxi, natural da cidade de Pedro Velho e desde cedo estava batalhando na capital potiguar. Minha avó conta que o início do romance era bem novela mexicana, mas mesmo assim resolveram se casar por apenas quatro meses de namoro, apesar de muitos a questionaram o porquê de casar com aquele motorista.

Sim, meus jovens, preconceito com empregos considerados populares sempre existiu. Mas, ela casou com quem quis e não ligou muito para opinião.

A vida de casada, inicialmente, foi bem difícil. Meu avô ficou desempregado e eles tinham filhos pequenos para criar. Foi aí que minha avó botou a cara no sol e resolveu ir trabalhar. Voinha virou sacoleira e vendia as suas muambas por toda Natal e foi assim que conseguiu garantir o sustento da família. Apesar do povo criticar pelo fato de ser mulher e trabalhar fora de casa, ela não ligava muito para isso, gostava mesmo de ter seu próprio sustento.

Sambava mesmo na cara das inimigas.

Vovô, vovó, tia Ana, tio Beto e meu primo Gibão na mercearia. O garotinho que tá embaixo não sei

Vovô tinha arranjado um emprego de motorista na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e vovó queria crescer, foi assim que surgiu a famosa mercearia que ficava entre Petrópolis e Mãe Luíza, onde era sua válvula de escape e alegria. Minha mãe dizia que parecia uma conveniência 24 horas e que sempre vivia movimentada. Lá vendia de tudo mesmo.

Vovó sempre foi muito workaholic

Com a família prosperando, meus avós saíram de uma casa alugada no Alecrim, caindo aos pedaços, para uma casa novinha em folha no conjunto Potilândia. Vovó ficou relutante, porque gostava de ficar em bairros mais centrais e achava aquele local longe. Acho que ela hoje gosta de ficar por lá, onde apareceu os netos (sabia que ela foi avó pela primeira vez aos 40 anos?), mais um filho e dois bisnetos.

Ela vive lá até hoje, vendendo suas coisinhas, conversando com o vizinho e pedindo para que meus primos (que moram com ela) a levem à padaria.  Quando a gente pensa que ela não poderia surpreender, ela surpreende, quando converteu ao protestantismo na década de 90 e hoje é a sua fonte de entretenimento, onde faz amizades e também sai um pouco de casa.

Foi neste período que eu nasci e desde pequena escuto coisas como: “Não escute essas músicas não”, “Pare de se furar, menina” e ela ficou super chateada com o fato de ter feito uma tatuagem. Mas, mesmo assim, ela se preocupa com meu bem-estar, diz que o importante é que eu seja feliz e adora quando os netos visitam por conta própria, adora fazer comida para eles e quer que eles se sintam o mais à vontade possível. Ela também adora conversar, ótima para fazer amizade e é cheia dos assuntos (meu espírito tagarela veio dela). Sabia que foi ela quem me deu o primeiro banho depois que minha mãe e eu saímos da maternidade?

Mesmo idosa e fechando a mercearia, ela nunca pensou em se aposentar, já tentou fazer marmitaria, roupas, costura e dentre outras atividades. Ela me ensinou como dar a volta por cima, quando perdeu o marido e o irmão quem criou em um intervalo de dois meses, foi quando começou a se ocupar e ter força de vontade para superar os problemas.

Hoje, ela vende Romanel (fica a dica aí, galera), se cuida, se vira para fazer esportes e fica ligando 15x ao dia para minha mãe. Queria ter esses 85 anos dela!

Antes que esqueça, parabéns, vovó!